“Todo processo político tem seus erros e acertos”, diz Pedro Juan Gutiérrez

November 20, 2019

Entrevista

Ao Jornal Metamorfose, escritor cubano fala – entre outras coisas – sobre ascensão da extrema-direita no mundo

 Pedro Juan Guitiérrez, foto: Reprodução

 

Não há dúvida que o escritor Pedro Juan Gutiérrez, 69, é um dos maiores nomes da literatura latino-americana. O cubano ganhou notoriedade internacional em 1998 ao lançar o romance “A Trilogia Suja de Havana”, uma narrativa que reflete as mudanças sociais que transformaram a ilha de Fidel Castro. Ao Jornal Metamorfose, Gutierrez fala com exclusividade sobre Jair Bolsonaro, suas influências literárias, novos trabalhos e como é a vida hoje no país que alimentou a utopia socialista no século 20. “É preciso fazer um balanço de forma equilibrada e justa. E a história fará o julgamento”, diz. 

 

Confira a entrevista na íntegra:

 

Jornal Metamorfose: Pedro Juan, em junho deste ano, o senhor expôs pela primeira vez suas pinturas no Brasil. Como foi saber que seu trabalho e do artista plástico Gerson Fogaça foram censurados? 

 

Gutiérrez: Realmente me surpreendeu porque a censura foi por conta de duas obras minhas em que há mulheres com os seios de fora. Também teve um quadro de Gerson onde tem uma foto que eu apareço com uma mulata em uma discoteca de São Paulo. É um absurdo censurar isso em um país como o Brasil, onde as pessoas, tal como em Cuba, vivem sua sexualidade de maneira alegre e desinibida. Uma estupidez! No final, porém, conseguimos levar a exposição para um museu, o dos Correios, em Brasília. Então, tudo bem.

 

Jornal Metamorfose: Como vão as coisas em Cuba? 

 

Gutiérrez: Bom, posso lhe dizer que em Cuba tudo muda com bastante velocidade. No aspecto econômico, eu digo. Trump prejudicou muito a economia do País, mas surgem alternativas e, no final das contas, são os norte-americanos que estão perdendo de fazer negócio conosco. A arrogância do mandatário do Tio Sam está sendo devolvida como um bumerangue. 


Jornal Metamorfose: Você trabalhou durante anos como jornalista antes de se dedicar à literatura. Como foi exercer esse ofício quando Fidel Castro estava no poder?

 

Gutiérrez: Não foi fácil porque haviam muitos temas considerados tabus e a gente não podia escrever sobre eles. Chegou um momento em que eu estava cansado dessa censura e comecei a escrever alguns contos meio loucos e desenfreados, que depois viraram o romance “Trilogia Suja de Havana”. E com essa energia segui escrevendo um livro atrás do outro. Já são mais de 20 títulos entre novelas, contos e poesias. “A Trilogia” foi publicada em pelo menos 23 idiomas e ainda hoje segue sendo vendida. 

 

Jornal Metamorfose: Como é Cuba hoje?

 

Gutiérrez: É fácil ver como é Cuba. Você apenas tem que ir passar alguns dias em Havana e verá que se trata de uma sociedade muito complexa, contraditória, mutável e dinâmica, com uma energia extraordinária e um desejo de mudança para melhor. 

 

 

Jornal Metamorfose: 2013 para cá a extrema-direita se consolidou no cenário político brasileiro. Antes de vir ao Brasil em meados desde ano sabia que o nosso presidente era um representante desse grupo político?

 

Gutiérrez: Creio que esses governos de extrema-direita com suas medidas neoliberais só trazem mais dificuldade, mais pobreza e mais miséria para as classes sociais menos favorecidas. É isso o que Bolsonaro faz: tira dinheiro da cultura, da educação, do esporte, da ciência, e, com isso, facilita a vida dos milionários, enquanto eles destroem a selva amazônica. São obcecados por grana e são todos tecnocratas. Deixam de lado o humanismo e a solidariedade. Uma pena. 

