• Metamorfose

O poder da solidariedade em tempos obscuros

Rifa


“É um papel social que deveria ser mais valorizado porque nada no mundo em que criamos existe sem passar através da arte”, afirma artista que participa de rifa para ajudar famílias necessitadas


Flyer da campanha solidária que rifa 16 obras de artistas goianas. Foto: divulgação


Júlia Aguiar e Lays Vieira


Estamos vivendo um dos momentos mais difíceis dos últimos séculos. A pandemia da covid-19 já intensificou a crise econômica mundial, os índices de desemprego e fome, além de morte e um clima de desesperança. E, como o brasileiro é abençoado por Deus, temos um governo que se delicia cotidianamente com as milhares de mortes que encabeça essa tragédia nem um pouco cômica, e pior: não parece querer reverter a situação e não a trata com a seriedade devida.


Estamos falando de pessoas que não possuem os privilégios da Casa Grande, pessoas negras, indígenas, quilombolas, vulneráveis, população em situação de rua, etc. São as pessoas mais marginalizadas pelo estado que estão saindo cotidianamente de casa para manter o funcionamento de estabelecimentos essenciais e não essenciais, são essas pessoas em estado de vulnerabilidade que estão tendo maior contato com o vírus e que morrem a espera de leitos nos hospitais públicos, que vem sendo desmantelados desde a EC-95.


Porém, ainda há esperança. A matéria de hoje é muito especial, pois conta uma história que acontece em Goiânia, de mulheres que se reuniram em prol de ajudar a família de Simone, matriarca de uma família que passa por dificuldades neste tempo tenebroso de pandemia.


A família de Simone nunca tinha participado de nenhum trabalho social, como nos conta seu filho Thales, em entrevista exclusiva ao Jornal Metamorfose. Segundo Thales, a situação é ainda mais difícil "estamos quase despejados de onde moramos pelas contas atrasadas e por estarmos todos desempregados. Eu só peço ajuda para conseguir o tratamento e os cuidados da minha mãe e não deixar faltar o básico, eu só quero ela curada. É difícil pois luto sozinho há muitos anos sem auxílio nenhum, nem do governo somente de pessoas que veem a história da minha mãe e que ajudam como podem”, diz.


Um grupo de mulheres se organizaram para mobilizar uma rifa artística, ou seja, selecionaram um grupo de artistas plásticas que doaram suas artes em prol de levantar dinheiro para ajudar a família do Thales nesse momento de pandemia. Segundo uma das organizadoras da rifa, a estudante Sarah, a iniciativa surgiu de forma espontânea dentro de um grupo de amigas, “nós organizamos de forma virtual através do Whatsapp. Sempre conversamos sobre a disponibilidade de cada uma tanto em receber quanto em fazer as entregas das doações. Sempre consultamos umas às outras para tomar qualquer decisão, sempre buscamos entrar num consenso”, explica Sarah em entrevista ao Metamorfose.


As organizadoras contam que o grupo se formou de forma independente com a perspectiva de ajudar aqueles que precisam, e que contam com ajuda de amigues para distribuir as cestas básicas que arrecadam há mais de um mês. Segundo Sarah, elas perceberam que, infelizmente, “o Estado e a prefeitura de Goiânia não prestam o seu papel principal de forma eficiente”. “Como a criação de políticas públicas de qualidade para manutenção e dignidade das pessoas que não tem condição de se sustentarem sozinhas por inúmeros motivos”, afirma.


O grupo ainda não possui nome, e nem páginas oficiais, mas, de acordo com Sarah, o motivo é que as meninas ainda estão pensando na identidade do grupo, um nome e perfil nas redes sociais. Elas explicaram que pretendem desenvolver trabalho de base e estão se organizando para conseguir suprir a necessidade de tempo que esse trabalho necessita.


Arte

Artes disponíveis na rifa. Artistas: Carolina Simões, Bianca Rezende, Lívia Chagas e Mari Soares. Fotos: Reprodução


Um dos principais papéis da arte é aproximar as pessoas de novas perspectivas de realidade, e quando a arte é usada para fins solidários conseguimos entender a potência que existe no leque infinito que é a arte.


