• Marcus Vinícius Beck

Onde está a liberdade?

Cinema

Festival exibe produções que marcaram o movimento neorrealista, responsável por documentar a miséria após a Segunda Guerra

‘Roma, Cidade Aberta’ é um dos filmes mais importantes do neorrealismo italiano - Foto: Reprodução


Estava em curso um drama social: a Itália havia sido destruída por Benito Mussolini e o horror fascista ao qual ele submetera sua população nas décadas de 1920 e 1930.


Se nas ruas reinavam a miséria, os cineastas Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Giuseppe Di Santis e Renato Castellani não mais precisavam filmar o moralismo para meramente agradar a tirania fascista: estava pavimentado o caminho para retratar a sociedade como ela de fato era, suas doença social e sua desigualdade, com obras que a História tornou documentos do caótico cenário após Segunda Guerra Mundial.


Fascistas, não passarão. O termo neorrealismo surgiu em 1942, num artigo publicado pelo crítico Umberto Barbaro na Revista Cinema. No texto, ele se referiu ao movimento que revolucionaria a linguagem cinematográfica como autêntico e antifascitsa. Mas seu início ocorreu mesmo três anos depois, com “Roma, Cidade Aberta”, de Roberto Rosselini, que faz parte da programação do Festival 125 Anos de Cinema, do Telecine.


Convenhamos, a mostra é convidativa. Dessas raridades cinéfilas. Porque, além dos clássicos “Belíssima” e “Alemanha, Ano Zero”, ela exibirá também “Milagre em Milão”, de Rossellini, “Onde Está a Liberdade”, de Rossellini, “Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, “Roma Cidade Aberta”, de Rossellini, e “Paisá”, do mesmo diretor.


Independentemente se há muitos filmes de Rossellini – e, de fato, há, o que pode ser considerado um ponto a ser problematizado -, o festival oferece uma interessante oportunidade de apreciar obras que influenciaram nomes como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, dois dos mestres sagrados do cinema novo brasileiro.


É um paraíso à cinefilia e àqueles que se sentem boquiabertos com o que vê no noticiário.


Link para assistir ao filme ‘Ladrões de Bicicleta



Mas há de se ressaltar que assistir ao neorrealismo numa época em que o mundo tem contato com o recrudescimento do autoritarismo é diferente. Primeiro, “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica, é um manifesto antifa por excelência. Segundo, “Onde Está a Liberdade”, de Rossellini, segue na mesma toada, porém com uma diferença: há nele uma necessidade em mostrar como o autoritarismo rouba a liberdade humana.


Se os neorrealistas tivessem realizado apenas um filme, o drama “Ladrões de Bicicleta”, seus nomes certamente já teriam sido inseridos na história do cinema. Esse filme talvez seja a obra-prima do movimento. Escancara tanto o brilho em retratar os destroços da classe trabalhadora após a Segunda Guerra quanto às fragilidades.


Tudo bem: vale a história de Antonio Ricci, um desempregado que é contratado para um serviço, porém precisa de uma bicicleta. Em seu primeiro dia, ela é roubada e se desenrola eventos que simbolizavam a batalha das pessoas que estão lutando para sobreviver. No entanto, os atores (mesmo sendo não-atores) emprestam aos personagens identidades emocionantes que vão além das esboçadas no roteiro.


De Sica, originalmente, era ator e, por isso, seus filmes costumam contar com interpretações brilhantes. E, para usar uma expressão cunhada pelo crítico da revista The New Yorker, Richard Brody, “são banquetes de atuação” por si só.


Em “Milagre em Milão”, também disponível no Festival 125 Anos de Cinema, o diretor deixa sua imaginação correr, criando uma sátira sobre as diferenças básicas entre endinheirados e desprovidos de grana. Aqui De Sica é claro ao acreditar que apenas um milagre salvará aqueles que mais precisam de assistência. A trama enfoca um comediante sutil e outro não profissional, sem um centavo no bolso.


Totó, o protagonista do filme, recebe uma visão de sua antiga mãe. Ela lhe concede uma pomba mágica e o comediante vai atrás do sonho de construir uma vida digna, porém precisa lidar com a pobreza que é uma cidade devastada pela guerra. Fez sucesso: chegou a ser indicado a dois BAFTAs, num deles o de melhor filme.


É importante, contudo, assistir aos filmes neorrealistas sabendo que Rossellini - autor das obras basilares do movimento, como “Roma, Cidade Aberta” e “Paisan”- tinha seus próprios limites: as limitações em retratar a vida externa a despeito da interna podem soar um pouco básico no sentido da complexidade do mundo. Mas é inevitável não indagar: quais seriam os limites do autoritarismo?


De fato, é o xis da questão. E, definitivamente, o cinema neorrealista italiano continua sendo a expressão artística mais conhecida pelo mundo do período pós-guerra, mas não foi um movimento restrito apenas ao audiovisual: havia paralelos na literatura e fotografia.


Nesse sentido, assistir ao Festival 125 Anos de Cinema é essencial. As obras estão disponível no Telecine Play.

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