• Marcus Vinícius Beck

O beabá do machismo

Botequim Literário


Foto: Reprodução



A gente sequer terminou de engolir o choro culposo pelas estatísticas do estupro – uma mulher é violentada a cada oito minutos, a cada oito! – quando o advogado Cláudio Gastão Filho, com a conivência de privilegiados da toga, inventou um tal de “estupro culposo” para humilhar a influencer Mari Ferrer após ser abusada sexualmente pelo playboy endinheirado André Camargo Aranha.


Uma sentença medonha e estapafúrdia dessas só poderia vir do estado no qual a jornalista Barbara Barbosa foi agredida por branquelos privilegiados por desempenhar seu trabalho, né? Falo, lamentavelmente, de Santa Catarina e sua turba de negacionistas do machismo, do racismo, da homofobia e do holocausto.


Eis um assunto importante a ser discutido: atire - despido da máscara da hipocrisia machista - a primeira pedra o cara que nunca soltou aquele assovio escrotão com os amigos na mesa do bar só pra parecer um sujeito desmesuradamente galanteador?


Somos todos responsáveis por manter a engrenagem do patriarcado funcionando em sua plenitude. A diferença é a graduação de cada um. Tudo o que falamos sobre isso, camaradas, ainda é muito pouco perto do caminho que precisamos percorrer. Temos de pautar o machismo na mesa do bar com aquele brother refém da masculinidade tóxica que acha o fim do mundo a companheira transar com outro; temos de falar sobre machismo a cada vez que nos deparamos com ataques desferidos por machões vacilões - eles estão à solta, aqui em Goiânia, então...


Se a cultura machista está arraigada entre nós, seja por meio da forma como fomos criados, seja por meio de nossos comportamentos com nossas namoradas, com nossas amigas, com nossas mães, com as mulheres que fazem parte da nossa vida, vamos tentar rebaixá-la ao museu das velhas novidades. Tentar não é covardia.


A gente tem de nos despir do velho preconceito e falar sobre o machismo nosso de cada dia. Homens do mundo, uni-vos contra essa sílada na qual nos criaram. O processo é lento - outro dia percebi o quanto ao revisar minhas crônicas de outrora. Eram repletas de referências como Antonioni - responsável por “Blow-Up”, filme que por alimentar o fetiche do macho fotógrafo que clica minas em poses sensuais.


Ao contrário do que pensam a macharada vibrada em arma do governo Bolsonaro, a questão anti-machismo deveria ser matéria obrigatória no currículo das escolas. Disciplina básica. Ao contrário do que ruminam nas redes (anti) sociais os filhos da parafernália da escola sem partido e os liberais guedianos, precisamos discutir o beabá do machismo brasileiro desde sua base. Até quando casos como o de Mari Ferrer vão precisar acontecer, hein?

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