Okun, uma jovem artista, mulher negra que já é muito reconhecida por seu trabalho esplêndido na cidade de Goiânia e região, doou algumas peças de sua coleção para a rifa. Ela nos conta que a arte tem papel não apenas de aproximar pessoas, mas também de curá-las. “Ajudar o próximo é curar e amparar. Sempre me dispus a ajudar na medida do possível e quando recebi a proposta das meninas animei na hora por saber que seria em prol de algo maior e necessário nesses momentos de crise”, afirma a artista em entrevista ao Jornal Metamorfose.


Para Thales, parte da família que está sendo ajudada, o fato de usar a arte como fator para ajudar a arrecadar dinheiro torna tudo ainda mais especial. “Elas tiveram uma grande ideia de fazer a rifa para nos ajudar e eu achei incrível usar arte para salvar uma família e todos ligados a essa campanha da rifa são anjos, acredito que são pessoas incríveis e muito talentosas, que querem o bem das outras pessoas, a arte está sendo essencial para nossa sobrevivência vinda de pessoas tão incríveis”, afirma Thales.


Okun, outra organizadora do grupo, conta que a organização também está movimentando as próprias artistas envolvidas, e não somente a família de Simone. “Com a rifa movimentamos a arte de muitas artistas que às vezes nunca chegaria na casa de certas pessoas se não fosse através da solidariedade. E que no final de tudo, aquela arte fique como lembrança de que todos os dias podemos ajudar o próximo e que só assim podemos fazer um mundo melhor”, conta ao Jornal.


Um adendo


Abrindo um parêntese nessa matéria, normalmente no jornalismo nós não publicamos entrevistas na íntegra - se você não sabia disso é a praxe jornalística - porém devido a imensa importância desta fala, colocaremos agora, no próximo parágrafo, uma das respostas mais importantes desta entrevista por ser uma aula de solidariedade. Com a palavra, Sarah:



“É importante ajudar, porque a fome sempre vem de novo e porque o outro é tão importante quanto a gente. Quando alguém não tem o que comer ou o que vestir, não existe isso de que cada um tem os seus problemas. Isso não é sobre a gente ajudar, é sobre quem está sendo ajudado. É importante que cada pessoa da comunidade entenda qual é o seu papel dentro da sociedade. Não se trata só de admirar ou ajudar uma vez quem se une em prol do que chamam de “caridade”, precisamos cobrar de quem tem poder e espaço para fazer mudanças efetivas que são os órgãos públicos, por exemplo. É preciso que muitas pessoas estejam dispostas a doar seu tempo e disponibilidade para movimentar as coisas de forma estrutural mesmo. E a gente sabe também qual é a cor das pessoas que geralmente ajudamos. São pessoas não-brancas, em sua maioria... São pessoas que ocupam seu espaço numa determinada região da cidade (ocupações), porque estas entendem que morar não é privilégio e que na verdade é um direito. Somos aliadas a causas que priorizam e valorizam a vida de cada pessoa. A gente não quer matar só a fome de quem conseguirmos, a gente quer outras mudanças também. Inclusive, o nosso projeto ainda sem nome é composto por muitas mulheres brancas e elas trazem discussões para dentro da organização sobre seus privilégios como o famoso “branco salvador”, a gente entende que a maiorias das pessoas que ajudamos são marginalizadas por serem pretas e pobres, e que isso é um problema principalmente de quem tem privilégio racial, social e econômico. Enfim, a ajuda pelo outro é sempre uma via de mão-dupla: a gente ajuda e é ajudado”.


Carol finaliza com a seguinte frase, “estamos todes no mesmo barco!”.


Contribua com a Rifa Solidária para Simone


Rifa de um compilado de obras de 16 artistas goianas.

Valor da rifa: 10 reais

Datas dos sorteios: 17/07 sortearemos um ganhador e uma obra. 07/08 sortearemos o restante das obras e ganhadores.

Horário: 19 horas

Perfil oficial dos sorteios: @graace_lux

16 obras compõem a rifa.

Serão 16 ganhadores.

Ganhadores e obras serão sorteados juntos no mesmo dia e mesmo momento.

Local de entrega das obras: a combinar com cada vencedor.

Lembrando que para mais informações nos números: (62) 98641-4824: Greice Lux e (62) 98173-5368: Luna.

Link para a rifa: https://abacashi.com/p/rifa-solidaria-para-simone