• Marcus Vinícius Beck

Ontem e hoje: a poesia

Literatura

Crítica literária compila textos de poemas da chamada geração marginal e, 45 anos depois, volta com obra que documenta a cena contemporânea da poesia produzida por mulheres

Ana Cristina César: poeta fez parte da Geração Mimeógrafo e teve textos publicados em ‘26 Poetas Hoje’ - Foto: Cecília Leal/ Reprodução


Heloisa Buarque de Holanda começa “26 Poetas Hoje” num tom no qual enaltece a poesia produzida durante a década de 1970: “nos bares da moda, nas portas de teatro, nos lançamentos, livrinhos circulam e se esgotam com rapidez”. Um dos registros mais importantes sobre a Geração Mimeógrafo ou Poesia Marginal, a crítica literária diz que, além de artigos publicados em jornais de resistência à ditadura civil-militar, o assunto começou – ainda que com certa resistência – “a ser ventilado nas universidades”.


“A participação do autor nas diversas etapas da produção e distribuição do livro determina, sem dúvida, um produto gráfico integrado, de imagem pessoalizada, o que sugere e ativa uma situação mais próxima do diálogo do que a oferecida comumente na relação de compra e venda, tal como se realiza no âmbito editorial”, escreve a estudiosa no prefácio da obra, relançada em janeiro pela Companhia das Letras.


Após 45 anos do lançamento de “26 Poetas Hoje”, Buarque de Holanda documenta em “29 Poetas Hoje” (também lançado pela Cia das Letras) a presença das mulheres na poesia contemporânea, retratando estilo, particularidades e vozes de uma geração combativa, cujo alicerce é a manutenção da diversidade. Os versos evidenciam a força, além da coragem e do talento dessas artistas, e apontam diferenças de comportamento e perspectivas delas que estão escritas e imprimidas nos poemas de ontem e hoje.


Segundo a poeta goiana Fernanda Marra, autora da obra “Taipografia”, na década de 1970, em meio à repressão da ditadura, o foco consistia em reivindicar a liberdade do corpo e abrir alas para indagar sobre ser mulher, nascer mulher, tornar-se mulher. Ela afirma que a escrita deste século não é a ocupação desse espaço criado pelas gerações anteriores, mas sua preservação. “Cada uma que escreve está cingindo a abertura, sustentando esse lugar de onde é possível perguntar: “que é a mulher?”, “a mulher existe?”, “existo?”, “quando?”, “onde?”', diz.


Se o conteúdo político dominava os versos durante os anos de chumbo, na sociedade pós-moderna houve uma mudança, com a política do enfrentamento, a representação identitária e a reafirmação da poesia feminina se tornando cada vez mais presentes nos textos: quando a poeta Nina Rizzi, por exemplo, define que toda mulher é uma poesia, ela deixa óbvio a força desses versos. Tanto que, dialogando as questões do mundo contemporâneo, a voz feminina é uma força que merece ser olhada com atenção.


Para a poeta e cineasta carioca Lee Aguiar, que se prepara para lançar um título pelo selo independente paulistano ProvokeAtiva, é preciso olhar para a produção feita por mulheres tanto nos anos de chumbo da ditadura quanto nos dias atuais, onde a necessidade em debater pautas relacionadas à diversidade é grande e urgente. Segundo Lee, o mercado editorial, como um todo, é autocentrado a partir de uma lógica onde se facilita e prioriza que homens brancos e privilegiados sejam publicados.


“Isso possibilita, muitas vezes, que a literatura produzida por mulheres não seja tão difundida como é, por exemplo, a feita por homens. Pegue o caso da Matilde Campilho: ela é uma grande artista, mulher foda da porra, dona de versos potentes, mas que em certo sentido fica ofuscada pela lógica monopolista que vigora no meio editorial brasileiro. É uma coisa reducionista, que não representa a diversidade da existência e da vida”, afirma Lee, que publica no Jornal Metamorfose uma coluna de crônica-poesia às segundas-feiras.


Goiás


Em Goiás, revela Fernanda Marra, a poeta e crítica Darcy França Denófrio pesquisou e resgatou a obra de Leodegária de Jesus, mulher negra e pioneira na publicação de poemas no estado. “Importa saber da escrita de Leodegária, conhecer sua história, o que não significa que precisemos sempre escrever referendando o que escreveu. Até porque, Leodegária e Cora Coralina foram mulheres que escreveram quando a geografia do Centro-Oeste e a condição da mulher eram, de fato, barreiras quase intransponíveis que elas, mesmo assim, ousaram perfurar”, afirma a poeta.


“A barragem está rompida, a internet nos trouxe a rede, atalhou distâncias, estamos descobrindo que podemos ampliar as referências e nos aproximar de outras paisagens. Sinto que é preciso apertar o passo e essa urgência me leva a ler muitas mulheres contemporâneas, brasileiras, argentinas, portuguesas, não distinguo”, diz Marra, citando nomes como Ana Martins Marques, Matilde Campilho, Chantal Casteli, Beta Reis, Ledusha Spinardi, Marília Garcia, Thaíse Monteiro e Nina Rizzi, além de outras tantas.


É importante lembrar ainda que iniciativas como a da Nega Lilu, em Goiânia, ajudam a democratizar as vozes na poesia, revelando figuras que abordam questões cruciais para a sociedade. A literatura, enquanto instrumento sobre a vida, é um dos artífices mais importantes para que assuntos pertinentes ao mundo contemporâneo sejam discutidos e debatidos.

O caminho foi criado pela geração dos anos 1970. Agora, resta brigar pela política da diversidade. “29 Poetas Hoje” é um começo.





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