• Marcus Vinícius Beck

Os bares fecham num carnaval

Botequim Literário


Em um samba, Ataulfo Alves cantou "a maldade dessa gente é uma arte" - Foto: Reprodução/ Senado



A proprietária do bar perguntou quantas cervejas eu ia querer, indagou qual seria a forma de pagamento e caminhou em direção ao freezer. Com certo receio por causa do decreto da Lei Seca, dissera ao meu amigo sociólogo algo como “imagina se chega aqui a fiscalização”. “Melhor nem pensar nisso”, sugeriu ele. O relógio marcava 23h22, e vender ou consumir bebidas alcoólicas em espaços públicos já era passível a multa.


Estávamos saracoteando de um lado para o outro e discutindo o conceito de mais-valia relativa desenvolvido por Karl Marx, ou seja, um assunto para lá de trivial – pelo menos se você olhar a situação a qual nos submetemos após o expediente.


Menos de uma hora antes, eu tinha arrematado a última página da jornada laboral gutemberguiana dobrada. Meu amigo, bem, ele também acabara seu serviço.


Então beber uma cervejinha não era nada doutro mundo: afinal, é uma convenção mundial, com reconhecimento prévio dos bebuns de plantão, flanar pela noite jogando conversa fora e sorvendo um conhaquinho, um uisquinho e pitando um cigarrinho. Se for quarta, sexta, sábado ou véspera de carnaval, vixe, a licença para lubrificar o verbo é aceita sem maiores delongas entre os praticantes do regresso à boemia.


No ano da (des) graça de 2021, em meia à pandemia de coronavírus, isso é impraticável. Em Goiás, donde escrevo, o número de infectados pela Covid-19 chega a mais de 370 mil, com 7,9 mil mortes e os leitos de UTIs, lotados. Sem termos o que fazer a não ser respeitar o isolamento social, fica óbvio que nossos prazeres hoje representam risco à vida - a nossa e a do próximo.


A filosofia malandra de Noel Rosa vai ter que esperar a morte da moléstia e suas mutações genéticas: sim, as pastorinhas para desconsolo coletivo não vão mais cantar na rua lindos versos de amor. Teremos de aceitar que é devagar, devagar, devagarinho a imunização de milhares de brasileiros: quem disse que é uma tarefa fácil esperar celeridade da trupe fardada?


A maldade dessa gente, já cantou o mestre Ataulfo Alves, é uma arte.


Foi muito simples se resguardar para o próximo carnaval: bastou ficarmos em casa, curtindo o samba do ex-amor e recordando dos retalhos de cetim que esperamos o ano inteiro. Se acompanhado de uma cachacinha ou um chopinho, aí é que a tristeza da solidão carnavalesca foi atenuada mesmo. Só não dá pra fazer como este cronista que vos enche o saco e queimar a largada já no sábado, para tudo melhorar na Quarta-Feira de Cinzas.


Mas transformar qual chama em cinza se a festa na qual tudo é possível não aconteceu?


Esses dias cinzentos, de moléstia, morte e arremedos autoritários, remetem a outros tempos ansiosos. Como não sussurrar, na companhia daquele samba de Carlinhos Lyra e Vinícius de Moraes, que “acabou o nosso carnaval/ ninguém canta canções/ ninguém passa mais brincando feliz”? Se a gente for ver bem, há muito tempo isso não rola: talvez desde que as máscaras - antes um adereço usado para que ninguém soubesse com quem estava falando ou beijando - passaram a ser usadas para conter o vírus, isto é, se tornaram adereços obrigatório em nosso vestuário.


Escrevo esta crônica na quinta-feira pós-carnaval, com esforço venci a peste da ressaca... Todavia, o que não me sai da cabeça é o roubo que é uma cerveja comprada na clandestinidade de botecos que desafiam o decreto estadual: num deles, pra você ter uma ideia, desembolsei R$ 5 em uma lata de Brahma duplo malte. O bom mesmo é pedir delivery e ficar em casa.


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