• Marcus Vinícius Beck

Voz silenciada

Atualizado: Abr 5

Obituário

Agnaldo Timóteo conquistou lugar entre os grandes cantores brasileiros após dar vazão às dores de quem ama e chora em alto e bom som

Foto: Capa do LP 'Galeria do Amor' (1975), lançado pelo selo Odeon.


“Na galeria do amor é assim/ muita gente à procura de gente”. Os versos de Agnaldo Timóteo, eternizados na música “Fermata Brasil", se silenciaram na agulha da vitrola após o cantor morrer no sábado (3), aos 84, em decorrência de covid-19. Ele estava internado desde o dia 17 de março, mas já havia recebido as duas doses da vacina, o que indica que Agnaldo pode ter contraído o vírus entre uma e outra aplicação. A morte foi confirmada por Timotinho, sobrinho do cantor.


Uma das maiores vozes do final da chamada era de ouro do rádio, seu contato com ídolos a partir da Rádio Nacional e Mayrink Veiga começou quando ainda morava na cidade mineira de Caratinga, na qual nasceu em 1936 e passara toda a infância. Seu canto, que lhe valeu de Chacrinha a inusitada definição de que era um homem que “tinha sexo na voz”, chamou cedo atenção de vizinhos e programas de calouros de emissoras, como os da própria Rádio Caratinga.


Após sair de sua cidade natal e desembarcar em Governador Valadares (MG) para trabalhar como mecânico de automóveis, Agnaldo partiu rumo à cidade do Rio de Janeiro (então capital do Brasil) e ganhava o sustento no começo como motorista da cantora Angela Maria. O Rio, naquela época, respirava música por todas suas esquinas, com boates relevando as novidades da bossa nova.


Entre idas e vindas e à procura de um lugar ao sol no show biz, o jovem cantor lançou o LP “Surge Um Astro”, em 1965. O repertório contava basicamente com traduções de hits internacionais. Agnaldo flertou com a fama em “Obrigado Querida”, de 1967, disco que tinha a faixa “Meu Grito”, de autoria de Roberto Carlos: rapidamente, virou um sucesso de norte a sul do país.


Mas o salto na carreira estava por vir: com o vozeirão poderoso que fez com que ele caísse no gosto do público, entrou no rol dos grandes cantores da história da música popular brasileira, em uma sequência de discos de fazer doer o cotovelo escorado dos apaixonados no balcão numa noite de dor e amor. “A Galeria do Amor”, de 1975, virou hino para aqueles que sofrem términos arrebatadores e choram ao lado de uma dose de uísque vagabunda.


Confira a música 'Perdido na Noite'



É importante dizer, contudo, que o Brasil vivia nesta época sob a censura imposta pela ditadura. Agnaldo conseguiu de certo modo espalhar uma ideia sobre o que se entende por masculinidade, menos tóxica e mais livre. Seus shows confirmam isso: propagavam elementos que, meio sem querer, chacoalharam as balizas dos pilares heteronormativos da sociedade da mordaça.


Imagine que, se ainda hoje o país não superou essa fragilidade dos homens, naquele tempo...


Versátil e sem esconder a faceta do galã, gravou músicas de Tom Jobim e Chico Buarque, mas isso não impediu de que a crítica continuasse vendo sua música como "brega" ou como a de um artista menor no panteão dos grandes nomes da música brasileira. De fato, é um ledo engano. Mas Agnaldo sabia que se reinventar era preciso, e por isso chegou a gravar músicas sertanejas.


Fanático por futebol e botafoguense maluco, bancou o velório do jogador e seu amigo Mané Garrincha, morto em 20 de janeiro de 1983 por complicações provocadas pelo consumo de álcool. No entanto, o amor de Agnaldo pelo futebol não ficava restrito apenas a agremiação carioca: durante anos financiou um time no bairro do Catete, no Rio, onde morou.


Sem perspectiva na música, em 1982 candidatou-se a deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro. Mas uma briga com o presidente da legenda, Leonel Brizola, fez com que ele pedisse transferência para o PDS. Elegeu-se ainda vereador do Rio em 1996, porém transferiu-se a São Paulo, onde foi eleito pelo Partido Progressista, em 2004. Em 2012, acusaram-no de fraudar o painel eletrônico da Câmara Municipal paulistana a fim de registrar sua presença no parlamento municipal.


Controverso? Demais. Politicamente confuso? Claro. Reacionário? Um bocado.


Mas que é difícil desdizer que Agnaldo Timóteo dava vazão ao fino, não estava nem aí se era brega, cafona ou qualquer outro rótulo que a crítica usa para definir quem ama desbragadamente e grita bem alto seus sentimentos, isso é. Por isso, suas músicas vão ficar por aí por muito tempo.


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