• Júlia Moura

O resistente fôlego de Pagu

Literatura

A primeira presa do país foi uma mulher. Pagu, que, como um tornado, arrastou corpos e almas para uma revolução proletária, feita de arte e com sede de justiça

Escritora e jornalista Pagu. Foto: Reprodução


As mordaças da censura brasileira rastejavam durante anos para envenenar as raízes culturais do país. Com isso, a primeira presa política do Brasil carregava em si o alicerce fundamental da resistência em um dos tempos mais sombrios de nossa história.


Pagu foi Patrícia Rehder Galvão. Terceira das quatro filhas do advogado e jornalista Thiers Galvão de França e da dona de casa Adélia Rehder Galvão, Pagu nasceu no dia 9 de junho de 1910, em São João da Boa Vista (SP). Entre a família, era carinhosamente Zazá. Foi aluna de Mário de Andrade e de Fernando Mendes de Almeida no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, formação que seria decisiva para sua atuação artística de tal maneira que, aos quinze anos de idade, já publicava suas primeiras colaborações no Brás Jornal, sob o pseudônimo de Patsy. Patsy foi colunista e redigiu críticas ao governo, desvelando suas disparidades sociais com impiedade e um fogo consumidor em seus olhos.


Aos dezoito, aproximou-se do círculo de artistas e intelectuais do movimento antropofágico, como o casal Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, escritor com quem se casaria aos vinte no Cemitério da Consolação, em São Paulo. Apesar de não ter participado da Semana de Arte Moderna, que aconteceu quando Pagu tinha doze anos de idade, sua ampla participação no círculo dos modernistas foi decisiva para que ela se tornasse um dos principais nomes do movimento. Patsy torna-se Pagu quando o poeta e amigo Raul Bopp confunde seu sobrenome, a associa como Patrícia Goulart em um poema que a presentearia o que a faz, por fim, adotar o apelido de Pagu.



"Coco de Pagu":

Pagu tem uns olhos moles

uns olhos de fazer doer.

Bate-coco quando passa.

Coração pega a bater.

Eh Pagu eh!

Dói porque é bom de fazer doer (...)


Porque fumava e bebia em público, mantinha os cabelos curtos e usava roupas confortáveis, tidas como “vulgares”, Pagu, desde muito nova, contrariava a origem tradicional da família e os setores mais conservadores da sociedade paulista. Declaradamente militante comunista e feminista, a escritora e militante centralizou sua atuação no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e no ofício de uma literatura engajada desde o princípio. Além de colunista, Pagu desenhava e traduzia grandes autores como James Joyce, Eugène Ionesco, Fernando Arrabal e Octavio Paz. Sua produção literária é marcadamente conhecida por poemas, pelos romances Parque Industrial (1933), sob o pseudônimo Mara Lobo, e A Famosa Revista (1945). Pagu também escreveu contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, posteriormente reunidos em Safra Macabra (1998).


Seu inferno pessoal começou 1931, ao participar da organização de uma greve de estivadores em Santos, Pagu foi presa pela polícia política de Getúlio Vargas em uma operação covarde e desumana em todas as suas nuances. Essa foi a primeira de uma série de 23 prisões que a autora sofreu ao longo da vida. Em busca de si, abandona suas atividades no Brasil em 1933 deixando o marido e o filho. No mesmo ano publicou o romance “Parque Industrial”, sob o pseudônimo de Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário brasileiro, mais uma vez rompendo com as amarras do silenciamento na autoria feminina nacional.


A partir disso, em nenhum momento as paz habitou os pulmões de Pagu, pois em 1935 a artista foi presa em Paris como comunista estrangeira, com identidade falsa, sendo deportada para o Brasil. Mais furiosa do que antes e todo vapor, retomou suas atividades jornalísticas, criticando a ditadura militar. Sua nova identidade falsa foi descoberta, e Pagu foi, novamente, presa e torturada pelas grotescas artimanhas da ditadura de Vargas por 5 anos, nesse período, o único contato que tinha com seu filho se resumia em visitas mediadas pelo pai da criança, o escritor Oswald de Andrade.


A dor, o exílio e a suja sabotagem de um governo maligno não foram capazes de ceifar a esperança de uma mulher que se calejou em revolução. O olhar de Patrícia Galvão manteve-se afiado e afogado em esperança, desta vez, dedicada ao teatro de vanguarda, apresentou sua tradução de “A Cantora Careca de Eugène Ionesco”. Artista completa e gloriosa, também traduziu e dirigiu Fando e Liz de Fernando Arrabal.


Em baldes Pagu nos instrui nos dias de hoje, o cheiro do fogo ainda está impregnado em nossas narinas, que inspiram uma revolução que é em essência inabalável, impetuosa e, sobretudo, feminista.


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