 

Jornal Metamorfose: O senhor é considerado um dos maiores nomes da literatura latino-americana. Segue escrevendo? Como está tua carreira? 

 

Gutiérrez: Sigo escrevendo, sim. Em junho apresentei meu último romance sobre Anagrama, que se intitula “Estoico e Frugal”, e já saiu em italiano, grego, etc. Faz uns dias que terminei um livro de contos. Escrevo mais devagar e penso bastante antes de começar um romance, o que exige muito de mim. Escrevo muita poesia, embora dificilmente ela seja publicada. 

 

Jornal Metamorfose: O interesse pela mulher e pelo sexo sempre esteve presente em suas obras. Por quê?


Gutiérrez: Acredito que os cubanos, assim como os brasileiros, são muito sexuais, quiçá seja em boa medida por nossa mescla com africanos e ibéricos, o que geneticamente nos predispõem a ter mais testosterona. Por isso, o sexo é muito importante em Cuba, que é um país machista. E eu escrevo sobre esse assunto tranquilamente. Um escritor só pode escrever sobre aquilo que ele conhece bem. 

 

"A arrogância do mandatário do Tio Sam está sendo devolvida como um bumerangue." 

 

Jornal Metamorfose: Como vê “O Rei de Havana” hoje? Sente nostalgia da época em que escreveu a obra? 

 

Gutiérrez: Não sinto nostalgia alguma. Pelo contrario, esses livros foram muitos dolorosos para mim (“Trilogia”, “O Rei”, “Animal Tropical”, etc) e, por isso, tento esquecê-los quando entrego para o editor. Sempre acontece isso comigo em todos os livros. Eu tenho dificuldade em começar a escrever, mas quando eu dou o ponta pé inicial, faço um esforço para esquecer rapidamente e me concentrar naquilo que está por vir. 

 

Jornal Metamorfose: Quais escritores te influenciaram enquanto artista? 

 

Gutiérrez: Truman Capote foi decisivo, mas também foram Tchekhov, Maupassant, Dostoievski, Hemingway (os contos), Sherwood Anderson, Grace Paley, Erskine Caldwell, etc.  E também acredito que me influenciaram os quadrinhos e os cinemas dos anos 60 e 70 do século passado. E a vida. A vida. Deixo-me arrastar como uma criança que brinca com a realidade. 

 

 

Jornal Metamorfose: “A Trilogia Suja de Havana” é uma obra visceral. Como foi o processo criativo?

 

Gutiérrez: Foi um momento especial da minha vida, com muito desencanto, muita fúria e frustração. Escrevi-o entre 1994 e 1997. Passávamos por um período duro em Cuba. E “A Trilogia Suja” foi um produto dessa crise que o país enfrentava e também pela qual eu passava em minha vida. Acredito que nesses anos o que me salvou foi o álcool e a escrita do romance, porque foram como uma válvula de escape. 

 

Jornal Metamorfose: Suas obras mostram uma Cuba diferente daquela propagada pelos ideais da Revolução de 1959. Você acredita que ela falhou? 

 

Gutiérrez: Todo processo político tem seus erros e seus acertos. É preciso fazer um balanço de forma equilibrada e justa. E a história fará o julgamento. 

 

Jornal Metamorfose: Tem algum projeto novo? Qual? 

 

Gutiérrez: Tenho, sim. Acabo de lançar um livro de contos, trabalho lentamente em duas novelas há alguns anos e sigo com a poesia visual. Foi muito estimulante ir ao Brasil em junho-agosto para a exposição que Gerson Fogaça e eu fizemos no Museu Nacional da República, em Brasília. Eram 24 quadros sobre minha obra e 24 poemas visuais meus.  Foi muito bom. Há muitos anos eu trabalho com a experimentação na poesia visual, desde 1980 ou antes. 

 

 

 

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