• João Moreno

O plano secreto dos militares 2: Vamos ligar os pontos?

Política

Como Jair Bolsonaro forjou seu caminho até a Presidência da República com o apoio dos militares? Um relato literário de acontecimentos históricos importantes para compreender a retomada do fascismo no Brasil



Por João Moreno, especial para o Jornal Metamorfose


"Líder, líder, líder" gritam, em meio a aplausos, os ex-cadetes, agora aspirantes a oficiais da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), na cidade de Resende, no estado do Rio de Janeiro.


No vídeo, gravado no dia 29 de novembro de 2014, enquanto o então deputado federal, Jair Bolsonaro, desce uma pequena rua pavimentada, a multidão de militares, em trajes comemorativos, o espera. Mais de 400 militares se formam na Academia todos os anos, mas, na gravação amadora, é possível contar uns 80 talvez 90 “soldados”.


Entre os solavancos do cinegrafista, o semblante de felicidade e a apreensão positiva entre os presentes são perceptíveis. O silêncio e a atenção recaem sobre o grupo fardado, não sem algumas palavras de ordem - "silêncio!" - serem ouvidas. "Vocês estão de parabéns", começa Jair, em seu "palanque" político-militar.


"Nós temos que mudar esse Brasil, tá ok?", continua Bolsonaro, com o braço direito levantado, a uns três metros do público de formandos, seus ouvintes. "Alguns vão morrer pelo caminho, mas estou disposto em 2018, seja o que Deus quiser, tentar jogar para a Direita esse país", diz enquanto é possível ouvir "VIVAS!" entusiasmados e palmas, muitas palmas. Gritos empolgados de "Líder!", "Líder!" "Líder!" são ouvidos mais altos do que nunca.


"O nosso compromisso é dar a vida pela pátria e vai ser assim até morrer. Nós amamos o Brasil, temos valores e vamos preservá-los. Agora o risco que eu vou correr, posso ficar sem nada..., mas eu terei a satisfação de dever cumprido! Esse é o nosso juramento, esse é nosso lema! Brasil acima de tudo!", afirma Jair, com seu discurso se tornando mais potente à medida que vai se empolgando com as suas próprias palavras.


A última frase, que viria a ser o principal marketing da campanha eleitoral e de seu governo, é lema de um grupo radical de paraquedistas do Exército Brasileiro dos anos 1960, o Centelha Nativista. Eles tinham como objetivo "radicalizar a repressão contra a esquerda revolucionária com ações armadas independentes".


O discurso aos oficiais continuou por mais alguns segundos. Enquanto Bolsonaro agradece aos presentes - "Um abraço a todos" -, os aspirantes da AMAN demonstram o afeto e a estima que possuem ao ex-capitão do Exército. Para alguns pesquisadores, a cena, registrada com destaque no canal do YouTube do filho de Jair Bolsonaro, é um dos momentos chaves para entender o fenômeno da politização das Forças Armadas: como, através de Jair Bolsonaro, um fantoche, começava a corrida do Partido Militar rumo à conquista do Executivo Federal e ao aparelhamento do Estado.



Reunião do Alto Comando do Exército


No dia cinco de fevereiro de 2016, em Brasília, acontecia a 304ª Reunião do Alto Comando do Exército, que contou com “a participação de oficiais-generais do Alto-Comando do Exército, os designados para o Ministério da Defesa e aqueles que estão à frente dos Órgãos de Assistência Direta e Imediata do Comando”. O encontro ocorre cinco vezes ao ano e, nele, generais-de-exército se reúnem para “discutir os temas mais relevantes da instituição”.


O grupo é em sua maioria, de militares formados na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), nos anos 1970 e, ex-membros da Brigada de Infantaria Paraquedista, cujo lema era “Brasil, acima de tudo!”.


Entre suas principais preocupações estavam temas como “orçamento, plano de carreira, remuneração, jogos olímpicos, núcleos de assessoramento jurídicos do Exército e outros importantes assuntos administrativos”, como informou nota oficial da Instituição Militar, as atenções se voltavam ao Palácio do Planalto.


À época, uma pesquisa de opinião, mostrando a popularidade das Forças Armadas junto à sociedade civil, foi exibida no encontro. Entre a desaprovação popular constava o Poder Judiciário, a Presidência da República, os Meios de Comunicação e os Partidos Políticos, já os militares alcançavam mais de 63% de confiança em meio ao caos institucional daquele período.


Em entrevista à Agência Verde Oliva, que escreveu a nota oficial do Exército sobre a reunião, o Comandante do Exército, o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, declarou: “Estamos iniciando o ciclo de planejamento de quatro anos (...). Foram encaminhados temas que vão orientar os próximos anos de atividade da Força”.


Quatro anos depois, em 2020, dos 17 generais de Exército que estavam na 304ª Reunião do Alto Comando do Exército, 15 ocupavam cargos importantes no governo de Jair Bolsonaro. São eles: “um vice-presidente, quatro ministros de estado, um ministro do Superior Tribunal Militar, um embaixador, três presidentes de empresas estatais, um presidente de fundo de pensão estatal, um secretário de segurança pública, três secretários-executivos ou similares e somente dois que não exercem funções de características políticas”, todos na reserva.


