• Marcus Vinícius Beck

O exílio de Glauber Rocha

Cinema

Documentário ‘Glauber, Claro’ retrata exílio do cineasta brasileiro na Itália, época em que ele filmara longa-metragem ‘Claro’


Cena do documentário ‘Glauber, Claro’, disponível na Mostra de São Paulo - Foto: Divulgação/ Mostra de Cinema de São Paulo

Após lançar “Terra em Transe”, o cineasta Glauber Rocha passou a ser criticado pela esquerda sectária e pela direita militarizada que governava o País no final dos anos 1960. O filme, considerado um clássico do Cinema Novo, antecedeu outra obra que vira e mexe é citada pra legitimar a genialidade glauberiana: o longa “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Mas o que intriga mesmo é que ainda se fala bem pouco sobre seus filmes produzidos nos anos 1970, sobretudo a película “Claro”.


Uma obra fragmentada e ensaística - que pode ser vista no Youtube com certa qualidade -, o filme foi o último de Glauber rodado no Velho Mundo antes de regressar ao Brasil, onde fez o polêmico “Di Cavalcanti”, o bom “Jorge Amado no Cinema” e o malfadado “A Idade da Terra”. Em “Claro”, o gênio da raça volta seus olhos para espaços políticos e sociais de Roma, mostrando a Itália como centro do imperialismo na Antiguidade: é um grito, bem ao estilo do brasileiro, obrigado, contra as masmorras do capital e sua brutalidade que se faz presente até hoje.


Assim, querendo compreender como se deu a produção desse libelo do escarro cinematográfico anti-capitalismo, é que o fio condutor do documentário “Glauber, Claro”, dirigido por César Meneghetti, mostra seu bem-vindo poder de sedução. A partir de depoimentos raros de amigos, parentes, colegas, colaboradores, a produção se propõe a investigar a experiência glauberiana e consegue retratar a cena cultural da época, com a destaque para a efervescência criativa encampada por Pier Paolo Pasolini, assassinado em 1975, e Bernardo Bertolucci, então um diretor não cancelado.


Em cartaz até hoje na 44ª Mostra de Cinema de São Paulo, “Glauber, Claro” fez um mergulho no universo do gênio da raça. Vemos toda uma época ser desenhada ali na tela, mostrando um momento em que a política tinha papel decisivo ao cinema de autor. Seria meio óbvio pensar que uma mente preocupada em tecer verdades sobre o colonialismo usaria a câmera para contestar as balizas do imperialismo, não? Pois é, foi exatamente isso que ele fez. E foi isso que Meneghetti botou no centro de uma narrativa entremeada por contrapontos. Palmas pra ambos.


Demonstrando seu talento e sua sensibilidade, o documentarista consegue expor as contradições inerentes ao ser humano nutrido de uma incomum genialidade cinematográfica chamado Glauber Rocha. As conversas sobre o filme que se sucedem na tela cumprem – para além do aspecto protocolar, muito além – uma função de perfilar Glauber durante seus anos na Itália, mas também de fugir do óbvio: ali está Bertolucci falando bem do brasileiro, assim como pessoas que estiveram com ele na empreitada italiana após ser enxotado do Brasil por ratazanas de farda.

Sem maiores delongas: assistam esse importante exercício fílmico proposto por Meneghetti em “Glauber, Claro”. Se, como eu falei, a Mostra de São Paulo finda hoje às 20h, haverá outra oportunidade para se deleitar no universo italiano de Glauber: o longa-metragem está previsto para entrar na grade de programação do canal fechado Curta! em dezembro. Enquanto isso, resta o esforço para desembolsar R$ 6 no streaming Mostra Play. Ainda dá tempo. Vale a pena.


‘Glauber, Claro’

Diretor: César Meneghetti

Gênero: Documentário

Onde: https://mostraplay.mostra.org/

Preço: R$ 6

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