• Rosângela Aguiar

O que temos que comemorar no Dia Nacional do Cerrado?

Artigo

Bioma Cerrado perdeu o equivalente ao estado de São Paulo em 20 anos e agora perde o sistema de monitoramento e preservação


De acordo com PrevFogo (Ibama), 98% das queimadas no bioma são oriundas de ações humanas. Foto: Iberê Périssé/Projeto Solos


Em 20 anos de monitoramento realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) o Bioma Cerrado, o segundo maior do país, perdeu o equivalente a mais de um estado de São Paulo.


A velocidade do desmatamento e das queimadas que se intensificam neste período de seca (Julho a Setembro, tendo se estendido nos últimos anos até outubro), deixaram de ser monitorados desde abril deste ano. Por falta de verba, o INPE desmobilizou a equipe de monitoramento do Cerrado e o país ficará sem dados oficiais sobre o bioma, considerado o berço das águas brasileiras e com uma enorme biodiversidade, que, ainda, é pouco conhecida.


Este é o legado do Governo de Jair Bolsonaro no Dia Nacional do Cerrado. Os últimos dados sobre o Cerrado no site Terra Brasilis, do INPE, encerra em 2021.


Quanto o Cerrado perdeu com desmatamento em 2022? De acordo com o Sistema Deter, do INPE, o bioma perdeu mais de quatro mil quilômetros quadrados de janeiro a julho deste, um aumento de 28% em relação ao mesmo período de 2021, sendo o maior índice acumulado de desmatamento para os primeiros sete meses do ano desde 2018.


Após esse período não há dados oficiais. O que sabemos é que o avanço sobre o bioma de acordo com a ong Map Biomas, é 1.335,2 hectares por dia, uma velocidade que assusta quando pensamos que o Cerrado é uma floresta invertida, capaz de reter no solo as águas das chuvas e abastecendo as nascentes de três importantes bacias hidrográficas: Araguaia-Tocantins, Paraná-Prata e São Francisco.


De acordo com dados da Agência Nacional das Águas, que também vem sendo desmontada nos últimos quatro anos, 90% da vazão do Rio São Francisco e quase a metade da bacia do Rio Paraná, que abastece a Hidrelétrica de Itaipu, dependem do Bioma Cerrado.


A implantação do sistema Deter-Cerrado e outras ações do Ministério do Meio Ambiente para monitorar o bioma e buscar sua preservação é fruto de anos de luta e muita discussão para mostrar a importância do Cerrado para a sobrevivência do país. No entanto, o agronegócio só enxerga no bioma, desde sua ocupação, como a última fronteira agrícola.


E a conclusão de diversos relatórios de pesquisadores de universidades como a de Brasilia, de Goiás, e de outras instituições confirmam que o grande vilão do desmatamento do Cerrado em 2021 foi a agropecuária, responsável por 98% da área desmatada do Bioma. E outro dado a se considerar é que estes mesmos relatórios apontam que 39 mil 201 hectares do total derrubado foi dentro de Unidades de Conservação e de Terras Indígenas. Os dados do Inpe revelam que o desmatamento tem sido maior na região conhecida como Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia –, território de maior expansão da fronteira agrícola no país.


A riqueza do Cerrado


Com 2 milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e está presente em cerca de 22% do território brasileiro e em 12 estados (Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná,Pará, Piauí, Rondônia, São Paulo e Tocantins) mais o Distrito Federal. Considerado a savana com maior biodiversidade no planeta e berço das águas, por onde passa a maior parte de dois importantes aquíferos de água doce - Urucaia e Guarani, o Cerrado deveria ser visto como um bioma estratégico para o Brasil, mas nunca foi e se quer é considerado pela Constituição Brasileira como Patrimônio Nacional como é a Amazônia e a Mata Atlântica.


São cerca de 12 mil espécies de plantas e centenas de espécies de animais catalogados, entre aves, mamíferos, peixes, répteis, anfíbios e invertebrados. E segundo os pesquisadores da Embrapa Cerrado e ambientalistas, ainda existe muito mais a se descobrir. No entanto, com as queimadas e desmatamentos constantes muita desta biodiversidade jamais será conhecida, já se perdeu ao longo de anos de destruição.

E como diz o manifesto do WWF Brasil de forma clara e contundente: “O Brasil destruiu 18.962 km2 de Cerrado no biênio 2013 – 2015. A cada dois meses, nesse período, perdemos no bioma o equivalente à área da cidade de São Paulo. Já são mais de 10 anos com o desmatamento no Cerrado superando as taxas da Amazônia. Esse ritmo de destruição torna o Cerrado um dos ecossistemas mais ameaçados do planeta. Conhecida como o berço das águas do Brasil, a savana mais biodiversa do planeta já perdeu 50% de sua área original. Seguida essa trajetória, a destruição do Cerrado acarretará uma extinção massiva de espécies, segundo recente artigo publicado na Nature2”.


E neste dia 11 de setembro, Dia Nacional do Cerrado, devemos voltar nossos olhos para a importância estratégica e para a conservação do bioma, que ainda é pouco reconhecido e valorizado pela população e pelos governantes. E estamos a poucas semanas de decidir o que queremos para o país, alguém que preserve a natureza, reconheça seu valor ou que simplesmente “deixa a boiada passar”.


O risco que o Cerrado corre vai além de sofrer o desmatamento acelerado e uso intensivo de seus recursos naturais, especialmente pela expansão da fronteira agrícola. Sua destruição coloca em risco algumas das principais bacias hidrográficas do país.



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