• Marcus Vinícius Beck

Os 50 anos de Woodstock

Contracultura

Evento entrou para a história como o auge e o crepúsculo da geração hippie

Foto: Reprodução


Ninguém entre o público de 400 mil pessoas tinha mais de 30 anos quando ficaram acampados no ‘meio do mato’, comendo, bebendo, dormindo e transando ao ar livre. E, como estamos careca de saber, fumando maconha e tomando LSD. Até hoje os registros que se tem do Festival de Woodstock apontam o evento como o maior símbolo da paz de todos os tempos, e a grande manifestação da contracultura – que desabrochara uma década antes com a prosa do escritor Jack Kerouac e os versos do poeta Allen Ginsberg.


Realizado entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969 na fazenda Max Yasgur, no Estado de Nova Iorque (EUA), o festival é considerado um ato político contra a Guerra do Vietnã, que mandava os jovens para a morte em um conflito armado na Ásia que durara à época quase 20 anos. A trilha sonora tocava artistas do calibre de Creedence, The Who, Jimi Hendrix, Joe Cocker, Santana, Janis Joplin, Jefferson Airplane, entre outros nomes. Com um som desses no line-up, o acesso ao rolê era congestionado e quem foi de carro teve de enfrentar quilométricas filas de congestionamentos.


Ao todo, foram vendidos 186 mil ingressos antecipadamente, com valor de US$ 18. Boa parte do público, contudo, teria ‘metido o louco’ e pulado a cerca, assistindo o festival de graça e se esbaldando com o clima de liberdade. Mas Woodstock não chegou a ser o primeiro evento de música a acontecer em pleno ar livre, na década de 1960, e muito menos o grande evento da cultura hippie. Para a maioria, o grande acontecimento continua sendo o Festival de Monterrey, realizado na Califórnia, no verão de 1967, como o retrato da época.


Apesar dos pesares, hoje Woodstock possui aura mitológica, especialmente por representar o apagar das luzes do movimento hippie. Tal episódio foi narrado pelo jornalista Hunter S. Thompson (um dos expoentes da contracultura no meio literário norte-americano) no livro “Medo e Delírio em Las Vegas”, em 1971. O ‘fim do sonho’ começou em 1969 com o clã de Charles Manson, responsável por cometer assassinatos bárbaros ao som de rock e com a mente cheia de ‘ácido’, matando a sangue frio a Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski.


No mesmo ano, o rock passou a ser visto com maus olhos, durante um show dos Rolling Stones em Altamont, na Califórnia, uma gangue de motociclistas Hell's Angels, matou um negro próximo ao palco. O festival ‘peace and love’ quase não gerou lucros para os organizadores, que ganharam dinheiro com os áudios e vídeos produzidos sobre o evento. Na memória, temos a imagem de um lamaçal com lixo deixado pelos participantes: Woodstock é mito.


Contexto


69 foi o sopro final de uma geração inconformada pelo apelo armamentista do Tio Sam e de saco cheio dos costumes que seus pais tentavam passar a todo custo. A grande euforia e a utopia que mantinha viva a revolução estava quase terminando, pois os estudantes de Paris tinham acabado com suas barricadas e voltado às salas de aula. Woodstock reafirmou uma coisa: o desprezo por tudo o que representava e defendia Richard Nixon, figura que estimulava uma guerra contra o comunismo.


Nada representou de forma tão sublime essa rejeição aos delírios do então presidente norte-americano como o uivo estridente da guitarra de Jimi Hendrix clamando o hino nacional dos Estados Unidos entrecortado pelo som das bombas. Ali, Hendrix passou a ser o detentor do posto de melhor guitarrista de todos os tempos. Richard Nixon, o reacionário líder dos EUA, estava começando a ficar desgastado no cargo mais importante do planeta, e tinha a maioria dos jovens como inimigos número 1.


Com o objetivo de expandir a mente humana, as drogas não surtiram o efeito desejado. E isso foi narrado por Hunter Thompson, em “Medo e Delírio”: “Não... não havia esperança nenhuma de comunicação por ali. Acabei admitindo isso – mas não a tempo de impedir que o doutor das drogas me cantarolasse até o acesso da sua casa e para dentro do meu carro e para a rua morro abaixo. Esqueça o LSD, pensei. Olha só o que ele fez com esse pobre infeliz”, escreveu o jornalista, na obra.


Woodstock foi o começo do fim da contracultura.




Os seis shows essenciais para conhecer a vibe de Woodstock



Jefferson Airplane


A vocalista Grace Slick entrou para o rol das principais apresentações do festival com a lisergia que a consagrou nos espaços contraculturais de São Francisco. Até hoje a imagem da banda tocando os clássicos “White Rabbit”, “Somebody to Love” e “Volunteers” faz parte dos principais momentos de Woodstock.





Janis Joplin


A voz visceral da cantora em qualquer palco é algo que pode ser facilmente encontrado no youtube. E não poderia ser diferente com o show dela em Woodstock. Essa apresentação, provavelmente, será lembrado por séculos. Está eternizada.






Joe Cocker


Um dos maiores intérpretes do rock inglês, Joe Cocker eternizou a releitura da música “With a Little Help From My Friend”, dos Beatles, durante a apresentação em Woodstock. Certamente é um daqueles momentos que merecem ser reverenciados.




Jimi Hendrix


Hendrix tocou numa segunda-feira de manhã para uma plateia de 25 ou 30 mil pessoas, e com a cabeça cheia de ‘ácido’. O solo de guitarra do hino nacional dos Estados Unidos, entrecortado por bombas, se tornou um símbolo contra a Guerra do Vietnã.







The Who

Talvez a banda menos simpática do festival e com o som mais pesado, os ingleses tocaram a épica “My Generation”, música que tem como mensagem o espírito de rebeldia da geração da década de 1960. Pete Townshend, guitarrista inglês, profetizava há 50 anos: “Estamos ficando velhos”.





Santana


Louco de LSD, o guitarrista Carlos Santana fez um som celestial no Woodstock. Em entrevista ao The New York Times, o músico disse que - ao subir no palco - ele se imaginava num “santuário”. A música com levada latina do mexicano reverbera até hojes pelos tímpanos daquela geração que queria mudar o mundo.