• Dayla Dias Gomes

O mês do sol

Ombudsman

O JM começa hoje uma nova aventura, Dayla Dias Gomes é nossa nova Ombudsman, função tradicional do jornalismo que escreve criticamente sobre a produção jornalística de jornais. Em seu primeiro texto, Dayla analisa o mês de agosto

Manifestação pedia o fim dos cortes na Educação, São Paulo, 2019. Foto: J.Lee/ usada no artigo da Provokeativa



Agosto, para quem vive em Goiás, é o mês do sol, do calor e do fogo. Esse mês foi assim também para o Jornal Metamorfose. Antes de prosseguir essa análise mensal do que foi o mês de agosto para o jornal preciso fazer umas metáforas.


A luta é como fogo, é uma ferramenta de ataque mas ao mesmo tempo de proteção. Quando aprendemos a lutar entendemos a responsabilidade que temos sobre nosso corpo em relação a outras pessoas. A raiva em excesso em alguma luta tem a capacidade de nos cegar para o que ocorre ao nosso redor, nos levando a queda. Por outro lado, a falta de raiva não nos dá ímpeto para agirmos, a raiva sempre deve ser maior que o medo, pois o golpe virá estejamos nós preparades para o combate ou não.


Manter a chama de uma fogueira na mata é sobre equilíbrio entre um fogo poderoso o suficiente para nos iluminar a noite, afastar animais indesejados, aquecer nossa comida e ser palco de conversas onde aprendemos sobre nós e outras pessoas que nos cercam; bem como o controle para que este não se espalhe matando você, as pessoas que te cercam e toda a floresta onde você vive. Com uma chama fraca não há alimento, luz, calor, proteção, união e nem mesmo vida humana em qualquer ambiente hostil. Existem vários ambientes hostis à vida humana neste planeta e o Brasil de Bolsonaro é um deles. O equilíbrio na luta se dá de uma forma parecida, pensar o bastante para agir de forma contundente. Ter capacidade de agir, mas sem a ação pela ação como os fascistas pregam.


A luta não deve ser usada para ferir gratuitamente outrem, muito pelo contrário a luta deve ser para reagir às ameaças da opressão, para protegermos as nossas vidas e de pessoas que amamos. Há várias formas de se lutar contra a opressão, uma delas é fazendo jornalismo. Para as pessoas que lutam por justiça, a maior arma é a verdade.


Não posso falar do Jornal Metamorfose esse mês sem falar em luta. Vejam a luta está em todos os lugares de nossas vidas todos os dias, é mais do que treinar boxe, mais que fazer krav maga, muay thai ou qualquer outro tipo de arte marcial. A luta está em acordar todo dia para a pessoa deprimida por esse país que tenta nos matar de todas as formas, todos os dias. A classe trabalhadora sabe muito mais sobre luta do que qualquer militar, bilionário, latifundiário ou político fantoche. E é isso que esses últimos citados aqui temem. Nossa força. Muitas lutas ao longo da história foram criadas por pessoas oprimidas para sobrevivência, a capoeira por exemplo, um grande símbolo de resistência.


Resistir é a forma como podemos ter esperança em um futuro, seja para nós ou as próximas gerações, da mesma forma que podemos honrar o legado das lutas passadas que nos permitem no dia de hoje estar de pé. Nesse contexto de genocídio lutar pela vida é revolucionário, e tirar do poder quem lucra com nossas mortes é a coisa mais urgente no momento. E quem lucra mais com a morte que o capitalismo?


Infelizmente nem todas as pessoas conseguem sobreviver ao estado e ao capitalismo, esse é implacável e cruel em seus métodos. Quando Júlia Lee fala com seu pai em um dos poucos textos que tirou lágrimas dos meus olhos, tentei imaginar a sua dor perante tal momento doloroso, dor que nunca entenderei, mas que não quero que ninguém mais sinta. Nenhuma pessoa deveria morrer por uma doença para a qual há vacina, ainda mais uma vacina que nos foi negada por esquemas e esquemas de corrupção. Quantas lágrimas foram derramadas porque um monte de militares e políticos do centrão (que na verdade são simplesmente a direita), queriam um dólar de propina por dose de vacina?


Militares esses que parasitam o país da forma mais covarde possível e que são tão fracos e ridículos que até suas poucas demonstrações de poder são motivo de pura galhofa. Nossos inimigos são tão ridiculamente caricatos como são cruéis. Os bandidos que estão no poder prendem as boas pessoas que lutam pela justiça social e pela vida. Aqui estou a falar do Galo de Luta que foi injustamente preso com sua esposa e seu camarada Biu – essa que não fez parte de nenhuma ação direta – por queimar a representação visual em forma de estátua de um homem conhecido por matar e estuprar pessoas pretas e indígenas. Pois que se queime e derrube todas as estátuas de todos os colonizadores que jazem espalhadas por avenidas e praças. Que se arranque a cabeça dessas estátuas e as pendure de cabeça para baixo como deveria ter sido feito com as pessoas que essas representam.


