• Metamorfose

O escárnio da realidade

Atualizado: Mai 8


Artigo


Em meio à crise política, enfrentamos uma pandemia. Observar sem lutar?


Marcha histórica das mulheres goianas, 8 de março de 2018 - Foto: Júlia Lee


Júlia Lee Aguiar


Acordo com o sol escancarado em minha cara, os dias no centro do país amanhecem cada dia mais quente, e consequentemente mais seco. Em breve entraremos no período de seca que existe todos os anos no cerrado, e provavelmente faltará água em várias cidades, quiçá atingindo até Brasília - como já ocorreu em outros anos. Imagine só, faltar água na periferia da capital do Brasil em meio à uma pandemia que usa a água para prevenir o contágio viral, o que será que acontece?


Em meio à balbúrdia que rola na alvorada, assistimos as atrocidades virarem manchetes de matérias que ninguém lê. Informações jogadas ao vento, sem o poder de conscientizar as massas do horror que está acontecendo nos poderes legislativos do Brasil. Aparentemente os jornalistas esqueceram - ou as empresas de comunicação simplesmente preferem o lucro - o poder que a função social do jornalismo exerce na sociedade.


Estamos vivendo um período de calamidade criminal, onde nossos governantes parecem ignorar as mortes e horrores que nossa população está sofrendo. O pior de tudo isso é que sabemos muito bem o porquê estão reagindo dessa forma, entendemos e temos fatos concretos para posicionar a situação tal como ela realmente é. Bolsonaro é um assassino, que provavelmente, caso fique no cargo, matará sem culpa metade de nossa população, por DESCASO PÚBLICO. E nada será feito. Mentira, sabemos muito bem os passos desse ciclo vicioso de poder.


Estão escondendo as evidências, subnotificando o número de mortos, distorcendo os fatos. Meus caros leitores, eles sabem muito bem o poder das palavras, quem controla a informação controla a realidade, e não seja ingênuo de acreditar que não é isso que está acontecendo. Nós jornalistas temos o dever social de reunir as informações que contextualizam a realidade tal como é, e posicioná-las mais que somente distribuí-las. Em momentos de imensa injustiça social, criminosamente provocada por um líder que usurpa o poder do povo, afoga e oprime, temos que reagir! Não há mais formas de esperar a morte bater na sua porta, pois nem casas a maioria de nós terá por conta do desemprego que impossibilita o pagamento do aluguel.


Há, caso você não saiba, segundo o IBGE, cerca de 19,3 milhões de brasileiros pagam aluguel. Agora imagine você, 19 milhões de pessoas sem casa, vulneráveis ao vírus. E esse número ainda não conta com 101.854 mil pessoas que estão em situação de rua, contabilizadas em 2016 pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Estamos falando de milhões de pessoas, estamos falando de pessoas. P E S S O A S. Seres humanos que segundo a ONU tem o direito fundamental à vida.

Manaus (AM), 21/04/2020 - Foto: Sandro Pereira/Fotoarena/Agência O Globo


Mas vem cá, cadê os jornalistas dos países “de primeiro mundo” falando sobre a criminalidade que ocorre aqui? Cadê a Organização das Nações Unidas neste momento de calamidade gravíssima? Onde estão os outros humanos para se posicionar contra o fascismo, a ditadura escancarada que estamos vivendo?


Não iremos esquecer nossos mortos, não vamos engolir seu desprezo e crime Jair Messias Bolsonaro. “E daí?” você questiona e te digo, acabou. Não podemos aceitar o cinismo violento de um fascista que está rindo sob nossos corpos mortos em valas comuns, sendo incinerados para mascarar a verdade dos fatos, escondidos em números falsos, notícias falsas. Se aceitamos agora, estaremos cometendo o mesmo erro daqueles que aceitaram a Ditadura Civil-Militar (1964-1985). Por que estamos abrindo brecha para essa distopia maligna que visa somente escravizar nossos corpos? Estão reduzindo nossa humanidade ao nível de não se importarem com as mortes em massa causadas por essa pandemia.


Podemos sobreviver, podemos existir com dignidade. Sim, podemos. Pois não somos obrigados a aceitar a forma como estão nos condicionando a existir.

A imprensa precisa se posicionar. Em breve viveremos o mesmo que nossos companheiros Húngaros. Viktor Orbán aprovou a “lei do coronavírus” que o possibilita governar através de decretos, dando poder ilimitado para o presidente, que inclusive já aprovou um decreto em que permite a prisão - e não seremos ingênuos aqui de não falar abertamente: permite a tortura e assassinato desses jornalistas presos - de jornalistas que são “oposição” ao governo de Orbán. Para Andrew Stroehlein, diretor de comunicação europeu da Human Rights Watch, “este é o dia em que um país da União Europeia se tornou uma ditadura total”.


Se engana quem pensa que no Brasil de Bolsonaro a liberdade de imprensa está mantida, o próprio Presidente já ignora os veículos de comunicação, não responde à perguntas, barra veículos de entrar em coletivas, difama jornalistas, cria um cenário propício para algo que conhecemos muito bem por aqui: censura.


Censura. Queridos jornalistas, de todos os países, vocês sabem muito bem o mal da censura sobre a realidade. Agora vamos colocar a censura sobre a pandemia, misturado com uma fábrica aberta de fake news, o que será que sairá dessa alquimia?


Quando iremos encher os pulmões de ódio ao invés de Covid-19 e causar uma pressão popular provinda dos jornais, que ao trazerem informações contextualizadas transformam a percepção coletiva sobre a realidade. Quando, caros jornalistas? Quando?


A Revolução só pode acontecer no agora. Sim, isso é uma convocatória. Se não devemos sair de casa usaremos todos os meios disponíveis para provocar uma pressão social que obrigue as semi “autoridades” internacionais e nacionais a se mobilizarem em prol da vida digna. Não iremos aceitar a opressão sem luta.


Jair Bolsonaro, o messias da ética fardada - Foto: Reprodução