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Pela liberdade e luta

Cinema

Documentário ‘Libelu – Abaixo a Ditadura’, do cineasta Diógenes Muniz, analisa importância da Libelu para o renascimento do movimento estudantil após o fracasso da luta armada

Cena do documentário ‘Libelu - Abaixo a Ditadura’ - Foto: Divulgação


O trotskismo conviva com o rock, com o baseado e com as meninas pós-feminismo sessentista... Nas festas sempre regada à cerveja, rolava muito Stones, Beatles, Gil e Caetano. Lia-se Sartre, Walter Benjamin, Michel Foucault, George Bataille, Júlio Cortázar, Manuel Bandeira e Murilo Mendes. Tinha-se como mestra Marilena Chauí. Curtia-se os artigos de Paulo Francis, o padrão de um jornalismo à semelhança do Le Monde. E quando o Corinthians finalmente ergueu o caneco de campeão, após amargar um jejum de 23 anos sem título, tomou-se um porre – pelo menos é o que conta o ex-integrante da Libelu, Matinas Suzuki, em artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 1997.


Para a história, a geração dos anos 70 conformou-se em permanecer à sombra da 60. Mas o sentimento antiautoritário levou jovens a ir às ruas bradar palavras como “abaixo a ditadura” num contexto pós-AI-5. Os libelus eram, digamos, um bando de porras-loucas, mas com classe. A maioria privilegiados e bem-nascidos, divergiam politicamente dos stalinistas e repudiavam a luta armada. Sonhavam em contar a história da ditadura civil-militar nas ruas. “Pelas liberdades democráticas”, diziam, enquanto outras correntes opositoras adotavam um tom mais calmo. Queriam que o sangue que matou estudantes, militantes e jornalistas não fosse mais derramado.


Você deve estar se perguntando: isso tudo é tão atual, né? E, acredite, é por essa toada que vai o documentário “Libelu – Abaixo a Ditadura”, do cineasta Diógenes Muniz, jornalista que ficou entusiasmado com a Jornada de Junho de 2013 e decidiu mergulhar na história do braço estudantil fundado em 1976 da Organização Socialista Internacional (OSI). O filme, que se propõe captar com sensibilidade a revolta daqueles jovens que eram sinônimos de ideais radicais, faz parte da programação do festival É Tudo Verdade, e será exibido nesta quarta-feira (30), às 21h, com reprise no dia 1º, às 15h. Para assistir ao filme, basta realizar um cadastro no site do festival.

Trailer do documentário "Libelu - Abaixo a Ditadura"


Certa vez, para se ter uma noção, uma revista chegou a definir a organização como “pequenos e ruidosos”. Fora dos pátios da Universidade de São Paulo (USP), os trotskistas que queriam protestar contra a ditadura nas ruas passaram a ocupar postos de chefia em grandes veículos de comunicação. A lista é grande: Caio Túlio Costa, Luis Favre, Matinas Suzuki, Laura Capriglione, Mario Sérgio Conti e Josimar Melo. Sem distinção, todos faziam parte da Libelu. E além dessa turma que marcou a imprensa brasileira, nomes como Markus Sokol, Antonio Palocci e Clara Ant chegaram a militar na Liberdade e Luta, ganhando destaque décadas depois no governo Lula.


O charme revolucionário da organização seduziu gente que, anos mais tarde, migrou para o outro lado do espectro político. É o caso, por exemplo, do colunista da Folha de São Paulo, Demétrio Magnoli, nome conhecido do colunismo à direita, e do jornalista Reinaldo Azevedo, expoente do liberalismo na imprensa brasileira. Já o ex-ministro Antonio Palocci, então estudante de medicina na USP em Ribeirão Preto durante os anos áureos da Libelu, ao ser interpelado no filme se ainda se considera uma pessoa à esquerda, vaticinou: “claro”.

Fenômeno pop


Mesmo que tenham sidos responsáveis por reviver o movimento estudantil em meados da década de 1970 após a derrota da luta armada, os libelus não passavam de 800. Eram “jovens elegantes, iconoclastas, bem nutridos, talvez um tanto mal-humorados”, como definiu à época o jornalista Mino Carta. Foi neste período que a Libelu (termo cunhado por marxistas ortodoxos para ridicularizar a organização) tornou-se pop. Estampou uma capa da revista IstoÉ, cuja chamada era “o charme da esquerda adolescente”. E ganhou uma citação numa novela da Bandeirantes, além de ser presenteada por Paulo Leminski com o poema “Para Liberdade e Luta”.


O grupo, obviamente, pagou um preço alto pelo seu protagonismo e popularidade. Na invasão da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), os líderes da Libelu apanharam da polícia e tiveram seus nomes fichados no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Um dos pontos mais fortes de “Libelu – Abaixo a Ditadura” é a cena do descontrole de um coronel, gritando com estudantes que estavam chorando no protesto. Após esse fatídico episódio, a organização definhou até acabar completamente no início os anos 80. No entanto, ninguém pode dizer que essa jornada de rebeldia, porra-louquice e revolta não foi marcante.


Serviço

‘Libelu – Abaixo a Ditadura’


Autor: Diógenes Muniz

Gênero: Documentário

Duração: 90 minutos

Onde assistir: pelo site http://etudoverdade.com.br/br/home/ (é preciso fazer cadastro)

Preço: gratuito