• Metamorfose

Por que a gente é assim?

Dia Mundial do Rock


Em comemoração ao Dia Mundial do Rock, destrinchamos o movimento que ficou conhecido, na década de 1980, como BRock

Cantor Cazuza (à esquerda) e guitarrista Frejat (à direita) durante show do Barão Vermelho no Rio in Rio, em 15 de janeiro de 1985 - Foto: Reprodução/ Veja Rio



Marcus Vinícius Beck


“Agora vamos enxugar as lágrimas e voltar pra sacanagem, que é muito melhor”, atesta o cantor Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, antes de Roberto Frejat mandar ver os primeiros acordes da música “Ponto Fraco” num show no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 1984. O letrista, à frente do Barão Vermelho, trouxe para o rock nacional a linguagem musical visceral de Janis Joplin, o canto estridente de Joe Cocker e a poesia beat dos anos 1950. E tudo isso cantado em bom português. Se antes suponha-se que o rock´n´roll não combinava com nosso idioma, a porra-louquice do Barão tratou de provar que essa teoria estava caduca.


Até os anos 80, o BRock não tinha espaço no mainstream. Nem em seu momento de maior sucesso nos anos 60, a Jovem Guarda se livrou do estigma de movimento efêmero. Estrangeiro nas terras brazucas, o gênero demorou quase três décadas até conseguir obter o direito à cidadania brasileira. Não sem antes, é importante destacar, flertar com o som da transgressão em momentos chaves. Surgiu a Tropicália, movimento cuja sonoridade era eletrificada e tinha sangue roqueiro correndo nas veias, mas o rock – desculpa, tinha que tocar nesse assunto, por mais quixotesco que seja – era um vassalo do imperialismo ianque.


Numa dessas ironias da História, os primeiros a verem o rock como inimigo não foram os generais da caserna, e sim os universitários. Em um contexto de repressão com conivência do pessoal do hemisfério norte, não havia espaço para esse estilo de música e de vida que chegou ao seu auge com Beatles, Stones, Dylan, Hendrix, Clapton, Floyd e mais um bocado de gente da pesada. Quem não estava engajado na canção de protesto, acreditavam os devotos da caduquice sectária, estava alienado, quase jogando contra a tão sonhada revolução. Caetano, aliás o sujeito responsável por introduzir a postura roqueira na MPB, então rompeu com os universitários.


Cantor e compositor Walter Franco durante uma apresentação em 1975 - Foto: Acervo Folhapress/ Reprodução



“Vocês não estão entendendo nada”, disse Caetano ao microfone depois de tocar “É Proibido Proibir”, no 3° Festival Internacional da Canção, uma letra que coletava pichações feitas durante os protestos estudantis contra o general Charles De Gaulle no Maio de 68 francês. A essa altura, os militares haviam sacado o ímpeto subversivo por trás da Tropicália. Caetano e Gil foram parar no xilindró no Natal de 68. Da Tropicália, cada um foi para o seu lado. Quem era do rock – quer dizer, Os Mutantes – foi expandir a consciência na lisergia psicodélica. Em “Os Mutantes” (1968), o grupo paulistano uniu o rock beatlemaníaco pós-“Revolver” à identidade musical brasileira.


O rock´n´roll pulsava. Da Bahia, terra de Dorival Caymmi, João Gilberto, Caetano e Gil, saiu aquele que é considerado o patriarca do rock brasileiro. Tomando como parceiro o mago Paulo Coelho, o roqueiro soteropolitano Raul Seixas partiu rumo à “Sociedade Alternativa” e saiu enfileirando um hit atrás do outro nas paradas, como “Gita” (1974), “Tente Outra Vez” (1975) e “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” (1977). Ainda durante os anos 70, os Secos & Molhados, com seu primeiro LP, “Secos & Molhados I”, quase estabeleceu de vez o rock na sociedade brasileira com os singles “Sangue Latino”, “O Vira” e “O Patrão Nosso de Cada Dia”.


