• Marcus Vinícius Beck

Perto do coração selvagem

100 anos

Escritora Clarice Lispector completaria cem anos nesta quinta-feira (10) como uma santidade da literatura – rótulo que ela rechaçou em vida


Retrato da escritora Clarice Lispector feito pelo pintor italiano Giorgio de Chirico - Foto: Reprodução/ Pinterest



A história da prosa invariavelmente é contada a partir dos homens brancos e cis que brilharam nas páginas dos jornais no século passado, e quase não temos contato com mulheres escritoras. Mas Marina Colasanti, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector, assim como Fernando Sabino ou Rubem Braga, marcaram nossa literatura com textos sobre o cotidiano, a desigualdade social e os dramas da existência humana.


Ainda assim, vamos continuar falando de autoras apenas quando elas forem a pauta por causa de efemérides redondas? Até quando vendaremos nossos olhos a isso?


Em seu centenário, a ser completado nesta quinta-feira (10), o mito em torno de Clarice talvez tenha atingido agora seu auge. Hoje, mais do que nunca, a frase que abre a crônica “Medo da Eternidade” – publicada no Jornal do Brasil em 6 de junho de 1970 – serve para que compreendamos a força literária da escritora e sua modéstia: “Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade”.


De fato, a diáspora brasileira se faz presente no texto macio de Clarice: ela é a mais internacional das nossas escritoras e até ganhou uma biografia assinada pelo autor norte-americano Benjamin Moser. Sim, a estilista das palavras era absolutamente genial.


Para comemorar os 100 anos da autora, a editora Rocco lança a obra “Todas as Cartas”, que reúne correspondências de Clarice. A seleção, cujos textos em boa parte são inéditos ao público, é um acervo seminal para entender a trajetória literária dela, com cartas trocadas pela autora de “Felicidade Clandestina”com João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Mário de Andrade, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.


Nascida em 1920 na cidade ucraniana de Chechelnyk, Chaya Pinkhasovna Lispector é considerada, ao lado de Guimarães Rosa, a grande autora em língua portuguesa da segunda metade do século 20, por causa de sua prosa lírica singular que apresenta o cotidiano com requintes espirituais. Seus textos, redigidos em primeira pessoa, não se assemelhavam com nada: eram tão originais que, embora pertençam à terceira fase do modernismo brasileiro, da chamada geração de 45, têm vida voz própria.


Mas nem tudo foi um mar de rosas na vida de Clarice. Foi a terceira filha de Pinkhas e Mania, e seu nascimento motivou uma pausa no sentimento de fuga numa época na qual a fome, caos e perseguição motivada pelo antisseminismo eram a tônica da decrepitude moral e política. Seu avô foi assassinado, sua mãe estuprada e seu pai, sem dinheiro, exilado para o outro lado do mundo.


Talvez aí esteja a origem do sentimento de culpa que a perseguiu ao longo da vida.


Em terras brasileiras, seu pai sobrevivia como dava, vendendo roupas, mas quase não conseguia sustentar a família. Quando Clarice tinha cinco anos, mudaram-se do Recife para o Rio de Janeiro, então capital da República. No Rio, ela ingressou na Faculdade de Direito do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E, fruto do machismo e do racismo intrínsecos à sociedade brasileira, ali haviam apenas três mulheres e não tinham judeus.


Da escola das leis, ela não aproveitou muita coisa, pois perseguia seu sonho nas redações de jornais, deslumbrando todos a sua volta por causa da assiduidade literária: Clarice devorava Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Eça de Queiroz, Jorge Amado e Fiódor Dostoiévski. Daí pra ver sua primeira história conhecida publicada foi um pulo, e três meses depois de “O triunfo” vir ao mundo seu pai morreu, aos 55 anos.


Aos 21, já órfã, publicou “Perto do Coração Selvagem, obra que escrevera aos 19 e que lhe rendeu o prêmio Graça Aranha de melhor romance. Em 1943, Clarice se casou com um homem católico. Era o diplomata Maury Gurgel Valente, que conhecera em seus anos de estudante de direito. Ainda no mesmo ano, abandonou sua família, sua comunidade étnica, seu país, e também a profissão de jornalista – era, vale destacar, considerada uma profissional talentosa, com excelente texto e boas histórias a contar.


Até 1959, ano em que ela se separa de Maury, levou uma vida tediosa, e tinha saudades do Brasil: nunca encontrou felicidade fora do País, desenvolvendo depressão. Nos anos 40, publicou “A Cidade Sitiada” e, em 1952, “Alguns Contos”. Nesta época, viajou com o marido aos Estados Unidos, onde nasceu seu segundo filho, Paulo. No ano seguinte, saiu a primeira tradução de um livro de Clarice, “Perto do Coração Selvagem”, em francês, cuja capa era de autoria do pintor francês Henri Matisse.


Na segunda metade da década de 1960, Clarice publicou no Jornal do Brasil crônicas líricas e pessoais em que mostravam sua intimidade. Sua escrita, formada na rapidez que o ofício jornalístico exige, acontecia de maneira muita peculiar: anotava esboços em caderninhos e depois os juntava com outros rabiscos.


Assim fez “A Hora da Estrela”, em 1967, obra aclamada e concebida em versos escritos em cheque e maços de cigarro. O livro tem 100 páginas e contra a história de uma menina que, tal como ela fizera anos antes, migra de Nordeste pro Rio.


Clarice Lispector saiu de cena em 9 de dezembro de 1977, véspera de seu aniversário de 57 anos, vítima de câncer no ovário. Ela está eternizada numa estátua localizada na praia do Leme, um das praias mais lindas do mundo.


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