• Marcus Vinícius Beck

O poeta da Vila


Ilustração do cantor e compositor Noel Rosa feita pelo cartunista Amarildo - Crédito: Reprodução



Pra começo de conversa, sou devoto ao botequim. Ao perambular pelas entidades etílicas do Rio de Janeiro, sinto-me como um zagueiro brasileiro contra os alemães naquela famigerada Copa do 7 a 1. Outro dia, enquanto batia perna pela Rua Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel, reduto de artistas localizado na Zona Norte, pensei nas vezes em que o cronista e compositor Aldir Blanc bateu ponto nos bares dali após findar um texto, ou enquanto estava atrás da frase que mudaria tudo.

Tem também, putz, ia me esquecendo, ih rapaz que gafe!, a vila de Noel Rosa – o poeta da vila.

Digo mais: Noel é Vila Isabel, conversa de botequim, futebol no rádio de pilha, conta pendurada, bola sete com tabela na caçapa, punheta do garoto, selo carniça nova, bola ou búlica, festa da Penha, novena quermesse, sessão de mesa branca com tia-avó, recebendo o espírito de médico do século 18, doce de Cosme e Damião na umbanda da esquina.


Noel é o samba reclamando do mundo que te condena, a fita amarela que não invade o meu caixão, o cara que levanta para ver o resultado do futebol... Noel é vila, Noel é da vila – ai de mim por não ter vivido neste Rio de outrora.


À medida que caminhava pela Boulevard 28 de Setembro, veio-me à mente o filme “Noel – O Poeta da Vila” (2006), dirigido pelo cineasta Ricardo Van Steen. Noel nasceu ali nestas bandas - mais precisamente a 11 de dezembro de 1910 - em que eu apreciei num calor de rachar, um século e dez anos depois. Era filho do comerciante Manuel Medeiros Rosa.


E bem cedo, o cara começou a arranhar umas notas no violão e bandolim. Abandonou a medicina – quem faz isso, Jesus Santíssimo! – para dedicar-se ao ofício da bebura, e em pouco tempo já custeava as despesas de toda a família com suas composições.


Sujeito com uma quedinha pela malandragem dos botequins, Noel já mexia com essa coisa de música desde os idos de 1929, quando compôs a canção “Com Que Roupa?” Outro dia, risos, uma senhora fã de samba me disse, na Lapa, que o poeta da vila subia os morros cariocas para usufruir a mais cristalina fonte da bebedeira. “Ele dormia com malandros, gostava de cabaré, de cachaça, de cigarro, de jogo do bicho”, me confessou dona Márcia, sessenta e tantos anos de pura malemolência contra as injustiças.


Se sim ou se não, a verdade é que Noel compôs em 1929 “Com Que Roupa”, seu primeiro sucesso, e a bendita canção estourara no carnaval de 1931. Diz que a lenda que o poeta criou essa música após tretar com a mãe. Veja você: ele queria sair - sujeito formado que era sob a ética do mulherio dos cabarés, da bebedeira e da fumaça de cigarro –, mas ela tentou impedir seu regresso à vadiagem escondendo a roupa que o filho vestia. Daí pingou no cocuruto de Noel a célebre pergunta: “com que roupa eu vou”.


É, caro leitor, até uma briga familiar pode provocar um lampejo criativo.


Brigas à parte, foram - ao todo - cerca de 230 músicas escritas por Noel. Em sua maioria, as composições não chegaram a terem sido gravadas por ele, porém ganharam versões nas vozes de diversos nomes da MPB, como os cantores Teresa Cristina, Jair Rodrigues e Martinho da Vila.


Seus discos foram lançados postumamente, e hoje tornaram-se objetos e cultos entre fãs de samba, cachaça, futebol e boêmia. Como diz o jornalista e crítico Sérgio Cabral: “A Vila de Noel significava, para o Rio de Janeiro, o que Ipanema representou na década de 1960”.


O poeta da vila, me dei conta enquanto caminhava pelas ruas de Vila Isabel, é fruto de um período de mudanças culturais e musicais que rolaram no Rio, e encontram-se esquecidos neste século 21. Morto precocemente em decorrência de tuberculose em 4 de maio de 1937, Noel de Medeiros Rosa cantou o cotidiano de malandros de boas almas dos quais o Rio de Janeiro do século passado estava infestado.


E hoje, enquanto estou redigindo esta crônica que você lê, convém perguntar: seria Noel Rosa um cronista à sua maneira da realidade etílica? Seria, é óbvio!