De São Paulo, inspirado pelo rhythm´n´blues à la Rolling Stones, o Made In Brazil atravessou os fracassos e as trocas de integrantes fazendo os discos “Made In Brazil” (1971), “Jack, o Estripador” (1977) e “Minha Vida é Rock´n´Roll” (1981). Também de Sampa, Walter Franco chamou a caretice de “Canalha” no LP “Vela Aberta” (1980). No final dos anos 70 e início dos 80, o BRock era sonhado pelo público. Bastava surgir um grupo um pouquinho acima da média, como A Cor do Som, quase um subproduto dos Novos Baianos, para falsas esperanças roqueiras serem plantadas nos ouvidos dos fãs sedentos por rock decente. Demorou, mas ele chegou aqui.


Aumenta que isso aí é rock´n´roll


“Com o volume no máximo do escândalo estou ouvindo uma fita demencial. É coisa doméstica, gravada com um microfone, só, mas que arroja uma torrente de adrenalina capaz de pulverizar quarteirões. É rock puro, escrachado e demencial, imperfeito e carnívoro, trombetas selvagens anunciando o começo de um novo mundo”, escreveu o jornalista Ezequiel Neves em sua coluna Zeca´N´Roll. As intensas palavras foram redigidas quando Zeca, como era chamado pelos mais próximos, ouviu pela primeira vez o som stoniano do Barão Vermelho. Com Cazuza à frente, a banda injetou no rock brasileiro lirismo debochado e musicalidade sem firulas.


Formada em 1981 para tocar num evento arranjado pelo pai do tecladista Maurício Barros, o Barão demorou para chegar ao rádio. O motivo era compreensível: o som, paulada frontal na cara dos caretas, não tinha espaço. Lulu Santos, Gang 90 e as Absurdettes e Blitz dominavam as paradas no Rio. Apenas quando Ney Matogrosso gravou “Pro Dia Nascer Feliz” em 1983, Cazuza, Frejat, Maurício, Guto Goffi e Dé Palmeira saíram do ostracismo. E em 1984, finalmente, adentraram as rádios com o LP “Maior Abandonado”, disco que reunia canções obrigatórias em qualquer show do Barão em sua história, como a faixa-título, “Bete Balanço” e “Por Que A Gente É Assim”.



Teaser do documentário 'Por Que A Gente É Assim', que conta a história da banda Barão Vermelho


Mesmo sob os holofotes e após uma apresentação catártica enrolado na bandeira do Brasil no Rock In Rio em 1985, Cazuza decidiu enveredar por uma carreira solo. O Barão, sem muita alternativa, se reinventou. Parceiro de ‘Caju’ na maioria das composições da banda, Frejat assumiu os vocais. No disco “Carnaval” (1988), o quarteto conseguiu um lugar ao sol depois de anos colecionando fracassos comerciais. O letrista, no entanto, teve mais facilidade. Seus discos após-barão, “Exagerado” (1985), “Só Se For a Dois” (1987), “Ideologia” (1988), “O Tempo Não Para” (1989) e “Burguesia” (1989), credenciaram-no como um dos maiores compositores do rock nacional.


Em São Paulo o rock´n´roll também estava a pleno vapor na luta pela liberdade. Composto por uma penca de músicos, os Titãs emplacaram nas paradas de sucessos uma sequência de hits como “Sonífera Ilha”, “Televisão”, “Polícia”, “Comida” e “Flores”. Também de Sampa, mas ao estilo punk emputecido do The Clash, despontaram o Ira! e seus “Dias de Luta” reclamando daquele “Núcleo Base” ao qual os jovens tinham de se alistar no Brasil da abertura política. E, ainda que tenha se tornado um panfleto reaça, havia o deboche irreverente do Ultraje a Rigor em seu “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, música de Roger Moreira que tomou as rádios de norte a sul do País em 1985.


No Palácio do Planalto, bem perto da cafonice fardada, o som do punk inglês de Sex Pistols e The Clash fez a cabeça de Renato Russo, que formou a banda Aborto Elétrico. Após excursionar do final dos anos 70 ao início dos anos 80 pelos bares de Brasília, Renato (ao ouvir The Smiths) formou a Legião Urbana, arrebatando uma legião de fãs pelo Brasil por causa de músicas como “Tempo Perdido”, “Será” e “Pais e Filhos”. Mas a capital federal não vivia apenas de Legião. De lá, saíram ainda Capital Inicial e Plebe Rude, ambas com uma sonoridade pós-punk e punk. No Rio Grande do Sul, aparecem os Engenheiros do Hawaii em sua “Infinita Highway”. O rock, aleluia, estava a mil.