• Victor Hidalgo

O verdadeiro Deus: Shin Godzilla

Sede de Arte

Filme lançado em 2016 reflete a burocracia e inação dos governos em crises

Filme de 2016 diz muito sobre os dias atuais. Conheça "Shin Godzilla". Foto: Toho/reprodução


Quando vi pela primeira vez Shin Godzilla, foi em 2017. Já tinha se passado um ano desde seu lançamento e eu fui animado ver. Assistindo o longa novamente em 2021, depois de um ano de pandemia, a mensagem do filme bate em mim de uma forma muito mais clara: por estarmos vivendo - só que sem um monstro gigante (ainda) - uma das maiores crises da nossa história.


“Shin” significa “real” ou “verdadeiro”, também é usado em pronúncia de outros Kanjis, como Deus (Kami). Então já no título temos essa questão do Verdadeiro Deus (Shin Godzilla), já tratando Godzilla como essa entidade acima dos seres humanos.


O filme é dirigido por Hideaki Anno, o criador de uma das obras mais influentes do Japão para o resto do mundo: Neon Genesis Evangelion. E eu não poderia pensar em uma pessoa melhor para dirigir um novo filme de Godzilla se não ele. O último filme japonês do monstro tinha saído em 2004 com: Godzilla Final Wars. Que é um filme com uma proposta muito diferente da que Anno trabalha, foi na fase Millennium do monstro, focado muito mais em lutas de Kaijus (monstros gigantes).


A obra retorna para suas origens, o primeiro filme, de 1954, foi dirigido por Ishirõ Honda (e que recebeu uma versão extremamente editada e horrível para ser distribuída nos Estados Unidos). Na época, o filme fez uma crítica ao que os EUA fizeram ao Japão, com as bombas de Hiroshima e Nagasaki, o terror nuclear. E Godzilla é a encarnação dessa destruição radioativa.


No filme de 2016 não poderia ser diferente. Ele abre com a guarda-costeira japonesa investigando um iate abandonado na baía de Tóquio, mas não demora muito para o barco ser destruído e a baía inundada. E assim começa Shin Godzilla. Os primeiros dez minutos do filme são uma sequência do governo indo de uma sala de reunião para outra para definir o que fazer. Um show de burocracia e negacionismo da situação que vão custar muito caro mais tarde.


A resposta do governo no começo é literalmente “é só uma pequena erupção vulcânica, não é nada de mais”, enquanto o protagonista, Rando Yaguchi (Hiroki Hasegawa), se frusta com a resposta lenta do governo, ele chega até traçar um plano, mas que recebe a resposta: “Você está falando com quem?”


Aqui já começo a traçar paralelos com a resposta lenta do governo (o Brasileiro, no caso) na resposta de uma crise como a atual pandemia. A todo o momento minimizando o impacto que essa crise poderia gerar, deixando para lá, não agindo. O primeiro-ministro japonês chega a ir aos jornais em uma chamada ao vivo para dizer que está tudo sob controle, que a criatura marinha não tinha como chegar à terra firme, que o seu peso não a permitiria isso (apesar de ter sido alertado ser possível), ao terminar a fala ele recebe a notícia: a criatura chegou no solo, e se arrasta em direção a Tóquio.

Personagem Yaguchi busca respostas escondidas pelo governo japonês. Foto: Toho/reprodução


Uma das coisas que eu mais gostei nesse filme do Godzilla é como ele trata a criatura em si. O monstro evolui no decorrer do filme para sobreviver ao ambiente que ele se encontra e aos ataques que sofre. Então, sua primeira versão parece ser uma frágil salamandra gigante, que está cuspindo sangue por suas branquias, com olhos vidrados (que acredito ser uma referência aos olhos do traje do primeiro filme) que se arrasta vagarosamente por entre canais e que acabou tendo que vir a terra por algum motivo. As cenas iniciais do filme lembram o desastre nuclear de Fukushima, fazendo uma crítica ao governo japonês.


Muita da influência de Hideaki Anno pode ser vista no filme. Desde os ângulos que usa para a composição das cenas (que me remeteu muito a Evangelion) até o surgimento de uma trilha sonora muito conhecida pelos fãs do diretor, quando Yaguchi junta o seu bando de renegados para traçar um plano para combater a criatura. A trilha em questão é: Decisive Battle - de Shiro Sagisu - do anime Neon Genesis Evangelion, sendo um rearranjo para o filme. Não preciso dizer que deu um leve arrepio quando ela tocou.


Outro paralelo curioso - que eu achei um absurdo na primeira vez que vi o filme, mas já não acho hoje - é quando Godzilla volta para o mar, a vida volta ao normal como se uma criatura colossal nunca tivesse existido. Crianças voltam para as escolas, adultos voltam ao trabalho e o governo mede os danos causados. Mas o Kaiju ainda existe. Meio que como estamos vivendo a pandemia no momento, sem nenhum controle, o vírus circulando livre, mas a economia não pode parar.


Tem até uma cena rápida de pessoas protestando contra as ações do governo para combater a criatura, como um culto a Godzilla.


Por conta das ações ineficazes do governo contra a criatura, ela acaba ressurgindo do mar muito maior e perigosa do que antes. Não é só “um largartinho, talkey?”. Já em sua fase final que uma das cenas mais tocantes do filme acontece: depois de uma tentativa frustrada das Forças de Autodefesa do Japão (FAJ) de impedir o avanço da criatura, os Estados Unidos resolvem entrar no jogo. É quando uma ópera melancólica começa a tocar, composta por Shiro Sagisu…


Se eu morrer neste mundo

Quem saberá algo de mim?

Eu estou perdido, ninguém sabe

Não há vestígios do meu desejo”


O tom não é de triunfo, não é de um ataque contra uma criatura monstruosa. É sobre o homem ferir a terra, a natureza. Os erros da humanidade manifestados nessa criatura que só sente dor desde que foi contaminada por radiação. Que sua morte pode ser esquecida, que não vamos aprender com nossos erros. Ninguém consegue entender a dor que ele sente, Godzilla era apenas um animal marinho inofensivo, mas hoje, é uma ferida aberta pulsante de dor e desespero.


As bombas caem e Godzilla solta seu icônico rugido… mas não é um rugido intimidador, não, é apenas dor.


É o melhor filme de Godzilla dos últimos anos. Os filmes estadunidenses são divertidos, mas não passam disso. Ele trabalha os temas que fizeram o primeiro filme da franquia ser o marco cultural que ele é hoje, uma das obras mais importantes do cinema. Explorando temas ambientais, burocracia, o papel do governo no gerenciamento de crises e como somos responsáveis pelos danos que estamos causando no planeta.


Isso reflete na própria imagem do monstro, que é uma criatura retorcida, que parece que não deveria existir, um terror lovecraftiano. Estou animado com o próximo trabalho de Hideaki Anno, que está trabalhando em Shin Ultraman, outra obra icônica japonesa que está marcado para sair em 2021.


Filme: Shin Godzilla

Diretor: Hideaki Anno, Shinji Higuchi

Ano: 2016

Distribuidora: Toho Pictures



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