É bom lembrar que a única possibilidade de revolução contra os parasitas do poder é ao som de muita música como por exemplo de Keith Richards que é abordada na matéria de Marcus Vinicius Beck. Mas lembremos também de fazer o que o governo do estado de Goiás e muitos outros não fazem, valorizar a classe artística local e independente. Recentemente houve o lançamento de mais um álbum de Adriel Vinícius, um grande artista goiano que antes da pandemia dividia a doçura de seu som com as pessoas que pegavam o cansativo e sucateado transporte público de Goiânia. Conhecer pessoalmente esse artista foi um grande privilégio que me ensinou que a arte não está somente nos palcos ou nas galerias mas nas ruas que efervescem vida. Precisamos fortalecer o trabalho de artistas independentes, coisa que o estado de Goiás junto com sua secretaria de cultura não fazem. Com os últimos editais da lei Aldir Blanc, o governo do estado mostra a que veio, encontrar formas de matar artistas de fome. É absurdo ter que comprovar ser artista há mais de cinco anos com documentação para receber um dinheiro que é nosso.


A verdade é que todos amam arte, mas quem gosta de artista? Arte não precisa comer, arte não chora, não sente frio, não sofre, não tem medo do amanhã. Estamos em um mecanismo social onde o ser humano por trás da obra pouco importa. Devíamos nos perguntar, por que ninguém gosta de pagar artistas. É assustador saber que no meu círculo de convivência como estudante de artes visuais é comum pessoas pedirem trabalho de graça ou se chocarem com artistas cobrando pelo seu trabalho. A verdade é que muitas pessoas entre nós, eu inclusive não queria viver no capitalismo. É um absurdo pagarmos para viver, para termos coisas básicas como um teto e comida. Mas deixar de pagar uma pessoa pobre que tem em seu trabalho artístico uma renda, é de uma crueldade profunda. Lembre-se quando for pedir um desenho de graça a ume artista que essa pessoa também precisa comer, pagar contas e que assim como tudo, materiais não são gratuitos.


Vídeo reportagem relata sobre a cultura em Goiás


É lógico que acesso à cultura é importante, e devemos cobrar esse acesso a quem tem capital financeiro. Como nosso camarada Victor Hidalgo escreveu em um de seus textos esse mês, esse em específico sobre acessibilidade a jogos digitais, existe uma grande indústria, uma indústria que é mais lucrativa até mesmo que Hollywood. O acesso a games que são um bem cultural é muito restrito. Quem tem dinheiro para comprar um videogame que custa o valor de um Gol GTI (o clássico gol quadrado)? Pensar nesse bem cultural para além do entretenimento – que também é algo importante – é também buscar entender quem acessa esse bem.


Se só pessoas ricas que são em geral brancas e de classe média alta têm acesso a jogos, como esperar que grande parte da cultura gamer não seja um ninho de anarcocapitalistas que odeia todo tipo de pessoa marginalizada socialmente em qualquer nível? Não dá para entender o neofascismo que contamina nossa realidade sem se discutir a cultura criada e alimentada pela indústria elitista, misógina, racista e LGBTfóbica e o motivo dessa ser tão lucrativa. Antes de as redes sociais acirrarem ainda mais o ódio já existente do seu tio bolsonarista, a indústria dos games já o fazia, porém em crianças, adolescentes e jovens adultos. Devemos então jogar fora tudo relacionado a games e tratar tudo como lixo fascista da indústria cultural burguesa? Não!


Cultura é também ferramenta, devemos procurar subterfúgios para ocupar esses espaços tornando-os mais plurais e denunciando toda a calamidade que essa indústria provoca até mesmo em quem é funcionarie dela. E é isso que está acontecendo com o escândalo da Blizard/Activision onde funcionárias passaram a fazer denúncias em massa sobre casos envolvendo todo tipo de abuso, seja moral, trabalhista e até mesmo sexual dentro da empresa, o que por sua vez desencadeou a queda de grandes lideranças dentro dessa e algumas outras enormes empresas da indústria. Se há uma cultura neofascista tão grande no meio gamer, há também um número enorme de gamers e desenvolvedores antifascistas. Não podemos esquecer também dessa classe trabalhadora em toda sua diversidade.


Tudo isso abordado até aqui nos leva a alguns questionamentos. Por quê lutamos? Pelo o que vale a pena lutar? Respondendo uma pergunta de cada vez ao concluir a análise desse mês do que foi publicado no JM, digo que a luta é pela vida digna. Vale a pena deixar de lutar por isso? Se não lutamos por isso, pelo o que vale a pena lutar? Muitos podem dizer que a maior parte das notícias que circulam na imprensa são notícias ruins e por esse motivo deixam de se informar sobre a realidade. Não se deixe levar por esse entorpecimento que beneficia somente quem está no poder.


A única coisa que temos é a realidade e é com a verdade que temos que lidar, muitas vezes é uma realidade maquiada e apagada propositalmente pela mídia tradicional. Chegamos no fundo do poço civilizatório que sempre foi o Brasil e todas as outras periferias do capitalismo. Quando a gente pisa no fundo do poço, só temos uma direção para ir e a escalada é longa, laboriosa e extenuante, todavia é o único caminho para que seja possível qualquer esperança de futuro.


Só há um meio de sairmos dessa e é com coragem que temos que ir juntes em direção a paz. Infelizmente só poderemos achar essa paz se lutarmos, só venceremos essa guerra se lutarmos juntes. Sejamos fortes pois o golpe virá, levantemos a guarda então.

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