• Marcus Vinícius Beck

Pérolas jornalísticas

Sede de arte

‘Artigos e Textos Jornalísticos’ reúne ensaios da escritora Zelda Fitzgerald, uma das personagens mais enigmáticas dos anos 1920 – e símbolo incontornável da chamada era do jazz



O retrato da escritora Zelda Fitzgerald foi publicado na revista 'Metropolitan Magazine’, no artigo ‘Eulogy Of a Flapper’, em 1922



Zelda Fitzgerald dispensava o uso de espartilho, usava saia na altura do joelho, ouvia jazz, bebia em público e desprezava quem lhe criticava por causa de seu comportamento visto pelo Tio Sam como ‘inaceitável’. Ensaísta e romancista do primeiro time da literatura americana, a ícone dos anos 1920 foi designada pelo patriarcado a se contentar com o status de esposa do romancista Scott Fitzgerald, ao mesmo tempo em que era musa e tinha ideias e textos roubados por ele.


Em sua vida, a escritora publicou apenas um livro, o romance autobiográfico “Esta Valsa é Minha” (1932). Mas, entre os anos 1917 e 1948, ela escreveu textos jornalísticos, contos e ensaios que, ao longo do tempo, perderam-se nas páginas de jornais nos quais foram veiculados. Como eram também assinados pelo seu marido famoso, o nome de Zelda acabou sendo apagado e só reapareceu anos depois, quando o próprio Fitzgerald passou a atribuir nos cadernos de registro os créditos dos escritos dele a Zelda.


Parte dessa produção jornalística, agora, começa a chegar ao público brasileiro pela editora Ponto Edita. É a primeira vez que o nome de Zelda é colocado num lugar que é seu de direito, e não mais como a esposa do autor de “O Grande Gatsby”. “Que esta seja uma oportunidade para não mais reproduzirmos os discursos que nos cercam, mas sim para encontrarmos um novo”, afirma e escritora Marcela Lanius, no prefácio de “Artigos e Textos Jornalísticos”, destacando que os escritos traçam um panorama da cultura americana.


Os textos registram, entre outras coisas, o amadurecimento literário de Zelda e mostram que ela estava atenta às transformações sociais de seu tempo, além de como o que vivia e sentia se refletia em seu próprio corpo, sua própria vida, nas vidas daqueles que estavam ao seu redor e que ela amava. Muito distinto, portanto, do perfil de Ernest Hemingway no livro de memória “Paris É Uma Festa” (1964), no qual o escritor fanfarrão sugere que a responsável pela falta de inspiração de Fitzgerald era a esposa.


Um dos momentos mais hilários de “Artigos e Textos Jornalísticos” reside na desbocada resenha “O Livro Mais Recente de Meu Marido”, onde Zelda analisa o romance “Os Belos e Malditos” (1922), de Fitzgerald. Sempre ácida e sarcástica, ao longo do texto ela ri do fato de as páginas ‘desaparecidas’ de seu diário aparecerem na obra do esposo. Não, Hemingway, ela não era culpada pelo bloqueio criativo do bebum amante de gin – porém brilhante – chamado Scott Fitzgerald.


Sem contar, claro, nas relíquias da literatura em língua inglesa com a qual a obra nos presenteia. No conto “Iceberg”, por exemplo, Zelda retrata e desafia, com fina ironia e prosa fluente, os papéis que as sociedades conservadoras condicionavam às mulheres naquele início do século 20. O texto, publicado num jornal literário quando a escritora tinha 17 anos, permaneceu inédito até 2017 e agora é que a primeira vez que vem à tona em livro.


A sátira ganha espaço em “Artigos e Textos Jornalísticos” na antologia “Elogio da Melindrosa”, cujo estilo satírico torna-se uma comédia atenta em “Todo Homem Casado Tem um Momento de Revolta”. Se o tom retórico carregado à ironia e ao sarcasmo é o que guia “Textos Jornalísticos”, a leveza censuradora de “Tinta e Pó” e “Que Fim Terá Levado a Melindrosa?”, aliada à nostalgia de “Acompanhe o Sr. e a Sra. F Ao Quarto” e “Leilão – Modelo 1934”, mostra por que Zelda era versátil com as palavras.


Vale dizer que tudo isso se desmancha numa idiossincrasia colorida em “Sobre F. Scott Fitzgerald”. Zelda, de fato, refinava sua prosa com pitadas de autoficção, e designá-la à sombra de um romancista famoso exemplifica nada além do que o machismo de uma época que ainda hoje insiste em dar as caras, num remake nada original dos anos 1920.


Era do jazz


Nascida em 1900 na cidade de Montgomery, em Alabama, Estados Unidos, Zelda Fitzgerald figura não é à toa como um dos maiores símbolos da Era do Jazz junto com o escritor e seu marido, Scott Fitzgerald. Aos 27 anos, ela voltou a estudar dança e chegara a ser convidada a participar da companhia de balé do Teatro San Carlos, em Nápoles, porém o marido lhe convenceu a recusar o convite. Nos anos 1930, começou a lutar contra o sofrimento mental que a acompanharia até o final da vida, em 1948.


Lançado em 1932, o romance “Esta Valsa é Minha” foi escrito enquanto Zelda estava numa clínica psiquiátrica em Baltimore. Seu legado, esquecido até a década de 1970, passou por uma revisão quando a pesquisadora Nancy Milford, à época estudante de pós-graduação na Universidade de Columbia, publicou “Zelda: A Biography”, até então o primeiro trabalho de grande envergadura sobre a escritora. A partir daí, renovou-se os interessantes sobre a obra de Zelda.


A ensaísta Marcela Lanius é uma das interessadas. Doutora em Estudos de Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a PUC-Rio, Lanius se tornou uma das principais pesquisadoras sobre a obra de Zelda no Brasil. Além de texto assinado pela acadêmica, o livro “Artigos e Textos Jornalísticos” conta ainda com crônicas visuais da jornalista e desenhista Bruna Maia. Já a escritora Clara Averbuck, expoente da autoficção no Brasil, escreve um belo ensaio-poético sobre a obra de Zelda Fitzgerald.


Na noite de 10 de março do ano de 1948, após um incêndio na cozinha do hospital em Asheville, Carolina do Norte, a escritora, aos 48 anos, faleceu no momento em que aguardava uma sessão de terapia com eletrochoque. O fogo se alastrou pelo elevador de comida e se espalhou para os andares. Ao todo, nove mulheres morreram.


Definitivamente, “Artigos e Textos Jornalísticos”, cujos escritos estão dispostos em ordem cronológica, é seguramente um dos registros mais importantes sobre uma escritora brilhante. O ensaismo de Zelda precisa ser preservado. O jornalismo e a literatura agradecem, obrigado.


‘Artigos e Textos Jornalísticos’

Autora: Zelda Fitzgerald

Gêneros: Ensaio e conto

Editora: Ponto Edita

Páginas: 160

Preço: R$ 159,90

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