• Marcus Vinícius Beck

O mestre da guitarra

Música

Eddie Van Halen morreu ontem em decorrência de um câncer na garganta. Músico deixa como legado seus vibratos e o revolucionário som das batidas com as duas mãos no braço do instrumento

Vocalista David Lee Roth e o guitarrista Eddie Van Halen durante show no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, 1983 — Foto: Claudine Petroli/Estadão Conteúdo/Arquivo


Em algum momento você deve ter ouvido o riff de “Jump” e se impressionado com a rapidez daquele vibrato (oscilação das cordas) cheio de feeling e a maneira como era tocado o tapping, técnica que consiste em colocar as duas mãos sob o braço da guitarra em que se fazem os acordes. No final da música – quem não se lembra? - o instrumentista faz um dos solos mais icônicos do hard-rock e do metal: “So can't you see me standing here/ I got my back against the record machine”, ou algo como “então você não consegue me ver parado aqui/ Eu tenho minhas costas contra a máquina de gravação”. É a trilha de sonora dos anos 80.


Eddie Van Halen, músico que tinha como influência gênios do calibre de Jimmy Page e Eric Clapton, faleceu ontem, aos 65 anos, em decorrência de um câncer na garganta. Van Halen lutava contra a doença há dez anos, mas nunca chegou a abandonar os palcos e as turnês em definitivo. “Ele foi o melhor pai que eu poderia ter”, disse o filho do guitarrista, Wolfgang Van Halen, no Twitter. “Todo momento que eu compartilhei com ele dentro e fora do palco foi um presente. Meu coração está partido e eu acho que nunca vou me recuperar totalmente dessa perda”.


Nascido em Amsterdam numa família de músicos, Van Halen foi morar na Califórnia em 1962, quando tinha seis anos de idade, junto com os pais e o irmão mais velho, Alex. Em um primeiro momento, o músico se dedicou ao estudo de piano e à música clássica, porém não demorou muito para ele se render aos encantos da guitarra, fundando com o irmão, baterista e amigos de colégios a banda Broken Combs. No início da década de 1970, embalados pelo som do Led Zeppelin, Alex e Eddie resolveram montar outro grupo, que após dois anos foi rebatizado como Van Halen.


O resto, como sabemos, é história. No entanto, nunca é demais rememorá-la, e é até necessário - em certos casos. Dono de estilo musical que fazia fronteira com o hard rock e o heavy metal, Van Halen conquistou uma legião de fãs e sua banda vendeu milhões de cópias de discos como em “1984” (do mesmo ano), o qual tem a faixa “Jump” – hit supremo do LP. Entre 1986 e 1995, o grupo fez quatro discos, “5150” (1986), “OU812” (1988), “F.U.C.K – For Unlawful Carnal Knowledge” (1991) e “Balance” (1995), e conseguiram a façanha de chegar ao primeiro lugar nas paradas de sucesso dos Estados Unidos.


Desse estrelato regado a álcool, cocaína e groupie, o empresário Noel Monk escreveu a obra de memória “Runnin´ With The Devil”, lançada em 2018. Monk diz que a pinta de bons meninos dos músicos escondia sujeitos problemáticos. O vocalista David Lee Roth, filho de um magnata da Califórnia, tinha um ego gigantesco e gostava de cheirar pó. Van Halen cheirava mais, e Alex, seu irmão, bebia o dia todo. As primeiras turnês da banda em solo americano, logo após ter abandonado as festinhas de estudantes, teve a presença de uma fila de fãs. Esse tipo de coisa virou rotina por quase duas décadas.


Anos 70


Depois de fundar com o irmão Alex a banda Van Halen, não demorou muito para o guitarrista Eddie Van Halen se tornar conhecido nos clubes de Los Angeles, como o Whiskey a Go Go, onde brilharam no final dos anos 60 grupos do calibre de The Doors, Jefferson Airplane, entre outros. Em 1977, o Van Halen assinou contrato com a gravadora Warner Bros. Records e, no ano seguinte, lançou o LP “Van Halen”, com o qual chegaram ao 19º lugar nas paradas da Billboard. Por sinal, ainda hoje o disco é considerado um dos melhores já produzidos, figurando na lista definitiva do Rock And Roll Hall Of Fame e aparecendo na dos melhores discos da Rolling Stone.


Com essa obra, Van Halen revolucionou a forma com que guitarristas enxergam seu instrumento e usam técnicas do blues para fazer um som com mais pegada. Seus timbres, suas harmonias, suas melodias, sempre com bastante vibrato, além das batidas com as duas mãos e a velocidade do fraseado, mudaram a forma como músicos lidam com o instrumento eternizado por Jimi Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page. Tanto que críticos e leitores da revista “Guitar World” colocam a faixa do LP de estreia, “Eruption”, como o segundo melhor solo já tocado na história do rock.


Van Halen, porém, era taxativo a respeito do hard-rock e do metal. “Este tipo de rock (pesado) é um formato limitado, mas um músico pode expandi-lo como quiser. Fiquei contente quando as pessoas perceberam que eu consegui fazer com a guitarra coisas que ainda não tinham sido tentadas”, comentou Van Halen ao jornalista Pepe Escobar, então repórter do jornal Folha de São Paulo, após apresentação no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, no ano de 1983. Se Eddie Van Halen não reinventou a guitarra, pelo menos criou um jeito de tocá-la.


Relembre três solos marcantes de Eddie Van Halen


‘Eruption’

Solo de guitarra mais famoso de Eddie - 27 de agosto 1986, em New Haven, Connecticut, no Veterans Memorial Coliseum.


Eleito por eleitores como o segundo melhor disco já tocado na história do rock, ‘Eruption’ mostra fazendo a técnica que lhe consagrou como um dos melhores guitarristas de todo os tempos: o tapping, técnica que consiste em em colocar as duas mãos sob o braço da guitarra em que se fazem os acordes.


‘Jump’


A faixa, do disco “1984”, apresenta o fazendo seu característico solo de tapping, com um vibrato (oscilação das cordas) bastante rápido. O famoso solo – quem não se lembra? está no final da música e segundamente se tornou um dos momentos mais icônicos do rock. Dizem que Van Halen entrou para o rol dos gênio aí.


Beat It


Se as músicas da banda Van Halen fazem parte da trilha sonora dos anos 80, muito se deve aos solos do seu guitarrista. Em meados da década, o músico aceitou convite do rei do pop, Michael Jackson, para tocar um hit que rapidamente virou um sucesso. Reza a lenda que o vocalista David Lee Roth tretou com Eddie ter este ter feito um solo para Jackson.