• Marcus Vinícius Beck

O amor vale a pena

Resenha

Com título de 'Nenhuma Dor', novo álbum da cantora Gal Costa ganha versões em CD e vinil. Disco é um alento em tempos em que o afeto se tornou banal

Desde 2011, quando lançou ‘Recanto’, Gal estabeleceu diálogo com público mais jovem - Foto: Reprodução



Gostei do disco “Nenhuma Dor” por preservar o ritmo dançante ora bossa-novista, ora tropicalista, mas muito Gal Costa: a cantora chega ao seu trigésimo primeiro álbum de estúdio mostrando por que é uma das artistas mais importantes da música brasileira. Gal brilha como um diamante caído no chão numa noite de volúpia e prazer, bem típica dos tempos em que nossos prazeres não representavam riscos à vida, em que éramos felizes e não sabíamos.


“Nenhuma Dor” abre com uma batida suingada e sensual que mantém explícito a assinatura do violonista João Gilberto. A impressão que dá é que colocamos para tocar o clássico “Chega de Saudade” (1957), mas a verdade é que Gal pode ser definida como uma filha legítima da bossa-nova: afinal, ela ouviu de João, antes mesmo de sair da Bahia, que tinha uma voz potente e poderosa. Essa característica resiste ao tempo.


Sem dúvida, “Avaranda” é um convite de honra para seguirmos ouvindo o disco. Composta por Caetano Veloso, a faixa foi dominada por Rodrigo Amarante, da banda Los Hermanos, ao colocar com maestria voz, violão, baixo, bandolim, piano, percussão e arranjo de base. Não é a única música de Caetano presente em “Nenhuma Dor”, provando que o autor de “Transa” realmente é o compositor mais interpretado da MPB. Ou seja, é a milésima vez que a diva dá vida aos versos de um dos nossos maiores cancioneiros populares.


Em “Só Louco”, música assinada Dorival Caymmi, mais um compositor eternizado por Gal e a quem ela já chegou a dedicar todo um disco de estúdio, há um dueto entre a musa da Tropicália e Silva – um dos maiores expoentes da nova geração da música brasileira. A suavidade da canção, cujos timbres de voz dela e dele conversam entre si, traz um sentimento de paz, como se estivéssemos beijando o crush entre uma cerveja e outra enquanto confabulamos a derrocada da caretice. e planejamos a queda do capital.


Abre alas: qualquer forma de amor vale a pena. É-lhe familiar? Comece tais versos? Ora, esse libelo da nossa música foi gestada por Caetano Veloso e Milton Nascimento, e é obrigatória no repertório de qualquer apaixonado por música brasileiro. Em “Nenhuma Dor”, a canção fica melhor ainda, pois conta com a participação de Criolo: impossível não traçar um paralelo entre o engajamento político dele com a postura transgressiva que a tropicalista defendeu em sua obra e vida, sempre comprometida em gerar boas sensações em nós, meros mortais.


Como o amor foi tão injusto? E eu lá sei. O que eu sei é: esse verso, de “Paula e Bebeto”, é acompanhado por um surpreendente instrumental. Cantada com o português Antonio Zambujo, os violinos, violas e arranjos de Felipe Pacheco Ventura trazem uma textura melódica para a música sensível. E olhe que essa faixa não é a única com a presença gringa, não: Gal faz dueto com o uruguaio Jorge Dexler em “Negro Amor”. Dá para escutá-la por horas e horas sem enjoar.


“Meu Bem, Meu Mal” é das mais famosas do repertório de Gal, porém a cereja do bolo, em minha opinião, fica a cargo de “Juventude Transviada”, hino eternizado por Luiz Melodia. A versão ganha o charme vocal de Zé Ibarra. O jogo vocal dos dois, alternando entre o agudo estridente e o grave sedutor, provocam uma sensação apaixonante. Gal, aliás, foi responsável por impulsionar a carreira de Melodia, assim que ele deixara o Estácio rumo à Zona Sul do Rio de Janeiro.


Em “Baby”, outra música famosa no repertório de Gal, há uma parceria com Tim Bernardes: os dois se mostram em sintonia, em estilo, ritmo, timbre. E a musa revela que está em maturidade, já que em meio século de carreira essas coisas costumam acontecer. Perto do fim, convida Rubel, no melhor estilo joãogilbertiano, para cantar “Coração Vagabundo”: nosso coração não cansa de ter esperança. O clima bossa-novista fecha “Nenhuma Dor”, com a faixa-título, provando que Gal é uma rainha, uma diva, para a nossa sorte. Gracías, Gal Costa, por tudo.


'Nenhuma Dor' - Biscoito Fino

Cantora: Gal Costa

Gênero: Tropicália

Preço: R$ 42,40 (CD

Disponível nas plataformas digitais



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