• Dayla Dias Gomes

O país dos gados?

Gotas de acidez

Em sua segunda coluna, Dayla Gomes escreve sobre a educação brasileira, discutindo e questionando o papel colonialista nas escolas

Existem mais boi do que pessoa no Brasil. Foto: "Vida de gado" por Nelson Brolese (Associado Zoom In/Reprodução) - 29.06.2018


O Brasil é fruto de um genocídio, o que estrutura esse país até os dias atuais. Os processos de colonização são a base da sociedade brasileira como conhecemos hoje, construída através do capitalismo. Todo o bem estar social de Europa e EUA estão diretamente ligados a esse processo de morte. Se morremos é porque estamos em uma grande plantação de soja e capim onde há mais bois que pessoas.


Enquanto no site do IBGE sobre a projeção da população brasileira, visitado no dia 30/07/21, às 11 horas e 4 minutos enquanto escrevo, diz que temos no Brasil 213.401.566 pessoas, todavia segundo dados de próprio IBGE publicados em matéria do poder 360 em 2020, em 2019 tínhamos um total de 214,7 milhões de cabeças de gado. Ou seja, há mais gado que pessoas habitando esse país.


Para esse sistema se manter estruturado algo é muito importante, o sistema educacional. Porém é impossível falar de uma única escola no Brasil, mas sim de várias escolas com funções objetivas para grupos sociais específicos que juntas cumprem uma diretriz: o acirramento da estratificação social.


Existe uma espécie de apartheid no Brasil, não é um apartheid oficializado em leis mas ainda assim dogmatizado em relações sociais advindas do colonialismo. O bilionário dono da multinacional é branco, quem dirige o carro dele muitas vezes não é. A indústria cultural insiste em colocar pessoas pretas em suas obras em posições de sub-alternidade, quantos protagonistas de novela vem a sua mente e que são pessoas pretas? Quais desses ou dessas não estão em uma posição de poder abaixo de homens e mulheres brancas? A indústria cultural se estrutura a partir da escola na medida em que é lá o primeiro lugar de socialização massiva que crianças tem acesso e que ficam até o fim da puberdade. Porém existem camadas de Brasil, camadas sociais e por conseguinte camadas de escolas.


Existe a escola da elite feita para a formação de burgueses. Existe a escola privada que é frequentada pela classe média, essa por sua vez responsável pela formação de mão de obra qualificada onde todo mundo que já estudou sofreu pressão de escola, família e colegas para cursar direito, medicina ou engenharia. A escola pública por sua vez é feita para a formação de obra barata.

A escola pública nem sempre foi o que é hoje e a mudança se deu em suas estruturas por alguns fenômenos, o primeiro foi o êxodo rural devido à fome, seca e o abandono por parte dos governos federais e oligarquias estaduais de regiões do nordeste.


É desse período por exemplo que Graciliano Ramos escreve um de seus romances mais importantes, "Vidas secas", que discorre sobre o estado do ser humano perante a injustiça que gerou e ainda gera tamanha desigualdade, nesse livro ainda se aborda a violência policial e estatal, fome e a desumanização de pessoas diante de tamanha calamidade. O personagem que seguimos na trama com sua família, Fabiano, em determinado trecho desse livro diz: "Fabiano, você é um homem" mas logo ele se corrige e diz, "você é um bicho, Fabiano". Entretanto, o animal que os acompanhava, Baleia, uma cadela, é humanizada de uma forma nunca vista na literatura brasileira. Quando se fala desse processo migratório muitos escritores têm a tendência de falar de pessoas como se fossem apenas números, seria imoral para repetir o mesmo padrão aqui.


Esse fenômeno se intensificou nas décadas de 1940 a 1980, um período onde o Brasil viveu duas ditaduras e uma frágil democracia burguesa. Ocorreu nessa época uma desvalorização sistemática e gradual do salário de docentes, ser educadore ao longo do tempo deixou de ser algo digno de prestígio e passou a ser algo digno de pena. O sistema de ensino continuou tão rígido quanto antes, entretanto dessa vez inflado e sucateado servindo para separar ainda mais as classes.


É confuso na mente da maioria das pessoas a relação entre uma escola com uma disciplina rígida e uma boa escola, pois a ideologia das classes dominantes que permeiam o imaginário coletivo é de que uma escola que ensina subserviência é uma boa escola, o que é uma grande mentira.


