• Victor Hidalgo

Parler, o salva-vidas dos fascistas

Atualizado: Mar 17

Internet

A migração de usuários banidos do Twitter para a rede social apoiada por Trump

Aplicativo da extrema-direita Parler possui mais de 15 milhões de usuários. Foto: reprodução


Após a invasão do Capitólio, como é conhecido o Congresso estadunidense, por supremacistas brancos, neo-nazistas e conspiradores da seita Qanon apoiadores do presidente republicano Donald Trump, as redes sociais fizeram um verdadeiro expurgo em contas da extrema-direita, a do nosso presidente foi uma delas. Sem terem para onde ir, os fascistas encontraram um bote salva-vidas para se abrigar: o Parler.


Mas, o que é o Parler?


É uma rede social, criada em 2018, que se auto-intitula como um espaço “voltado para a liberdade de expressão”. A sua base de usuários é majoritariamente composta de apoiadores de Donald Trump, conservadores, teóricos da conspiração e extremistas de direita. O conteúdo dos posts varia entre antissemitismo e teorias da conspiração como a QAnon.


Eles se vendem como uma ferramenta de liberdade de expressão e uma alternativa a outras redes como o Facebook e o Twitter. Porém, relatos de usuários que foram banidos por postarem conteúdo mais orientado à esquerda colocam essa afirmação em dúvida.


“Somos uma praça da cidade, uma praça aberta, sem censura”, disse o fundador do app John Matze à CNBC. “Se você pode falar nas ruas de Nova York, pode falar no Parler”.

Mas parece que esse não é o caso, o jornalista independente Thor Benson relata que criou uma conta paródia chamada The Federalist e foi banido.

Tweet de Thor Benson sobre ser bloqueado no Parler - reprodução

Ao ler os termos de uso do aplicativo, ele se mostra ser tão restritivo quanto qualquer outro. Ele ainda afirma que se reserva ao direito de deletar o conteúdo de qualquer usuário ou perfil completo e em qualquer momento, mesmo que os termos de serviço não tenham sido violados.


Em uma entrevista para o jornal CNSNews em 5 de agosto de 2020, o criador da rede John Matze reconheceu que as diretrizes eram "realmente estranhas" e disse que estavam sendo revisadas por um advogado. Ele também afirmou que a rede Parler nunca proibiria o discurso de ódio, e que a empresa "se recusa a banir pessoas por algo tão arbitrário que não possa ser definido".


Como Matze tem dificuldade em definir o que é discurso de ódio, vamos ajudá-lo com a definição que Daniel Sarmento, doutor em Direito Constitucional, caracterizou por “manifestação de ódio, desprezo ou intolerância contra determinados grupos, motivados por preconceitos''. Em dezembro de 2020, eles tinham 2.3 milhões de usuários ativos. Já em janeiro de 2021 foi anunciado que tinham alcançado um total de 15 milhões de usuários totais.

O presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro (sem partido), no dia 9 de janeiro de 2021, após a conta de Donald Trump ter sido banida do Twitter, fez um convite aberto para seus seguidores se juntarem a ele no app. Os filhos do presidente também estão na plataforma.

Porém, é um bote furado. Depois do ataque terrorista no Capitólio incentivado por Donald Trump, a Amazon removeu a rede de seus servidores e impediu que o app funcionasse. O Google e Apple também seguiram esse caminho, removendo ele de suas lojas de aplicativo.

Mas não por muito tempo. O jornalista inglês James IIes foi o primeiro a noticiar que o Parler agora está hospedado com o Epik. Com sede em Washington, é uma rede conhecida por hospedar conteúdo de extrema-direita, como o também banido do Twitter Alex Jones e seu programa de teorias da conspiração Infowars e a rede social Gab, também de extrema-direita.

Além de hospedar o 8chan, fórum de discurso de ódio relacionado a atentandos terroristas como os ocorridos na Nova Zelândia em 2019, cometidos por um supremacista branco e deixando mais de 49 mortos em Christchurch.

O chefe do Epik é Rob Monster (sim, esse é o nome dele), em 2018 o HuffPost noticiou que Monster (sério, o nome dele é Monstro) defendeu o direito dos neonazistas de se reunirem online. Já Newsweek reportou que: “De acordo com o Southern Poverty Law Center, o CEO da Epik, Rob Monster, juntou-se ao Gab em novembro de 2018 e interagiu com "uma mistura de cabeças racistas, misóginas e anti-semitas".


Durante uma aparição em um podcast nacionalista branco em janeiro de 2019, Monster elogiou o supremacista branco e ex-grande mago da Ku Klux Klan David Duke como "um cara muito inteligente" que é "articulado" e "conhece a história", afirma Danya Hajjaji, jornalista do Newsweek no dia 12 de janeiro de 2021.


Enquanto o app estava no ar, terroristas domésticos já planejavam uma manifestação violenta no dia 20 de janeiro de 2021, quando Joe Biden vai ser empossado como presidente. Os usuários já tinham criado uma nova bandeira de batalha em homenagem à extremista veterana de guerra Ashley Babbitt, morta no dia 6 de janeiro por um policial federal protegendo os senadores dentro do Capitólio.


Semelhanças dela com a bandeira do grupo racista Ku Klux Klan estão sendo apontadas, e segundo Seyward Darby, editora-chefe da The Atavist Magazine e autora de "Irmãs no Ódio: Mulheres Americanas na Linha de Frente do Nacionalismo Branco", em artigo para o The New York Times: “Uma mulher branca morta ou ferida - mesmo a ilusão de uma - sempre foi um símbolo poderoso na extrema direita, um grito de guerra para as pessoas se levantarem e agirem para preservar suas noções distorcidas de honra, liberdade e pureza”. “The Far Right Told Us What It Had Planned. We Didn’t Listen”.

Opinião

Ainda faltam alguns dias para o dia 20 de janeiro, mas esse golpe duro nas redes sociais para a extrema-direita pode ter vindo tarde demais. Os grupos já estão organizados e polarizados por conta de anos de leniência do Facebook, Twitter e Youtube com esses conteúdos.


O ataque terrorista contra o Capitólio já era conhecido, e nada foi feito para impedi-lo. Indiferente de os responsáveis estarem sendo presos e Donald Trump estar enfrentando o seu segundo processo de impeachment, foi um sucesso. A bandeira confederada entrou dentro dos halls da “democracia” americana, feito que nem durante a guerra civil tinha sido realizado.


Indiferente do que acontecer daqui pra frente, a supremacia branca deixou o seu recado. Que Deus tenha misericórdia não só dessa nação, mas do mundo.


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