• Júlia Aguiar

Pátria distópica Brazyl

Entrevista

JM conversou com os diretores Lívia Costa e Sunny Maia do curta-metragem “Pátria”, disponível na 24º Mostra de Cinema de Tiradentes

“Pátria” está disponível até às 00h de sábado (30) na Mostra Formação da 24º Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Divulgação


Honrada seja a pátria banhada entre as mãos ensanguentadas da hegemonia do poder, amai aos homens cisgêneros brancos e heteros da casa grande. Honrai a todos, um por um apagado da história repetidamente contada por essa narrativa mesquinha. Não se esqueça dos piores, todos tem o direito à guilhotina da História.


“Pátria” é um grito. Um escarro do ódio que banha as vísceras dos que ainda lembram de sua humanidade. “Pátria” é resistência pelo simples fato de existir.


Um questionamento muito presente durante toda a temporada de cobertura do #JMemTiradentes é justamente como recontar nossa história. Durante a mostra percebemos que muitos filmes se propunham a mudar a narrativa da distopia em que vive o Brasil, não teria como ser diferente: após um ano repleto de censuras, absurdos econômicos, 200 mil mortos e várias florestas desmatadas, ainda resistimos.


Queride leitor, perceba que não importa muito qual linguagem ou ferramenta linguística escolhemos para gritar, existimos em ato de resistência. O filme “Pátria” é um suspiro de encontro com nós mesmos, um reflexo quase que doce de uma opressão tão antiga, desmascarada em estética e semiótica.


O curta-metragem está disponível até à meia noite do sábado (30), e pode ser visto de forma gratuita e online no site da 24º Mostra de Cinema de Tiradentes. O JM conversou com os diretores Lívia Costa e Sunny Maia na tarde de hoje (30), confira a entrevista completa abaixo:


Jornal Metamorfose: Muito se comentou nos bastidores que não aparece a ex-presidenta Dilma Rousseff no filme. Existe algum motivo?


Sunny Maia: “Pátria” é um filme que quer discutir uma norma que existe há muitos anos, a gente não achou justo colocar Nilo Peçanha (único presidente negro) e nem Dilma Rousseff (única mulher presidenta), esses dois corpos fugiam da norma.


Lívia Costa: É importante lembrar que Dilma não conseguiu terminar seu mandato por conta de toda pressão patriarcal em cima dela, que acabou culminando até no impeachment.


Jornal Metamorfose: É interessante essa escolha de narrativa porque justamente o filme se propõe a recontar os passos do Brasil dos golpes. Como foi esse processo para vocês?


Sunny Maia: Quando a gente começou a fazer “Pátria” era um período pré-eleitoral, durante a copa do mundo, mas existia uma noção do que o Brasil estava passando. Ao mesmo tempo que eu não queria acreditar que era possível Bolsonaro vencer as eleições, eu fiquei presa em pensar que era impossível.


Quando a gente foi montar o filme já em 2019, a gente já tinha visto vários movimentos políticos estranhos. Foi ali que percebemos que essa é uma história que se repete através de estruturas que a gente pensa que estão cansadas, mas foi usando das ferramentas da “democracia” que o fascismo ascendeu. Essa narrativa está o tempo inteiro tentando impedir qualquer subjetividade que não seja a do homem branco cisgênero hetero de existir.


Lívia Costa:A gente estava com esse desgosto que é constante dentro desse desgoverno, e acabou que muito dessa angustia entrou no filme. Porém mais do que falar do recente, a gente entendeu montando o filme que essa situação não era de agora, não é nova. A partir daí discutir o presente agora não me interesse tanto e o filme quer discutir o problema. Por isso também optamos por essa estética de VHS, que remete essa coisa passada.


Temos que lembrar que o início do babado é a própria República, a gente recorre essas várias figuras que se repetem.


Jornal Metamorfose: Falando sobre a escolha estética de vocês, eu fiquei pensando muito em como foi construída essa interação entre as imagens e toda esse trabalho de colagem semiótico colado por cima. Como foi esse processo?


Lívia Costa: Foi uma das últimas coisas que fizemos pra fechar mesmo a narrativa do filme, acabamos escolhendo o percurso estético que a gente ia seguir porque o primeiro passo foi o discurso e a montagem, a estética veio como uma forma de falar sobre essa narrativa.


Sunny Maia: O processo de “Pátria” passou pela narrativa do filme, a gente está discutindo sobre a norma, sem reforçar as estruturas de poder. Ficamos pensando nisso por muito tempo, a forma como estamos contando essa narrativa está reiterando essa merda?


Jornal Metamorfose: Algo que também chamou muito a atenção foi a trilha sonora do filme. Eu ouvi pessoas dizendo que ela era caótica, mas na minha opinião ela carrega um toque esplendido de deboche, com pitadas ácidas de barulho e ao mesmo tempo que carrega sons muito autênticos e alegres.


Lívia Costa: Bem, eu sou da Paraíba né e sempre que estou trabalhando com Sunny e morando no Ceará, eu quero que minha terra invada meu trabalho de alguma maneira. E tudo isso tem uma proposta sonora e artística, de um nordeste futurístico, de trazer tantas coisas e desmitificar esse som invadindo as imagens com um certo deboche que remetia de onde eu vim. A Luana Flores foi incrível, porque metade do filme é a trilha sonora, e ela fala muito que “Pátria” é um filme transgênero, exatamente por permear vários vários tipos de narrativa, não só estética e conceitual. Um deles é o musical, tem muitas horas em que a música fala muito no filme.


Sunny Maia: Eu sinto que o filme era uma bad e a gente queria que a trilha trouxesse algo além disso, a trilha pode dizer outra coisa. E quando Luana traz esse deboche sonoro eu sinto que o filme também consegue desestruturar as próprias cenas. Luana fez diversas coisas que quando a gente recebeu o filme eu só disse “obrigada por tudo!”.


Lívia Costa: Concordo, essa trilha entra como tirar o poder dessas figuras também, e pra mim e pra Sunny foi tudo!!


Jornal Metamorfose: Uma coisa que você disse que é muito interessante é exatamente sobre o poder de transcomunicar algo. No sentido de transfigurar as ferramentas de comunicação e aplicar essas novas formas de narrativa também no cinema, como é essa vivência para vocês?


Sunny Maia: Nós como pessoas transmasculines a gente percebe o lugar de masculinidade de outro lugar e queríamos falar desse masculino hegemônico. “Pátria” aconteceu quando eu e Lívia estávamos percebendo essa questão de gênero na gente também. A gente queria pensar qual é o símbolo que poderíamos por no filme e que fosse nosso, e eu não sei qual é a história constituída da não-binaridade, a gente não sabia que símbolo ia por.

Nessa masculinidade a gente percebeu essa distinção ao nosso redor e a gente não quer reproduzir essa masculinidade hegemônica. Até que chegamos a um consenso, já que o filme é um discurso, colocamos uma boca pra fazer corpo com esse discurso. Acho que tem a ver com essa questão de não-binariedade e nosso lugar, pra dar gênero ao filme.


Lívia Costa: Acho que a última cena que a gente fez foi a boca e estávamos com esse turbilhão de pensamentos, mas queríamos mostrar também o nosso lado, nossas simbologias também. Era uma forma de negação da masculinidade hegemônica.



Assista o filme na 24º Mostra de Cinema de Tiradentes nesse link: https://mostratiradentes.com.br/filme/patria/

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