• Metamorfose

O respiro engajado da arte

Artes Cênicas


Festival Arte como Respiro reúne 28 projetos contemplados no segmento cênico. Dois espetáculos goianos estão na programação


Atriz Sara Antunes em cena do espetáculo teatral “Querida Mamãe, de Dora por Sara" - Foto: Divulgação/ Itaú Cultural


Marcus Vinícius Beck


“Teatro é platéia”, sentenciou Nelson Rodrigues, em frase atribuída a Oduvaldo Vianna Filho, nas páginas do jornal carioca Correio da Manhã. Um dos nomes mais importantes da dramaturgia brasileira, Nelson relembra os primeiros passos que dera no teatro, comparando a peça “Vestido de Noiva” (1943) com “A Mulher Sem Pecado” (1941). Ele disserta: “O espectador é o mais comprometido, o mais impuro e, por outra, o menos inteligente dos seres”. Esse trecho está nas memórias rodrigueanas “A Menina Sem Estrela”, obra relançada pela editora Nova Fronteira em 2015. Falastrão, o Nelson. Ainda assim, convém indagar: há espetáculo sem público?


Uai, há! Veja, por exemplo, o que está fazendo o Itaú Cultural: de 16 a 20 deste mês, o site da entidade volta a ser palco do Festival Arte como Respiro – edição cênica, cuja primeira leva de apresentações teve – entre outras coisas – interpretações de textos de William Shakespeare. Agora, ao todo, são 28 artistas de 12 estados – sendo dois expoentes goianos. Neste segundo recorte de espetáculos que rolam neste mês, o assunto mais abordado são as memórias, mas sempre a fim de lançar olhar sobre o ambiente externo a partir da dança como linguagem predominante.


Além dessas reflexões físicas e emocionais sobre o período da pandemia de coronavírus, o Festival Arte como Respiro desperta também olhares para questões históricas e políticas. Na noite desta quarta (16), o espetáculo “Querida Mamãe, de Dora Por Sara” traz o mergulho da atriz Sara Antunes nos escritos da estudante de medicina Maria Auxiliadora Lara Barcelos (1945-1976), que fez parte da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) durante os anos de chumbo da ditadura civil-militar. A cena teatral mostra trechos de cartas trocadas entre Barcelos e sua mãe, Clélia Lara Barcelos, recriando o sonho da utopia em tempos de moléstias e revisionismo.


Cartas que Maria Auxiliadora trocava com a mãe, Clélia Lara Barcelos, durante anos de chumbo da ditadura civil-militar - Foto: Divulgação/ Itaú Cultural



“O projeto está comigo há muito tempo, foi uma cena que estive aí (em Goiânia) fazendo, que se chama “Guerrilheiras”. Depois desta peça, fiz um longa chamado “Deslembro”, que está concorrendo a melhor filme pela Associação de Cinema Brasileira. Fiz também um documentário sobre a Maria Auxiliadora”, diz Antunes, por telefone, ao Jornal Metamorfose. Ela revela ainda que tinha um material gigantesco de cartas, raríssimo, e ficou com vontade de fazer algo com isso. “Com a possibilidade do Itaú Cultural, nasceu a pesquisa. Tem gravações da mãe dela, mas também pegamos um áudio da ex-presidenta Dilma Rousseff, que era uma grande amiga de Maria Auxiliadora”.


Antunes comenta que o vídeo é curto, com vozes de mulheres e momentos intimidade, ainda que fale de luta. “O espetáculo nasce antes de tudo o que está acontecendo, mas a arte se antecipa. Hoje, mais do que nunca, acho importante voltarmos à História. É uma pedra fundamental para que as pessoas compreendam a História do Brasil. Uma pessoa que elogia torturador não pode ser presidente”, afirma a atriz, que interpreta Dora, apelido de Barcelos, no longa “Alma Clandestina”, de José Barahona. “Tem um carácter histórico, pedagógico, mas sobretudo de sensibilização. Espero que as pessoas que vejam esse vídeo se sintam tocada por essa mulher e pela história dela”, arremata.


Nascida em São Paulo, Antunes é filha de pais que envolveram-se com a ditadura: seu pai foi padre durante 30 anos e acabou exilado com a conivência da igreja. Morou na Europa e África e, com a Lei da Anistia, sancionada em 1979, retornou ao Brasil. No início da década de 1980, conheceu – num congresso de psicanálise – a psicóloga Ângela Bicalho, que tinha sido freira por nove anos. Dramaturga e atriz, Sara Antunes trabalhou em longas e curtas-metragens, como “Primeiro Dia de um Ano Qualquer”, de Domingos de Oliveira, além de “Se Deus Vier Que Venha Amando”, de Luis Dantas. Fez ainda uma ponta na série “Todas as Mulheres do Mundo”, disponível no Globo Play.


Goianos


A produção cênica goiana também marca presença na programação do Festival Arte como Respiro, do Itaú Cultural. “Sentidos”, performance da artista visual e dançarina Eva Maria, retrata a busca por sentimentos verdadeiros para viver e manter uma conexão com a vida em tempos de moléstias – patológicas e políticas. O espetáculo mostra ainda o começo dessa trajetória durante o contexto de isolamento social e da vulnerabilidade em relação às questões de saúde, economia e necessidades básicas de sobrevivência. Além disso, as imagens enfocam memórias que desvendam afetividades com o objetivo de destacar que o sonho pode, sim, ser viável em momentos de dúvidas.


Cena do espetáculo goiano "Sobre o Que Não É Dito" - Foto: Divulgação/ Itaú Cultural



Já em “Sobre O Que Não É Dito” quem conduz a história é a dança. Projeto da Giro 8 Cia de Dança de Goiás, o espetáculo foi gravado dentro da casa de seis bailarinos durante a pandemia de coronavírus, e no projeto o público assiste uma confluência de sentimentos próprios da pandemia. Aos poucos as cenas revelam aspectos típicos destes dias: medo, frustrações, melancolia e felicidade dão um nó na alma e mente das pessoas. Mesmo separados pela crise sanitária, os artistas dançaram juntos e mostraram a ligação energética que os uniu por meio da arte, isto é, amam-se e isso por si só basta.


“São vários sentimentos que vão se misturando dentro da casa e nem sempre são ditos. Nessa situação de pandemia que estamos vivendo (e, ainda, mais no começo dela), a gente buscou olhar mais para si mesmo e para o outro que vive na mesma casa com a gente. Mesmo que nada fosse dito, as situações do cotidiano começaram a ser mais observadas”, diz a diretora artística e coreógrafa da Giro8 Cia de Dança, Joisy Amorim, ao JM. “Muitas vezes no nosso dia-a-dia a gente não olha, não observa e não diz, porque estamos muito preocupados com que está acontecendo e com o que está por vir"..


Serviço:

Festival Arte como Respiro – Edição Cênicas

Quando: De 16 a 20 de setembro

Onde: Itaú Cultural