[Esse trecho e as citações não citadas diretamente foram baseados na primeira parte do artigo A palavra convence e o exemplo arrasta, escrito pelo coronel da reserva Marcelo Pimentel e publicado na obra Os militares e a crise brasileira.]


Tuíte do general Villas Boas



1º Imagem: General Villas Bôas, publicado no dia 3 de abril de 2018, às 20h39min, a tempo de ser lido no Jornal Nacional. Imagem 2: General na reserva Paulo Chagas. Imafem 3: General na ativa Cristiano Pinto Sampaio, citando Gustavo Barroso (um historiador famoso e simpatizante do fascismo e integralista – foi membro da AIB). Hoje, o general Pinto Sampaio está promovido à 3ª estrela e pode ser membro do Alto Comando daqui a 2/3 anos.



Como revelou posteriormente em sua biografia “Villas Bôas: Conversa com o Comandante”, a publicação do texto foi arquitetada junto ao Alto Comando das Forças Armadas.


Para diferentes analistas políticos, o tuíte, em tom de ameaça, pode ter influenciado a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) quanto à concessão do Habeas Corpus ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) que, por seis votos a cinco, foi negado, impedindo que o petista pleiteasse as eleições de 2018.


Durante a posse do general Braga Neto como Ministro da Defesa, o então presidente eleito, Jair Bolsonaro, agradeceu ao comandante tuiteiro do Exército: “Muito obrigado, comandante Villas Boas. Aquilo que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui na posição de presidente”.


General Rêgo Barros deixa o cargo no Centro de Comunicação Social do Exército (2019)


No vídeo, o General de Divisão Otávio Santana do Rêgo Barros se apresenta fardado, com o corpo em riste, as mãos fazendo o gesto militar clássico da continência.


A cerimônia aconteceu no 1° Regimento de Cavalaria de Guardas, em Brasília, no dia 11 de setembro de 2019. Enquanto Rêgo Barros se apressava para cumprimentar o então Comandante do Exército General Edson Pujol; o "eterno comandante" General Villas Boas; ministros militares do Superior Tribunal Militar; o presidente da República em Exercício, General Hamilton Mourão, era possível ouvir uma música, uma marcha militar.


O encontro celebrava a despedida de Rêgo Barros do serviço ativo do Exército Brasileiro. Entre os agradecimentos, com registro em vídeo da Agência Brasil, alguns trechos de seu discurso de despedida chamam a atenção:


"A partir de agora, esta alma, que mantém esse meu corpo, estará a cada dia a proteger os interesses da nossa Instituição [militar]. Instituição que vivencia, junto à sociedade, uma confiança jamais [vista]... diria [de forma] inigualável, se comparada a qualquer outra instituição (...) Eu quero agradecer a presença de tantas pessoas que aqui homenageiam a minha família e a mim, especialmente. À turma de 1981 da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) (...) Eu quero terminar estas minhas palavras com um agradecimento especial ao meu comandante, o general Villas Bôas, que aqui se encontra. Que, ao longo de quatro anos, esteve ao meu lado, permitindo conduzir a minha última missão no Exército Brasileiro: a chefia do Centro de Comunicação Social do Exército (CComSEx). Com toda a liberdade, com toda transparência, me ensinando a cada dia o sentimento real do cumprimento do dever (...)"


Voltando no tempo, outro momento importante aconteceu no dia 14 de fevereiro de 2019, meses antes da cerimônia de despedida do General Rêgo Barros. Sem registro videográfico, o encontro 'existe' pelo trabalho do site Defesanet, "fonte oficiosa" das Forças Armadas brasileiras, que registra a passagem de comando do Centro de Comunicação Social do Exército (CComSEx). Na ocasião, saía Rêgo Barros e entrava o General-de-Divisão Richard Fernandez Nunes.


Mais uma vez, o bonito discurso do General Rêgo Barros chamou a atenção. Após mais de quatro anos à frente do CeCoSEx, sendo "um dos principais assessores do então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas", conforme apontou a Agência Brasil, o oficial relembrou alguns de seus trabalhos em destaque, no Centro, como o realizado na "Copa do Mundo e [a] Intervenção Federal no Rio de Janeiro".


O destaque da notícia do DefesaNet, entretanto, está no "ingresso do Exército Brasileiro nas mídias sociais". Falando sobre o General de Exército, descobrimos que Rêgo Barros, representando o Exército Brasileiro, à frente do Centro de Comunicação Social do Exército, subordinado ao então Comandante de Exército Villas Bôas, mergulhou "de cabeça no ‘submundo’ das mídias sociais – Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp, Portal Responsivo, Eblog etc – [até] tornar [o Exército] o órgão público com maior influência no mundo digital, no Brasil".


Tal façanha, comemorou o militar, "exigiu sangue frio na interlocução sem rosto, típica da internet, suor à frente do teclado e lágrimas de emoções pela conquista do cimo”.





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