Obedecer cegamente não é uma forma muito eficiente de se alcançar êxito no aprendizado de qualquer conteúdo. A obediência cega mata a capacidade e o interesse da busca de respostas e perguntas em fontes primárias de acesso a informações, bem como impede a capacidade de testar essas informações perante a natureza através do método científico. Isso cria uma atmosfera de aprendizado onde estudantes tendem a sair da escola sabendo ler, mas incapazes de interpretar, analisar, criar e criticar. O sistema educacional nesse modelo autoritário é o berço de tecnocratas e trabalhadores que não incomodam o sistema, pelo contrário apenas geram lucro independente das suas condições de trabalho. Na mesma proporção, esse sistema é um cemitério de artistas, poetas, cientistas, filósofos, cientistas sociais e lideranças políticas populares.


Ao longo dos anos com advento das escolas particulares a classe média foi encontrando caminhos para dar uma "educação de qualidade" a seus filhos por um preço. E a única educação que interessava ao estado subserviente passou a florescer da semente da desigualdade: a educação sucateada, onde não há incentivos para estudantes estarem ali, pois estar ali é um esforço. Dessa maneira o ciclo se completando com a evasão escolar retroalimentando a desigualdade social, essa que por sua vez faz poucos bilionários lucrarem mais, concentrando renda, e ao concentrar renda, ampliando ainda mais a desigualdade que gera mais evasão escolar. Isso é um projeto de sociedade, o projeto das periferias do capitalismo.


Para quem precisa alimentar alguém e ganhar o pão de cada dia para sobreviver, apenas saber ler era o suficiente para o estado e o capital, interpretar nunca, criticar jamais. Num sistema social onde quem é valorizado pelo capital é a escola privada em relação a pública que é sucateada de propósito para formar mão de obra barata, a única esperança de ascensão social e intelectual está na escola particular que não é sempre tão diferente assim.


Ricos odeiam classe média tanto quanto odeiam pobres, mas essa divisão de classes é interessante pois acirra as relações e impede uma união da maioria contra a minoria endinheirada. A verdade é que muitas vezes a escola privada é uma escola pública com o que a escola pública deveria ter, mas é sucateada demais para ter, ou seja o básico como paredes, sistema de ventilação, bibliotecas e acesso a tecnologia.


Uma escola que prega obediência e disciplina a todo custo, é também um risco para pessoas que sofrem qualquer opressão de sexualidade e gênero. Quantas pessoas LGBTQIA+ não se evadiram, ou melhor foram empurradas para fora da escola por apanhar demais, e não ter respaldo algum de funcionários da escola? Quantas sofrem perseguição dos próprios membros docentes e administrativos da escola? Para quantas dessas pessoas pensar em escola é pensar em trauma?


Uma escola desumana na estrutura que nos é colocada é também um caldeirão de abusos sexuais em potencial. Quando não se discute o que é gênero, sexualidade e o mais importante, consentimento que tipo de situação podemos ter? Quantos colégios com grandes escândalos abafados de professores pedófilos em seu quadro de empregados? Quando há denúncia o que é feito além de se varrer para debaixo do tapete? Em escolas militares a situação piora pois muitas vezes o abusador é policial e por sua autoridade coloca em risco estudantes, professoras, secretárias, funcionárias de limpeza e até mesmo diretoras.


Por favor entendam que não estou dizendo que toda escola dentro desse modelo hierárquico e ou precarizado é um abusadouro a céu aberto, mas sua estrutura é propícia para isso. E quem abusa não sofre punição alguma, no máximo uma transferência.


A quem interessa uma educação tão precária e cruel? Certamente é para as pessoas donas dos tantos rebanhos que são mais numerosos em indivíduos que seres humanos no Brasil, pessoas que escravizavam e ainda escravizam outras, como por exemplo o governador do estado de Goiás, Ronaldo Caiado que teve problemas com a justiça trabalhista por esse crime, é público, basta uma pesquisa rápida na internet. É esse tipo de pessoa que está na máquina estatal, como esperar mudança no tecido social?


É preciso redistribuição de renda, é preciso demolir essa estrutura educacional defasada e cruel e por em seu lugar algo muito mais humano. É preciso proteger nossa juventude nesses espaços onde ela está quase todos os dias de suas vidas. Não pensar somente nas que estão em um espaço urbano e de classe média, mas em todas as juventudes vulneráveis, principalmente a juventude preta que é morta todos os dias, às vezes até com uniforme da escola.


Essa desigualdade é imoral e até mesmo na desigualdade, crianças, adolescentes e jovens estão suscetíveis a bullying, abusos físicos, sexuais e psicológicos. Repito aqui e sempre repetirei, protejam nossa juventude, protejam nossas crianças, adolescentes, jovens adultos! Proteja o futuro, pois ele não está nas cabeças de gado que Ronaldo Caiado cultiva em suas fazendas, mas está nas mentes poderosas de jovens que resistem a todo esse mal. O Brasil é das pessoas, não do gado.

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