• Marcus Vinícius Beck

O cinema inventivo de Ruy Guerra

Cinema

Diretor moçambicano radicado no Brasil está prestes a chegar às nove décadas de vida com um lugar garantido entre os grandes cineastas

Festival É Tudo Verdade homenageia cineasta em mostra - Foto: Correio da Manhã/ Acervo Arquivo Nacional/ Reprodução



Ruy Guerra, 89, militava pela independência de Moçambique ao mesmo tempo em que escrevia críticas de cinema. No entanto, a barra pesou: repressão, perseguição e derramamento de sangue se tornaram parte do cotidiano dos moçambicanos. Ruy caiu fora. Estabeleceu-se em Portugal, porém deu de cara com o regime ditatorial de António Salazar, um católico que submeteu toda a população às suas frustrações pessoais.


Guerra, então, migrou-se para Paris e topou com a Guerra da Argélia. No Brasil, país que escolheu chamar de seu, o cineasta desembarcou no ano da graça de 1958: tínhamos ganhado a Copa do Mundo, Brasília estava sendo construída e, de uma hora pra outra, apareceu a ditadura. Ou seja, o país do futuro se tornou sem futuro. O sonho ruiu como se estivéssemos atravessando uma rua movimentada no período vespertino.


No Rio, filmou obras-primas do cinema brasileiro, como “Os Cafajestes” (1962) e “Os Fuzis” (1964). Ruy gostou do Brasil. Quando assumiu sua identidade brasileira e realizou suas obras aqui, rolaram os casamentos com Nara Leão, Leila Diniz e Claudia Ohana. Talvez o que melhor define essa figura tão singular seja um dos versos mais famosos do poeta português Fernando Pessoa: “minha pátria é minha língua”.


A essa altura, o cineasta já causava burburinho: assim que estreou na direção de um longa-metragem, uma polêmica cena de nudez da atriz Norma Bengell deixou a patrulha da moral e dos bons costumes tresloucada. O filme, claro, foi censurado por expor as feridas de uma sociedade cuja classe média não faz questão de esconder seu cinismo: Guerra se aproxima dos cinemanovistas, montando “Escola de Samba Alegria de Viver”, produção dirigida pelo cineasta Cacá Diegues.


Brasileiro por escolha e teimosia, atuou no cinema nacional, em “Os Mendigos" (1962), longa dirigido por Flávio Migliaccio. O cineasta interpretava um morador de rua. Operário do audiovisual que é, fez ainda a edição de “Esse Mundo É Meu” (1963), do diretor Sérgio Ricardo. É importante, contudo, lembrarmos que o Brasil vivia à época uma ditadura e ela não demorou tanto assim para complicar a criação do cineasta.


Com “Os Fuzis” (1964), aborda o contexto social, com choque entre o urbano e a vida no campo. Guerra estava engajado num cinema que se propusesse a mostrar os distúrbios sociais brasileiros. Para isso, ele apelava para o realismo na hora em que captava as cenas, numa linguagem que transitava entre documentário e ficção, além de ter uma fotografia em preto e branco estourada com a força da luz do sol nordestino.


Acontece, contudo, que os militares cada vez mais deixavam evidentes a verdadeira face do regime que implantaram: censura e perseguições eram o mote do método de governabilidade adotado por eles. O diretor, cada vez mais, encontrava-se numa sinuca de bico. Escolheu, logicamente, deixar o Brasil para trás. Curiosidade: ele chegou a organizar o cinema moçambicano após o dia 25 de julho de 1975, data na qual o país africano celebra a tão sonhada libertação da opressão da metrópole portuguesa.


Sim, Ruy Guerra mostrou que é de fato um brasileiro por excelência. Seus filmes “Ópera do Malandro”, baseado em peça de Chico Buarque, e “Kuarup”, adaptação de romance de Antonio Callado, são a síntese da brasilidade - e sempre com a estética refinada que lhe credenciou como um dos mais inventivos cineastas brasileiros.


Mas a cereja do bolo quando Guerra está prestes a completar nove décadas de vida não são essas produções, e sim os documentários que fazem parte da mostra “Homenagem a Ruy Guerra”, em cartaz no Festival É Tudo Verdade. Dela, o destaque – sem dúvida – é o longa “Mueda: Memória e Massacre'', produção que mostra o horror que os brancos portugueses impuseram à população moçambicana, que queria apenas ser livre. É um filme que, antes de qualquer coisa, mostra que a memória deve ser preservada.


Assista ‘Mueda: Memória e Massacre’


As outras obras em homenagem ao inquieto cineasta são “Os Comprometidos – Actas de Um Processo de Descolonização”(1984) e “O Homem Que Matou John Wayne” (2016). O primeiro é uma obra moçambicana. Já o segundo é inusitado: Guerra imagina um encontro com o ator americano John Wayne. Revoltado com essa figura do imperialismo ianque, o diretor moçambicano desce a porrada nele e provoca sua morte. A sacada é que o longa mescla ficção e documentário para falar sobre o cineasta.


Entre as curiosidades em relação à vida do artista, estão Cuba e Gabriel Garcia Marquéz. No país caribenho, dirigiu a minissérie “Me Alquilo Para Soñar” (1992), que escreveu junto com o Nobel da literatura. O último filme que lançou no Brasil foi “Quase Memória” (2015), estrelado por Tony Ramos em cujo enredo ele recebe um pacote diferente que remete ao seu pai: isso o leva a rememorar as memórias ao lado do progenitor, os grandes momentos da convivência entre os dois, etc.


“Vivo sobre um corpo de uma mulher/ que faz de mim gato e sapato/ que me foge e me desfolha/ e brinca de gato e rato/ Vivo sobre três continentes/ e isso não me contém/ a raiva que trago nos dentes/ não sei se me faz mal ou bem/ vivo à sombra de um túnel/ do outro lado do sol/ e nesta chave difícil/ me sustento num bemol”, escreve Ruy Guerra, em sua faceta poeta, na obra “Ruy Guerra: paixão escancarada”.


Definitivamente, o grande prazer desta edição do É Tudo Verdade é a mostra em homenagem a essa figura que ajudou a criar um cinema independente em Moçambique e participou ativamente do cinema novo, movimento que transformara a produção brasileira nos anos 60. Ruy Guerra, por isso e muito mais, tem um lugar garantido no panteão dos grandes cineastas do século passado.


Mostra em homenagem a Ruy Guerra


Onde: Festival É Tudo Verdade

Até quando: até dia 8 de maio

Gratuito




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