‘Papicha’ é duro, porém belo e necessário

November 9, 2019

Cinema/ Crítica

 

Em meio à um cenário de Guerra Civil na Argélia, mulheres enfrentam dogmas religiosos e resistem ao conservadorismo

 

Em diversos países do mundo, o homem ainda usa a religião para oprimir e agredir tudo aquilo que foge de seu controle, como jogos, vícios, vida mundana, música, filmes, teatro, literatura, entre outros prazeres. E esse é o tema do longa-metragem “Papicha”, lançado no ano passado pela diretora argelina Mounia Meddour. Trata-se de uma bela obra que dá um tapa em nossa cara em tempos onde fundamentalistas religiosos estão no poder. 

 

Bem, para que você compreenda as palavras ditas até aqui, é necessário falar um pouco sobre o contexto histórico em que o longa está inserido. Então, vamos lá: estamos na Argélia na década de 1990. E a sociedade do país do norte da África enfrenta problemas com a Guerra Civil (1991-2002), tendo ataques de grupos terroristas e imposição de costumes arcaicos, reacionários, que cerceiam as liberdades das mulheres. 

 

Neste contexto, Nedjma (Lyna Khoudri), estudante e estilista que usa a moda com propósito político, gosta de curtir baladas com sua amiga Wassila (Shirine Boutella). Além disso, ela cria e vende os vestidos que desenha, e não pensa duas vezes antes de desafiar qualquer tipo de autoridade que encontra pela frente. E isso por si só é um ato revolucionário e de coragem. Afinal, os fundamentalistas da Argélia, digamos assim, não são pessoas compreensíveis. 

 

As duas amigas estão na faixa dos 18 anos, na flor da idade, mas sabem que se não lutarem e resistirem à imposição de um comportamento pautado pela religiosidade, terão suas liberdades - de algum modo - cada vez mais suprimidas. Seria um grande pesadelo para quem possui o sonho de ver uma sociedade argelina onde a mulher não seja serva do homem, nem nada do tipo. 

 

Só que veja bem: elas são querem sair do país natal, como a maioria dos jovens que estão na mesma faixa etária delas. Adoram a Argélia e não medem esforços para deixar esse amor todo bem claro, além de curtirem momentos de prazer e diversão. Amam cantar e uma das cenas mais chocantes do filme é quando elas estavam felizes, cantando uma música num clima agradável, e são interpeladas por fundamentalistas islâmicas. 

 

Cenas bem fortes surgem com frequência, tal como aquela em que Nedjma joga bola com as amigas em meio a chuva. “Papicha” é belo, poético e duro, mas, no final das contas, nos dá um otimismo em relação à transformação da sociedade patriarcal - e, com todo respeito, peço a devida licença às camaradas, uma vez que não tenho o devido lugar de fala para tal argumento. Nedjma simboliza a esperança sob uma atmosfera de total terror. 

 

“Papicha” é um daqueles filmes que nos deixam putos com o preconceito que ainda insiste em se alastrar em nossa sociedade. E durante a sessão, é impossível não traçar nenhum paralelo com a realidade que assola nosso País. É um longa forte, algumas vezes duro - sobretudo se o espectador for homem -, mas é necessário vê-lo. 

 

Ficha técnica

 

‘Papicha’

 

Onde: Cinema Lumière, no Banana Shopping

 

Classificação: 16 anos

 

Horário: às 17h e às 19h

 

Elenco: Lyna Khoudri, Shirine Boutella, Amira Hilda Douaouda

 

Produção: França, Argélia, Bélgica e Catar

 

Direção: Mounia Meddour

 

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