• Marcus Vinícius Beck

O xamã escandaloso

Música

Série de lançamentos marca cinquentenário da morte de Jim Morrison, o poeta doidão e culto que revolucionou o rock


Jim se inspirava nas teorias surrealistas de Antonin Artaud para se apresentar - Foto: Guy Webster, em 1966.


Os músicos mandam a introdução de “Five One”. Bêbado e furioso, Jim Morrison (1943-1971) cantou os versos que abrem a canção de maneira razoavelmente coerente. Então ele fez um duro discurso, no qual chamou o público de “bando de idiotas”, tirou sua camisa e a jogou para a platéia, que desapareceu num toque de segundos: enquanto assistia a cena protagonizada pelo público, depositou a mão sobre a fivela do cinto e, na esperança reverter a situação, Ray Manzarek começou a tocar “Touch Me”.


Por mais obsceno que o episódio soe numa sociedade que não tolera embriaguez e nudez, Jim colocou em prática as teorias do surrealista francês Antonin Artaud. É normal, portanto, que a cena de Miami e as referências intelectuais suas estejam presentes nas páginas de “Ninguém Sai Daqui Vivo”, biografia escrita pelo jornalista norte-americano Jerry Hopkins e Danny Sugerman sobre a vida e a obra do artista.


O livro, que já saiu no Brasil pela editora Novo Século, ganha nova tradução na esteira dos 50 anos da morte do vocalista, cujo corpo fora encontrado numa banheira em Paris, em julho de 1971. Até hoje a morte é misteriosa: não foi feita nenhuma autópsia e ele foi sepultado no Père-Lachaise num cortejo que reuniu apenas cinco pessoas, entre elas a cineasta Agnès Varda. A narrativa da obra é atraente e prende o leitor do início ao fim.


Hopkins foi o cara que teve a sorte de conseguir uma entrevista exclusiva com Jim após o fatídico show realizado em Miami, no dia 1° de março de 1969. O texto marcou a Rolling Stone (então conhecida como porta-voz da contracultura) e é considerado uma relíquia do jornalismo cultural americano, pelo estilo narrativo e descritivo, com a habilidade do entrevistador evidenciada no teor do diálogo imprimido na RS.


Voltando: as homenagens em torno do cinquentenário de morte de Jim reservam ainda o lançamento da graphic novel de Leah Moore, um tributo à importância dos Doors para o rock. Em junho, deve sair uma coletânea com todos os poemas, letras, anotações e diários deixados pelo autor de “Love Me Two Times”. As duas obras, em comum, têm um ponto justo: mostrar que o que o cantor queria era mesmo ser poeta.


Para quem acredita que Jim era apenas um rockstar, vale dizer que suas referências literárias são dignas de um sujeito culto, que gostava do mundo das ideias e tinha prazer pela palavra escrita. Aluno aplicado na escola, apaixonou-se pelos versos de Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire e reverenciava o personagem Dean Moriarty, eternizado pelo escritor Jack Kerouac no romance “On The Road”. Ele inspirou-se nele quando resolveu ir da Flórida à Califórnia com uma mochila nas costas.


Jim Morrison entrou no mundo da música, em meados dos anos 1960, por um mero acidente ao mostrar o que escrevia para o amigo Ray Manzarek, seu colega no curso de cinema na Universidade da Califórnia, a UCLA. Jim era tão fissurado em literatura que tirou de um ensaio psicodélico de Aldous Huxley o nome The Doors. A eles, juntaram-se o guitarrista Robby Krieger e o baterista John Densmore.


Se no começo da carreira cantava com as costas viradas para o público, pouco a pouco ele foi perdendo a timidez, com suas calças de couro que não deixavam nada para depois. Daí vem o rótulo de os Doors serem uma banda tanto intelectual quanto sexual.


Rebelde? Claro. Violento? Também? Alcoólatra? Dispensa comentários.


Jim, assim como seus contemporâneos do Verão do Amor, encheu a cara de ácido, cheirou todas, fumou demais e fez coisas que extrapolam a nossa compreensão sobre hedonismo. Ao lermos “Ninguém Sai Daqui Vivo”, ficamos com a sensação de que é impossível imaginá-lo sem estar segurando uma garrafa.


Ele bebia porque seus escritores favoritos também bebiam, em seguida passou a beber para aliviar as pressões e, finalmente, controlar a ansiedade provocada pela depressão.


Processado por atentado ao pudor (simulou sexo oral no microfone no famigerado show em Miami), foi processo pelo sistema de justiça dos Estados Unidos e, num caso midiático que botou os Doors na condição de ameaça ao status quo, embarcou num avião para Paris. Antes, porém, deixou uma pérola: “L.A Woman” (1971). Aos amigos, após a morte de Janis Joplin e Jimi Hendrix, dizia que seria o “número três”. E foi.


Não sem, é verdade, querer enterrar o ícone Jim Morrison. Em suas poesias, assinava James Douglas Morrison. No entanto, passados 50 anos de sua morte, quando falamos em The Doors é Jim Morrison que nos vem à cabeça, e não o contrário.


Confira o clipe de "Riders on the Storm"

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