• Lee Aguiar

Penas ao vento

Doce Viagem

“Me sinto presa” – Caetité, Bahia - 30.12.2019.



Às vezes começamos um novo ciclo como se a porta ainda estivesse fechada. Ainda me sinto presa em um passado que nunca foi exatamente meu, quiçá, engolimos as chaves do futuro.


Ainda me sinto presa. Todos os dias.


Já lhe disse – algumas vezes – que sou uma mulher de fé. Os segundos passam e ainda me sinto presa. Engasgada. E, por mais que eu me esforce para vomitar todas as estranhas que me perfuram as vísceras, o vazio ainda me perturba.


Vivemos em uma sociedade doente, que definha-se enquanto alguns poucos homens brancos riem ao brindar – com sangue tinto posto aos copos – a contagem chegar à 200 mil mortos. 5, 4, 3, 2, 1... Gritam “batemos!!! Chegamos mais perto da meta!!!”.


Será que iremos queimar? O que restará das cinzas espalhadas pelos esgotos mais sombrios? Os corpos estão empilhados nas vielas mais escuras e estreitas da cidade “maravilhosa”, abençoada e protegida por cristo, que abraça a todos em um ato irônico.


Ele assiste do alto da cidade as pessoas serem crucificadas cotidianamente, carregando suas cruzes ensanguentadas pelos ônibus e metros lotados de tristeza. Nunca mais chorei, não me resta nada. Estou vazia.


Começamos o ano com mais uma criança assassinada na periferia do Rio de Janeiro, enquanto assistia aos fogos e rojões, uma menina de 11 anos morre ao lado da família, uma bala “perdida” encontra o pescoço da criança e ela simplesmente morre, ali mesmo. Estirada aos braços de sua mãe.


Os dias estão passando e a fome aumenta. A chuva de verão está cada dia mais forte, destruindo lares, ruas, calçadas e esperanças. Ninguém se importa mais.


Parece que começamos um ciclo novo enquanto ainda estamos imersos na distopia da necropolítica bolsonarista. Que 2021 lhe traga ódio.


Me sinto presa.

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