• Marcus Vinícius Beck

Paraíso dos cinéfilos

Atualizado: Jan 5

Cinema

Streaming programa mostra em homenagem aos filmes e movimentos que ajudaram a consolidar a linguagem cinematográfica

Telecine anuncia Festival 125 anos de Cinema com mostras comemorativas. Foto: Divulgação


O cinema, assim como a música e o sexo, não admite passado nem futuro: é uma experiência que ocorre no presente, e por isso ele mexe com nossos prazeres sensoriais. O cinema, em oposição ao amor e à literatura, não permite passado: é aqui e agora, e por isso assistimos ao mesmo filme uma, duas, três, quatro... dez vezes...


Há 125 anos os irmãos Louis e Auguste Lumière promoviam a primeira exibição pública de um filme nos fundos de um café parisiense. A experiência cinematográfica durou pouco menos que 60 segundos, mas foi o suficiente para marcar o início do cinema, cujo aniversário – comemorado no último dia 28 de dezembro – suscitou uma iniciativa interessante do Telecine Cult e Play: 32 mostras e 382 filmes de diferentes períodos da história da principal forma de arte do século 20.


Estamos falando de um paraíso cinéfilo: ali têm coisas que dificilmente acharíamos noutro lugar que não no streaming - ainda mais com as salas fechadas.


O Festival 125 anos de Cinema reúne produções marcantes do Expressionismo Alemão, Era de Ouro de Hollywood, Neorrealismo Italiano e Cinema Novo Brasileiro. Fora a retomada da produção nacional após asfixia econômica do governo Fernando Collor, simbolizada em “Central do Brasil” (1999) e “Cidade de Deus” (2003).


Na tela, até junho de 2021, os mestres Chaplin, Bergman, Hitchcock, Fellini, Kubrick, Truffaut, Godard, Glauber, Rossellini e Almodóvar proporcionam uma imersão à história do século 20. Acompanhamos a evolução da linguagem cinematográfica e suas transformações desde a consagração do cinema mudo, anos 1930, até o falado, com obras que retrataram os horrores da Segunda Guerra, como “Cidade Aberta” (1944), longa-metragem dirigido por Roberto Rossellini que escancarou ao mundo a máquina mortífera do nazismo após o conflito mundial.


Até o lado melodioso de Truffaut, típico de quem nascera para filmar o amor, essa coisa que incomoda os tiranos, marca presença no festival com as fitas “Jules Et Jim” (1962), “Os Pivetes” (1957), “Beijos Proibidos” (1968) e “Os Incompreendidos” (1959). Mas seria um fracasso organizar uma mostra sobre a Nouvelle Vague e simplesmente esquecer as dissonâncias politizadas de Godard, e para nossa sorte, dele temos à disposição “A Chinesa” (1968) e “Uma Mulher É Uma Mulher” (1961).


E as mulheres, cadê? Bom, o festival será aberto com a mostra “Pioneiras do Cinema”, que terá produções assinadas por nomes como Alice Guy-Blaché, primeira cineasta da história que, vale ressaltar, estava presente na exibição dos irmãos Lumirère, em 1895. Além disso, poderemos curtir a filmografia de Lois Weber, diretora norte-americana que chocou no início do século passado ao abordar temas transgressores, como prostituição, aborto, cenas de nudez e métodos contraceptivos. Também há filmes da francesa Agnès Varda, expoente ainda hoje pouco conhecida da Nouvelle Vague.


Para desmistificar o equivoco de que o cinema se tornou o que é por causa dos homens, destaco ainda as produções “A Órfã do Oceano” (1916) e “O Cair das Folhas” (1912) de Alice Guy-Blac, “Suspense” (1913) de Lois Weber, e “Mulheres De Ryazan” (1927), da diretora Olga Preobrazhenskaya. Em seu primórdio, o audiovisual contava com a ideias de cineastas que, acredite ou não, foram tiradas da bibliografia hegemônica.


Da montagem soviética, o festival tem em sua programação as películas “Outubro”(1928), de Seguei Eisenstein, filme mudo – documento histórico, eu acrescentaria – que aborda o contexto revolucionário de 1917. Eisenstein, de fato, é um dos responsáveis pela consolidação do cinema enquanto meio de expressão artístico: os russos inventaram o construtivismo e a montagem dialética de imagens. Impossível pensar em narrativa audiovisual sem esses recursos pois é o que torna a arte cinematográfica tão fascinante e apaixonante.


Daí à batota dos surrealistas foi questão de um pulinho, e se eles alavancaram uma revolução nas artes com Dalí, Buñuel e Artuad, também criaram filmes brilhantemente transgressores. No entanto, a cabeça inventiva desse movimento de vanguarda, na sétima arte, era Luis Buñuel: vamos assistir dele “A Morte no Jardim” (1956), “Via Láctea” (1969), “O Fantama da Liberdade” (1974) e “Tristana, Uma Paixão Mórbida” (1970).


De Georges Méliès, com seu “De Viagem à Lua” (1902), até o cinema contemporâneo: quem vai topar embarcar nesse tour?


Festival 125 anos de Cinema


A partir de quando: domingo (6) até junho de 2021

Onde: Telecine Cult e Telecine Play

Assinar o streaming custa R$ 40


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