• Marcus Vinícius Beck

O injustiçado

Botequim Literário

Goleiro Barbosa foi vítima de racismo por falha na Copa de 50 - Foto: Gazeta Press/ Reprodução


Cá para nós, foi um desastre do Sobrenatural de Almeida, personagem rodrigueano que costuma induzir jogadores a falhas monumentais que lhes marcam a história.


Barbosa viu a bola entrar no canto esquerdo após cruzamento de Ghiggia. De virada, o Uruguai tomou a dianteira: 2 a 1. Os mais de 200 mil torcedores no recém-inaugurado Maracanã ficaram calados. Pelas ruas de norte a sul do país, sentia-se um clima de luto, sofria-se a dor da derrota, numa das maiores tristezas nacionais a que se tem conhecimento.


Até o fim da vida, o goleiro brasileiro não conseguiu se livrar da culpa de ser o maior vilão da Copa de 50, numa demonstração de como somos racistas, não aceitamos goleiros negros, achamos – pasme – que jamais serão seguros e que vão falhar a qualquer momento. É um estigma que ainda habita o vocabulário dos torcedores.


No dia seguinte à final do Mundial, em 17 de julho de 1950, o jornal O Globo deu no alto da primeira página: “Campeão o Uruguai”. E assim se iniciava, como escreveria Nelson Rodrigues ao longo dos anos 50, o Complexo de Vira-Latas: sentíamos-nos inferiores às seleções européias e achávamos que não éramos tão bons assim nesse negócio de jogar bola. Em 1958, Pelé e Garrincha provaram que estávamos enganados. Ainda bem.


A verdade é que, fosse o Brasil um país desprovido dessa visão colonizadora do jogo, talvez não tivéssemos apagado da memória ludopédica brasileira a carreira vitoriosa que Barbosa construiu muito além do vice-campeonato mundial no Maracanã.


Acontece, contudo, que desde que o arqueiro do Vasco assumiu a meta brasileira em 50, só um negro vestiu a camisa 1 da Seleção: era Dida, ex-Corinthians. O Mundial? Da Alemanha, em 2006, décadas depois da ferida aberta em 50 e ainda não cicatrizada.


Natural de Campinas (SP), Moacyr Barbosa se mudou jovem para São Paulo com a família depois que o pai morrera. Na capital, com a vida difícil e lutando para sobreviver, estabeleceu-se na Liberdade, bairro da região central. Nesta época, já jogava no gol, mas batia uma bola como ponta esquerda e até levava jeito pra coisa. Mas ele escolheu o ofício de defender a trave.


Antes de vestir a camisa da Seleção, Barbosa integrou o elenco do Expresso da Vitória vascaíno, equipe com a qual faturara cinco campeonatos estaduais do Rio de Janeiro nas décadas de 40 e 50. Nas últimas conquistas, vale ressaltar, ele já era taxado como o inimigo público número um da nação pelo ato falho que custou o Mundial, lá em 50.


Os cruzmaltinos, cujo clube fora o primeiro do Brasil a escalar um jogador negro, não embarcaram na onda de achincalhar Barbosa e demonstravam afeto ao arqueiro. Primeiro, com o time do Rio, ele conquistou a taça do Sul-Americano no ano de 1948, em Santiago, no Chile. Segundo, na final do torneio, o goleiro parou o argentino Alfredo Di Stéfano e foi peça essencial para que os cariocas segurassem o 0 a 0 no placar, resultado que daria a equipe o título internacional em cima do River Plate.


Ah, só pra lembrar: Di Stéfano tem um lugar garantido entre a santíssima trindade do futebol de los nuestros hermanos ao lado de Diego Armando Maradona e Lionel Messi.


Mesmo assim, Barbosa nunca viveu em paz depois da tarde de 16 de julho de 1950.


Ele morreu em 2000 na Praia Grande, litoral do estado de São Paulo, ao lado da filha adotiva. Mas o racismo estrutural da sociedade brasileira não lhe perdoou por um ato em que todos os jogadores estão sujeitos: a falha.


Mas, Barbosa, nós te amamos!



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