• Lee Aguiar

Para as sombras que me habitam

Doce Viagem

Estudo de luz em estúdio, com a fotógrafa Raffa Di Mello como modela. São Paulo, 2019 – Foto: J.Lee/Arquivo


Às vezes me questiono se o que as pessoas enxergam de mim é realmente coerente com aquilo que sou. Chego a conclusões pífias, não posso controlar aquilo que pensam sobre meu espelho, assim como não controlo as ilusões criadas sob meus milhares de personagens.


Uma vez me disseram que um dia irei unificar os “personagens” em mim mesma, e que só não o faço por medo de realmente mostrar quem sou para o mundo. Para ser sincera, não sei quão verdadeiro é essa reflexão sobre mim mesma.


Porém, confesso: tenho medo.


Não minto, nem omito. Tenho medo de abrir as feridas a cada nova aventura com qual faço corpo, tenho medo das vísceras se revirarem ao ponto de não sobrar mais nada a ser feito para salvar os pedaços de carne retorcidos. Tenho medo de ser uma pessoa surtada demais para ser um dia compreendida, e sei também que na realidade exagero tudo o que me habita.


Sou performática até com meus sentimentos.


No silêncio dos momentos tento escutar o vazio que ecoa por meus neurônios. Tento me entender. Tento me unificar. Tento me ressignificar. Tento.


Para as sombras que me habitam: eu não tenho medo da imensidão. Não tenho medo de voar e muito menos me entregar ao agora. Não temo a realidade.


Meu pavor está no cárcere interno, no implodir cotidiano de emoções não resolvidas. Tenho medo de não ser livre em mim.


Aos poetas que me habitam, yo no soy musa de ninguém. Não permito minha captura por aí, nem me sinto lisonjeada com fragmentos roubados. Não quero ser confundida com aquilo que criam sobre mim, não quero me afastar do que realmente sou.


Com permissão poética me deixo invadir as entranhas outras de todos os seres que me habitam, sem vergonha da loucura que isso possa soar por aí. Há malucos que amam uma ou outra que já passou por mim, há aqueles que nunca superaram um personagem que já não existe mais. Busco em minha unificação um reflexo que torne real tudo que já fui e ainda serei.

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