• Júlia Aguiar

Ode à rebeldia

Literatura

Poeta francês Arthur Rimbaud será objeto de estudo no ciclo ‘Visões de Rimbaud: Uma Guia Para a Leitura’, ministrado pelo ensaísta Claudio Willer

Colagem de Rimbaud feita pelo artista Ernest Pignon-Ernest, em 1978, espalhadas pelas ruas de Paris. Foto: Reprodução

Júlia Aguiar


“Antes, se me lembro bem, minha vida era um festim em que se abriam todos os corações”, escreve Arthur Rimbaud em 1873, na obra Uma temporada no inferno. “Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, a vós meu tesouro foi entregue!”, continua o poeta, que será objeto de estudo no curso “Visões de Rimbaud: um guia para leitura”, ministrada pelo tradutor, poeta e ensaísta Cláudio Willer, em três encontros de duas horas cada, pelo Google Meet. As inscrições para a oficina vão até o próximo dia 16.

“Nada de esperanças nem de recomeço”, é Arthur, precisamos de poesia e sua verborragia lírica nunca esteve tão atual. De certa forma é até reconfortante perceber que não estamos engasgados sozinhos, que a angústia não é só do nosso tempo. Ainda há vida em páginas mortas, “no momento me revolto contra a morte! O trabalho me parece leve demais ao meu orgulho; minha traição ao mundo seria um suplício demasiado breve”, escreve o poeta em “O Clarão”.

“A impressão que tive foi de que, se aquilo era possível, então tudo era permitido na criação literária. Abriu para um infinito, digamos. E não só para mim... Tanta gente boa, de André Breton e Henry Miller a Patti Smith, passando pelos beats”, conta Claudio Willer sobre a importância do poeta, em entrevista ao Jornal Metamorfose.

Se há 147 anos os boêmios, malditos e vagabundos já passavam pelo frenesi de vislumbrar as vísceras da realidade, imagine os que sobrevivem ao apocalipse – no caso, o grande desastre que está sendo 2020.

Guia para entender Rimbaud

Cláudio Willer, Foto: Victor Moriyama/Reprodução

Em entrevista ao JM, Cláudio Willer afirma que têm interpretações originais sobre Rimbaud, "enriquecerão a leitura e permitirão que o leitor ache mais sentido em sua obra”. Willer teve contato com a obra do poeta pela primeira vez em meados de 1960, quando leu a tradução feita por Ledo Ivo das obras “Uma temporada no Inferno” e “Iluminações”. Cláudio ainda lembra que o Rimbaud era autor predileto de seu querido amigo, Roberto Piva – um dos melhores poetas “malditos” do século XXI.

Tradutor dos beats no Brasil, Cláudio Willer já deu palestras e coordenou um grupo de estudos, além de publicar artigos sobre Rimbaud. No livro “Um obscuro encanto: Gnose, Gnosticismo e a poesia moderna”, de 2010, Willer dedica um capítulo inteiro para o poeta.

Caro leitor, vale lembrar que Willer não é qualquer especialista em poesia. Não estamos falando de burocratas da linguagem! Mas de um dos únicos poetas brasileiros a ser citado no periódico francês La Bréche - Actión Surrealisté, dirigida por André Breton, em 1965.

“É o modo de expressar-me com o qual me identifiquei. Resultado, acho, de leituras que me influenciaram ou, melhor dizendo, me impactaram, fizeram a cabeça”, conta Willer, que foi influenciado por grandes nomes da literatura poética, tais como Lautréamont, García Lorca, Pessoa, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Campos de Carvalho.

"Quando iremos afinal, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, para adorar – os primeiros! – o Natal na terra! O canto dos céus, a marcha dos povos!” – Rimbaud

A revolta é muito presente na literatura de Rimbaud, entre as vielas sujas da história, o sangue e as condições fúnebres de trabalho do século 19, suas linhas tortas se tornaram grande expressão da rebeldia literária. Os questionamentos sobre a perspectiva da realidade são essenciais nos dias de hoje, em que parecemos imersos na narrativa sufocante dos caretas no poder. “Admitamos que a linguagem constitui a percepção da realidade; que dê mais sentido ao que entendemos como “realidade”. Aceito isso, alguém dispor de um repertório mais amplo, com mais modos de expressar-se, equivale a estar em uma realidade mais rica – ou menos pobre”, revela Willer ao JM.

Existe um grande porcentual de analfabetos funcionais no Brasil, pessoas que sabem ler porém não conseguem interpretar a subjetividade do texto, “evidentemente, isso se relaciona com o presente estado de coisas; com reaparições do fascismo, inclusive. Rodas de leitura, oficinas literárias e cursos extracurriculares têm, nesse contexto, uma função simultaneamente pedagógica e política”, conta Cláudio.

Se a geração do desbunde conseguiu sobreviver aos anos de chumbo, com a realidade escancarada em linhas malditas de poesia, aprender e ouvir mais sobre o passado não parece má ideia. Podemos sonhar com a liberdade, ou, escreve-la.


Serviço

‘Visões de Rimbaud: Uma Guia Para a Leitura’

Inscrições: até 16 de outubro

Palestras: 20 e 27 de outubro e 3 de novembro

Horário: sempre às 20h

Onde: Google Meet

Preço: R$ 150 (dividido em até 12x)

Mais informações: https://willercursos.wixsite.com/willer