• Marcus Vinícius Beck

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Uma super-caixa é lançada com uma reedição de 36 músicas da carreira de John Lennon, além de um livro de 124 páginas redigido por Yoko Ono. Lennon completaria 80 anos se não tivesse sido assassinado

Ilustração psicodélica de John Lennon feita pelo artista Wandi - Crédito: Reprodução


John Lennon marcou a cultura pop com suas canções de protesto que criticavam a corrida armamentista do Tio Sam. Um dos ícones do século 20, fundador da banda de rock considerada pela crítica como a mais importante de todos os tempos, Lennon completaria 80 anos nesta sexta-feira (9) se não tivesse sido alvejado por um fã maníaco em 8 de dezembro de 1980. Mas, antes de ser assassinado na porta do edifício no qual morava em Nova Iorque, o autor de pérolas como “Come Together” e “Let I Be” produziu obras-primas que continuam alimentando almas insatisfeitas com a realidade.


Para quem quiser curtir um revival de Lennon, uma super-caixa será lançada com uma reedição de 36 músicas de sua carreira solo, além de um livro redigido por Yoko Ono. “John era um homem brilhante, com um grande senso de humor e compreensão. Ele acreditava em ser verdadeiro e que as pessoas, unidas, tinham a capacidade de mudar o mundo. E isso vai acontecer. Todos temos a responsabilidade de visualizar um mundo melhor para nós e para nossos filhos. Está em nossas mãos”, revela Yoko, na obra, que está disponível para compra na Amazon, em inglês.


Com assinatura da companheira de Lennon, a obra parte da frase “a verdade é o que criamos”, de autoria do ex-Beatle. A publicação, cuja íntegra pode ser lida na versão “Deluxe Edition” de “Gimme Some Truth”, conta com 124 páginas nas quais a artista plástica relembra histórias de algumas músicas que integram o projeto especial, tendo como ponto de partida entrevistas, fotografias e depoimentos de músicos e técnicos que trabalharam com Lennon, além das próprias recordações desse período feitas por ele – algumas delas estão numa edição de colecionador da Rolling Stone.


As músicas que compõe a caixa em homenagem aos 80 anos de Lennon são pérolas que marcaram a trajetória pós-Beatles, como “Instant Karma!”, “Imagine”, “Power To The People”, “Oh Yoko”, “Stand By Me”, “Woman”, “Give Peace A Chance”, entre outros clássicos. Em sua carreira solo, o artista enveredou por um rock engajado política e socialmente. É dessa época, por exemplo, a faixa “Woman Is The Nigger Of The World” (1972), hino feminista. O compositor fez ainda uma ode aos direitos civis, realizando um clamor pela liberdade da militante comunista Angela Davis.


Além disso, os fãs do cantor vão curtir saber que as 36 músicas compiladas para a super-caixa integram os poderosos repertórios dos discos “John Lennon/ Plastic Ono Band” (1970), “Imagine” (1971), “Some Time In New York City” (1972), “Mind Games” (1973), “Bridges” (1974), “Rock’n’Roll” (1975), Double Fantasy” (1980) e Milk and Honey” (1984). Ou seja, no projeto estão todos os LPs produzidos por Lennon durante sua vida, além de um trabalho póstumo com canções que ele deixou quando foi assassinado. É um prato e tanto para quem gosta da obra de Lennon.


Confira "Woman Is The Nigger Of The World" no vídeo acima.


Carreira


Nascido em Liverpool no dia 9 de outubro de 1940, John Lennon formou sua primeira banda aos 15 anos, época em que ele apresentou os primeiros sinais de um talento para a escrita estimulado pela leitura de medalhões como Lewis Carroll e Richmal Crompton. Dois anos depois, já curtindo o som transgressor de Chuck Berry e Buddy Holly, o jovem músico conheceu o baixista Paul McCartney. A dupla não demorou a demonstrar uma sintonia responsável por canções que fazem parte da trilha sonora dos anos 1960. O resto, como se sabe, foi um fenômeno que marcou o rock.


A Invasão Britânica, que levou para o público norte-americano nomes como The Who, The Animals e Rolling Stones, tomou conta das rádios com o estouro do single “Love Me Do”, de 1962, faixa que abre o lado B do LP “Please Please Me” (1963). Foi um sucesso que colocou os Beatles na rota dos programas de televisão, no topo das paradas de sucesso e com a agenda cheia de shows. Uma histeria. E numa dessas loucuras da estrada, o quarteto de Liverpool experimentou a maconha por meio de Bob Dylan, e nunca mais – especialmente Lennon, o mais doidão dos quatro – a abandonou.


Em 1963, o compacto simples “She Loves You”, outro gigantesco sucesso beatlemaníaco, foi lançado no Reino Unido. A essa altura quase não existiam shows dos Beatles sem multidões e meninas apaixonadas pelo charme coletivo deles. Entre apresentações, discos e sucessos emplacados nas rádios, o quarteto britânico recebeu da rainha Elizabeth II a medalha de membros da Ordem do Império Britânico, que Lennon devolveria em 1969 como um protesto pela Guerra do Vietnã. Em 1966, ele conheceria a artista plástica japonesa Yoko Ono, romance que começou em 1968.


No ano seguinte, Lennon e Yoko gravaram o álbum "Unfinished Music no. 1", que teve fotos do casal pelados na capa e contracapa do disco. Os dois se casaram em 20 de março de 1969. Durante a lua de mel, iniciaram o primeiro 'bed-in for peace', ficando sete dias na cama como forma de protesto contra a Guerra no Vietnã e os conflitos armados ao redor do mundo. Yoko acompanhava o marido em todos os lugares, e por isso se atribui a ela o final dos Beatles. No decorrer da década de 1970, a participação política do casal ficou mais intensa nas causas humanitárias. Tanto que os discos do ex-beatle do início da década eram carregados em mensagens contestatórias.