• Marcus Vinícius Beck

Poesia radical

Literatura

Augusto dos Campos chega aos 90 anos como um dos poetas mais brilhantes da literatura brasileira. Nos anos 1950, Augusto ajudou a mudar a cara da poesia, inserindo-a no mapa mundial


Poeta é um dos precursores da radicalização da linguagem poética - Foto: Fernando Laszlo/ Reprodução



Augusto de Campos achincalhou há 70 anos a velha forma de fazer poesia com a obra “O Rei Menos o Reino”. Nela, Augusto - considerado o fundador da estética poética concretista - despertou no público a consciência da materialidade da linguagem, das interações entre forma e conteúdo ou entre verbal e outros códigos artísticos, como música ou artes visuais: ele revelou formas inéditas de abordagem construtiva da poesia e desnudou novas torrentes para a sensibilidade dos jogos textuais.


Augusto colocou, junto com Haroldo de Campos e Décio Pignatari, o Brasil numa espécie de mapa da poesia mundial, aquele mesmo do qual falara Oswald de Andrade em seu “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. Eles foram responsáveis por ousar pôr em prática uma nova modernidade, mais radical e afrontosa, cuja visualidade dos poemas transpassam um sentimento inconformista, em um período onde os modernistas de 1922 estavam caindo em descrédito pela onda conservadora da geração de 45.


Em sua carreira como tradutor, Augusto ajudou a disseminar a literatura de Ezra Pound, Maiakovski, Gertrude Stein, Arthur Rimbaud e Rainer Maria Rilke. “É maravilhoso ver Augusto de Campos chegar aos 90 anos mantendo acesa sua produção, resistindo ativamente a estes tempos de destruição sócio-política-cultural-ambiental que estamos vivendo no Brasil”, diz o músico Arnaldo Antunes, em uma carta enviada ao Itaú Cultural, que organizou mostra para homenagear o “operário da poesia”.


Aos 90 anos, também completados em 2021, Augusto não quer parar: ele se dedica à tradução criativa e aos ensaios estéticos que lhe tornaram conhecido como escritor para lá de inventivo e criativo. Sua influência para a cultura brasileira, sobretudo a de vanguarda, vai desde Caetano Veloso até Waly Salomão, passando por Paulo Leminski e Tom Zé. Ou seja, é praticamente impossível falar sobre a contracultura do final dos anos 1960 sem se debruçar sobre a produção intelectual do poeta-ensaísta.


Augusto, vale lembrar, apresentou a poesia concreta com “Poetamenos”, de 1953, compilados de cartões que dialogavam entre si por meio de partituras de timbres Realmente, essa disposição lexical possibilitou que o leitor não tivesse apenas uma leitura, e sim que fosse levado a uma interação com a obra, uma imersão: Augusto, nesse sentido, fez como o argentino Julio Cortázar em “O Jogo da Amarelinha”. Mas o romancista hermano criou sua obra em pedaços em 1963, isto é, dez anos depois do poeta.




Nos anos 60, ele lançou “Cidade City Cité”, em 1963, e “Luxo Lixo”, dois anos depois. A essa altura, a poesia concreta havia deixado de ser uma mera manifestação radical criada por um bando de poeta maluco e esquisito para ingressar nas cenas erudita e de massa: isso só foi possível pela ideia desenvolvida por Décio Pignatari em “Informação. Linguagem. Comunicação”, de 2003. Sim, teorizava o estudioso, a cultura de massa não deve ficar ofuscada aos preceitos frankfurtianos arrogantes e etilistas.


É importante ressaltar que Augusto integrou o grupo Noigrandes, fundado em 1952 e onde atuou ao lado do irmão Haroldo de Campos e de Décio. Junto com os dois, fundou a revista de mesmo nome, com o objetivo de provocar a estética vigente. A proposta da publicação era gerar reflexões sobre a necessidade de uma nova forma na literatura, sempre de olho nos aspectos estéticos à própria arte das palavras.


Ainda assim, os paulistanos inventaram de tretar com os cariocas, antes afinados entre si. Desse rompimento surgiu o movimento neoconcretista, guiado pela máxima de que São Paulo produzia arte alienada e não prestava atenção nos problemas da sociedade de cunho coletivo. Bem semelhante, se olharmos atentamente, ao que o pessoal do Cinema Novo dizia sobre os filmes de Rogério Sganzerla, Walter Hugo Khouri e Luiz Sérgio Person. De toda maneira, é uma briguinha sem fundamento: quem se habilita a falar que “Olho por Olho” não criticava os anos da ditadura?


Quando Caetano Veloso levou uma sonora vaia por causa de “Alegria, Alegria” no Festival da Canção, por exemplo, Augusto de Campos escreveu um belo poema para o amigo no qual evocava o poeta Jean Cocteau: “Aquilo que o público vaia, cultive-o, é você”.


Sempre de olho nas transformações sociais e tecnológicas de seu tempo, Augusto começou a produzir no início dos anos 2000 animações para seus poemas. Foi um dos primeiros a postar na internet seus textos e a criar portfólios virtuais. Em 2003, o livro “Não” era acompanhado por um CD-ROM a partir do qual o leitor poderia ter a chance de usufruir de uma experiência multimídia e sensorial. Em sua última obra, “Ouro”, de 2015, mostra-se fiel ao concretismo.


Como diz Arnaldo Antunes, na mesma carta enviada ao Itaú Cultural: “sem distender o arco de sua poética ética, de sua pesquisa incansável no campo da linguagem experimental e de sua invenção livre, em poesia e pessoa.”


Em tempo: não deixe de consultar o material sobre Augusto dos Anjos disponibilizado pelo Itaú Cultural em seu site. É uma boa fonte para conhecer um artista que ousou transformar a poesia contemporânea. Augusto de Campos é o patrono da experimentação radical da linguagem.


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