• Marcus Vinícius Beck

A trajetória do violão vadio

Biografia

Jornalista e pesquisadora francesa Dominique Dreyfus reconstrói a trajetória artística de um dos principais violonistas do século 20. Texto é escrito com agilidade e linguagem ensaística


Baden Poweel trouxe para o violão o batuque do umbanda e candomblé - Foto: Reprodução



Ele pensava consigo mesmo que gostaria de qualquer jeito pegar aquele violão, que ia tocar, que ia se tornar violonista... Mas não se atrevia a pedi-lo, negariam sem dúvida. Virar músico? Tocar na noite? Subir o morro e perambular por botequins? Então a solução foi roubar o instrumento. Tirou com todo cuidado do mundo daquele prego na parede, enrolou-o cuidadosamente numa toalha e escondeu-o debaixo da cama.


A cena, extraída da biografia “O Violão Vadio de Baden Powell", escrita pela jornalista e pesquisadora francesa especialista em música brasileira Dominique Dreyfus, retrata o amor à primeira vista pela música de um dos instrumentistas mais importantes do século 20: Baden representava a saudosa época dos prostíbulos cariocas da Lapa e Copacabana, quando, na virada dos anos 1950 para 1960, junto com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes reinventou o samba e descobriu a bossa-nova.


“Baden, ao mesmo tempo que tinha uma formação super popular, do morro, dos botequins, também tinha a formação do choro. E o choro é uma coisa meio erudita. Não tem como você pegar uma garrafa de cerveja e começar a bater com sua faca. Precisa de uma erudição, que o Baden tinha. Ao mesmo tempo que ele estava nas rodas de samba, ele estava estudando música erudita. Era um grande conhecedor de música em geral”, explica a jornalista em entrevista ao Jornal Metamorfose, por telefone, direto da França.


Em mais 400 páginas, Dominique descreve, num tom ensaístico, ágil e cartesiano, viagens, gravações e êxitos, desde a profissionalização precoce na noite carioca até a carreira internacional, cujos shows a jornalista documentou nas publicações em que trabalhava. A obra mostra consistência à medida que o perfil do compositor melódico, fortemente influenciado por elementos barrocos, sem dispensar a sonoridade popular de quem começou tocando no morro, se desenha para o leitor em sua cabeça.


Aí está o verdadeiro prazer do texto da obra: Dominique explica que o músico encampou uma revolução rítmica no violão brasileiro, com uma batucada singular e complexa, que ninguém conseguiu reproduzir até hoje. “Talvez o filho dele, Marcel, consiga”, atesta a jornalista, que dirigiu a edição francesa da revista Rolling Stone e foi especialista em Brasil no jornal Libération. “Não tem ninguém que toque o violão dele... por exemplo, o violão do João Gilberto: tem gente que é capaz de reproduzir.”


“Me sinto mais fazendo um ensaio sobre música brasileira do que escrevendo sobre a intimidade de alguém”

O que interessa para a jornalista, assim que mergulha na obra de algum artista para biografá-lo, não é saber se ele era alcoólatra ou não, se casou ou não: essas futilidades que servem para alimentar a necessidade de o público saber das fofocas sobre os gênios passaram longe dos interesses jornalísticos da autora. Nela o jornalismo, amparado pelo ensaio francês, é muito mais do que empilhar declarações descontextualizadas. Com ela, o jornalismo é um ofício para gente grande. “Me sinto mais fazendo um ensaio sobre música brasileira do que escrevendo sobre a intimidade de alguém”.


A gênese do livro começou em 1986, quando a Dominique tinha feito a cobertura do Festival Internacional de Violão de Martinica, que naquele ano fora inteiramente dedicado à música brasileira. Os mestres estavam lá. Entre eles, Baden Powell. Como seria dele a apresentação final , era um dos mais aguardados. Mas o músico ficou trancado em seu quarto até o último dia, até que, convidado de honra, subiu ao palco, pegou o violão e fechou com chave de ouro. Era o que mais gostava de fazer: tocar


No dia seguinte, foram todos embora. O voo de Baden, que iria para Nova Iorque, coincidiu com o da jornalista, para Paris. Fizeram o check-in e Baden a chamou para tomar um café. Ela então se acomodou numa mesa do bar do aeroporto. “Estou pensando que seria interessante publicar a história da minha vida. Já tenho vivência e idade para isso. E acho que você é a pessoa indicada. Sendo francesa, você vai saber contar o lado francês da minha vida, da minha carreira. E sua convivência com o Brasil faz que você entenda o brasileiro que eu sou”, disse o autor de “Os Afro-Sambas”.


Dominique se emocionou. Pegou o telefone dele. Combinaram de se encontrar quando o músico retornasse dos Estados Unidos. Mas isso não aconteceu e ela continuou trabalhando na biografia de Luiz Gonzaga, lançada também pela Editora 34. Dez anos mais tarde, com pedido da editora se ela tinha outro projeto em vista, achou que era chegada a hora de ter notícias do músico. Foram necessários dois meses de intensa pesquisa para encontrá-lo: ele estava morando em Paris. Obteve o telefone de Baden.


Estou pensando que seria interessante publicar a história da minha vida. Já tenho vivência e idade para isso. E acho que você é a pessoa indicada

“Baden morreu em 2000. Minha pesquisa foi até o final de 1997, mais ou menos. Essa versão agora que você recebeu é uma versão revista: acrescentei novos elementos, que é o que se conta tudo o que aconteceu quando parei para escrever o livro”, relata a jornalista. Quando o livro saiu ela não acompanhou muito o que aconteceu com o Baden: na época ele estava no Brasil. Mas, para a edição ampliada e revisada lançada recentemente pela 34, Dominique mergulhou de novo na obra de Baden.


“Quando comecei a fazer a pesquisa para esse último capítulo, mergulhei novamente na vida do Baden e descobri uma coisa muito linda: essa última fase, esse último disco dele, não é um disco testamentário. Era um disco de abertura, do Baden partindo para um novo capítulo da vida dele. Repercorrendo as coisas que ele gostava na música. É um disco de ressurreição. Ele estava sempre cheio de projetos e de abertura… de futuro... a morte acabou com esse futuro. Não estava previsto na cabeça dele”.


Muito mais do que comemorar a efeméride dos 20 anos da morte de um dos violonistas mais geniais da MPB, “O Violão Vadio de Baden Powell” contribui para que sua obra não seja esquecida. Se Tom Jobim e companhia cantavam o cotidiano burguês do Corcovado, Baden trouxe elementos da Zona Norte do Rio de Janeiro, das rodas de samba, para a música brasileira. E com Vinícius de Moraes criou uma obra-prima: “Os Afro-Sambas” (1966). Por isso, ele não deve ser esquecido.


‘O Violão Vadio de Baden Powell’

Autora: Dominique Dreyfus

Gênero: Biografia

Editora: 34

Preço: R$ 76,00

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