Paulo Henrique Amorim (1943-2019)

July 12, 2019

Luto

Jornalista entrou para a história ao passar pelas principais redações do País

FOTO: LATUFF/ REPRODUÇÃO CONVERSA AFIADA

 

Ele era um baluarte da imprensa livre e não pensou duas vezes antes de recorrer à Organização dos Estados Americanos (OEA) para defender o direito à liberdade expressão. Era um daqueles jornalistas que temem retrocessos e sempre lutam contra qualquer ameaça autoritária. Fez isso quando achou que o presidente Jair Bolsonaro ameaçava os pilares do Estado Democrático de Direito, com suas posições que reverenciavam generais acusados de diversos crimes na ditadura.

 

Essa trajetória, no entanto, acabou na madrugada de ontem. A morte foi confirmada pela TV Record na manhã desta quarta-feira (10) - Paulo Henrique Amorim trabalhava na emissora desde 2003 e recentemente foi suspenso do programa “Domingo Espetacular”. Segundo a empresa, o jornalista teria saído para jantar com amigos na terça (9) e enfartou quando retornou à sua casa. Ele deixa uma filha e a mulher Geórgia Pinheiro, também jornalista.

 

Com 76 anos, e alguns décadas de jornalismo, PHA fez história no impresso e na televisão. Na TV, tornou famoso os bordões “boa noite, boa sorte” e “olá, tudo bem?”, com os quais ele se despedia do público e o saudava. Dono de carreira prestigiosa em jornais e revistas, iniciou sua trajetória no jornal “A Noite”, em 1961. Foi repórter da Manchete e Realidade (já extinta) e, na década de 1970, faturou o prêmio Esso por uma reportagem para a Veja sobre distribuição de renda.

 

Em 1974, o jornalista foi promovido ao cargo de editor-chefe da revista Exame. Em seguida, passou pela direção do Jornal do Brasil, posto que ocupara entre 1976 e 1984, e na TV Manchete, onde permaneceu no ano de 1984. Trabalhou, de 1985 e 1996, na TV Globo, como repórter, apresentador e correspondente em Nova Iorque (cujo escritório foi ele que abrira). Nesta década, colaborou ainda com a rede norte-americana CNN e com Diário da Manhã, de Goiás.

 

Ao sair da Globo, colecionou passagens pelas TVs Bandeirantes e Cultura. Nos anos 2000, assumiu o comando de um programa no portal de notícias UOL. Estava na Record desde o início da década passada, onde apresentava a revista eletrônica “Domingo Espetacular”. Amorim também mantinha na web o blog de notícias e análise política Conversa Afiada, de conteúdo à esquerda. 

 

P.H.A lançou também diversos livros durante a carreira, com destaque para “Manuel Inútil da Televisão e Outros Bichos Curiosos”  e “O Quarto Poder”. 

 

Repercussão

 

Jornalista trabalhava desde 2003 na Record (FOTO: REPRODUÇÃO)

 

A morte do jornalista Paulo Henrique Amorim repercutiu durante a manhã, tarde e noite de ontem no meio político e jornalístico. Para a presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, a notícia de que Amorim saiu de cena foi um baque. “É uma perda para o jornalismo. Além de atuar na Record, ele também atuava no jornalismo independente com seu site Conversa Afiada e estava fazendo um trabalho interessante porque suscitava o debate e a crítica. Vai fazer falta", diz.

 

Autor da biografia “Carlos Marighella: O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo”, o jornalista Mário Magalhães lamentou a morte de Amorim e destacou, entre outras coisas, que o colega era destemido. “Paulo Henrique Amorim foi, sobretudo, um jornalista corajoso. Na hora em que ele parte, num momento tão dramático para o Brasil e o jornalismo brasileiro, reverencio sua memória com um vídeo dele, de dezembro de 2017, em defesa da liberdade de expressão”, escreve na rede social twitter o escritor.

 

Em vídeo que circula nas redes, o diretor de redação da revista Carta Capital, Mino Carta, disse que o “Brasil perdeu um dos raros jornalistas comprometidos com a verdade factual”. “Era um homem correto, cavalheiro e não tinha medo em expor seus pensamentos. Paulo Henrique Amorim era corajoso. Talvez eu fale mais sobre isso, mas agora é o que posso dizer”, diz o jornalista, que era amigo de PHA há mais de quatro décadas. 

 

A ex-presidente Dilma Rousseff também falou sobre a morte do jornalista. Em mensagem na rede social, ela destacou o papel crítico que Amorim cumpria no jornalismo brasileiro. “Ele deixa a marca de uma atuação digna na denúncia dos retrocessos que o País enfrenta e na defesa da democracia e do Estado de Direito”, diz a petista.  

 

Análise

 

Amorim foi correspondente em Nova Iorque da Globo e de Veja (FOTO: REPRODUÇÃO/ TV GLOBO)

 

Jornalista lutava pela liberdade acima de tudo

 

Paulo Henrique Amorim, 76, era um alento em tempos onde a liberdade de expressão vem sendo colocada em cheque, mas acima de tudo era um sujeito que ficava indignado com a falta de justiça, igualdade e bom-senso. Ouvi-lo e lê-lo era como ter um suspiro de inteligência num rebanho de incultos que vociferam frases feitas.

 

Crítico da chamada grande mídia, suas opiniões vão reverberar muito ainda num País que está aprendendo o que é democracia. Com propriedade de quem passou por praticamente todos os veículos de comunicação do Brasil, ele sabia  que, muitas vezes, o que manda num jornal é o interesse econômico, e não o valor-notícia.

 

Por isso, talvez, Amorim tenha resolvido enveredar pelos caminhos do jornalismo independente, e a escolha – é claro – não poderia deixar de ser acertada: P.H.A era um lampejo de lucidez intelectual em tempos de obscurantismo. 

 

Seu Conversa Afiada, ao contrário do que propagam vozes mais à direita no espectro político, era extremamente elegante: os textos tinham um quê de ironia fina, fazendo o “navegante” gargalhar de tristeza pela forma como se dão as coisas no meio político.

 

É difícil imaginar que alguém com currículo tão pesado não tivesse nada para dizer aos focas (palavra usada para designar jovens jornalistas que estão dando os primeiros passos na profissão). Sim, Amorim era uma enciclopédia, e não para menos: ele colecionou passagens por revistas, jornais, televisões e site.

 

Paulo Henrique Amorim sai de cena, mas deixa grandes lições para o jornalismo. Nos últimos dias teve de conviver com a decisão da Record de tirá-lo do “Domingo Espetacular”. Fazer o quê, né? A vida tem dessas coisas mesmo. Boa noite, boa sorte, Paulo! 

 

 

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