• Júlia Aguiar

Piratas são eles, nós não estamos atrás do ouro

Sede de Arte

Em homenagem ao #DiaDoRádio leia o clássico do jornalismo libertário dos anos 80, o livro “Rádios Livres: a reforma agrária do ar”

“Ocupando o latifúndio eletromagnético”. Foto: Reprodução


A difusão de informação por ondas eletromagnéticas transformou a sociedade e o comportamento humano no século 19. Apesar de alguns historiadores afirmarem que a criação do rádio é italiana, no Brasil em 1893, o padre Roberto Landell de Moura realizava experiências semelhantes em Porto Alegre, resultando nas primeiras transmissões de rádio do mundo!


No dia 13 de fevereiro é celebrado o Dia Mundial do Rádio, data que nos lembra a importância dessa ferramenta de comunicação tão potente. É através do rádio que a comunicação começou a se globalizar, ampliando o diálogo e a troca de informações por comunidades mais distantes, pois as ondas eletromagnéticas podem atingir abrangência em milhares de quilômetros com uma tecnologia que atualmente chamamos de robusta.


Com o desenvolvimento do jornalismo e da função social exercida pelo rádio na sociedade, essa se tornou uma importante ferramenta de comunicação social. O que despertou – obviamente – ímpetos autoritários por diversos líderes mundiais ao longo dos tempos, em tempos tenebrosos dos séculos passados várias transmissões foram censuradas para impedir que as informações esclarecessem as pessoas da realidade social.


Tendo em vista que no Brasil, existe leis muito rígidas com a concessão para transmissões radiofônicas, trouxe em meu primeiro texto na coluna #SedeDeArte uma obra clássica do jornalismo libertário: o livro “Rádios Livres: a reforma agrária do ar”.


O livro de Arlindo Machado, Caio Magri e Marcelo Masagão, com prefácio de Felix Guattari, reúne diversas experiências de rádios comunitárias e livres da história do país. Entre os anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar (1964-1985) a juventude brasileira resistiu bravamente com várias rádios livres em todo o território nacional contra a repressão.


O livro, publicado pela primeira vez em 1986, traz também transcrições de diversos manifestos dessas experiências, que em sua maioria foram autogestionárias e tinham ideologia libertária (seja anarquista ou comunista).


“As rádios livres representam, antes de qualquer outra coisa, uma utopia concreta, suscetível de ajustar os movimentos de emancipação desses países a se reinventarem. Trata-se de um instrumento de experimentação de novas modalidades de democracia, uma democracia capaz não apenas de tolerar a expressão das singularidades sociais e individuais, mas também de encorajar sua expressão, de lhes dar a devida importância no campo social global”, escreve o filósofo italiano Guattari no prefácio.


Felix foi um dos principais atuantes da Rádio Alice, experiência libertária e autogestionária de rádio livre na Itália, durante a década de 1970. Participando também da Rádio Tomate, que tomava as ondas eletromagnéticas das periferias de Paris para dar voz a imigrantes africanos.


Além de ser um documento histórico que registra as principais experiências radiofônicas libertárias do Brasil, o livro também traz uma profunda e necessária discussão sobre a democratização da mídia no país. Rádios Livres discute a importância de acabar com a lógica de poder imposta aos veículos de comunicação para transformá-las em ferramentas libertárias e horizontais de criatividade coletiva.


“Se não é político transgredir a lei, rompendo, mesmo que localizadamente, o monopólio do monstro global, então eu já não sei mais o que é político”, afirmava o radialista em 1983, na Rádio Cinderela em transmissão ao vivo. Trecho está descrito inteiramente no livro, a partir da página 36.


Algo muito recorrente no discurso dos “rádio-livristas”, são os relatos de repressão e perseguição por parte do estado as estações de rádio. Isso acontece porque no Brasil, a legislação coloca como crime contra a nação a “invasão” das ondas eletromagnéticas no espaço aéreo brasileiro. A pena pode chegar a mais de 50 anos de cárcere.


O manifesto da Rádio Totó, intitulado “A batalha dos ares do Sul”, explica: “Chega desse sistema de concessões que só privilegia o clientelismo político, deixando à margem os reais interesses da sociedade. E ainda nos chamam de piratas! Assumimos o termo por questões estéticas, mas piratas são eles! Nós não estamos atrás do ouro”.


“Rádios Livres” é um suspiro para quem se importa. Para todos os jornalistas que acreditam na função social de nossa profissão tão sofrida, e principalmente, para aqueles que lutam pela liberdade dos povos.


Ah, e eles ainda te ensinam como montar um transmissor pirata! ;)


Até semana que vem.



“Rádios Livres: a reforma agrária do ar”


Autor: Arlindo Machado, Caio Magri e Marcelo Masagão

Editora: Brasiliense


“Pirata são eles! Nós não estamos atrás do ouro”. Você pode acessar o PDF do livro – de forma gratuita - nesse link aqui:


https://dodopublicacoes.files.wordpress.com/2009/03/radioslivres.pdf

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