• Marcus Vinícius Beck

Por uma pedagogia da manga, já!

Botequim Literário

Cena do longa-metragem 'Jule e Jim', de Truffaut, expoente da Nouvelle Vague - Foto: Reprodução



Extraviei-me pela Praça Mauá, em frente à Baía de Guanabara, cartão-postal do Rio de Janeiro, junto com minha musa de sonhos intranquilos, Lee Aguiar, para aproveitar as últimas horas de meu exílio na Cidade Maravilhosa. Eu estava com passagem comprada, guardada no bolso da camisa, porém relutava em regressar ao inferno climático de Goiânia.


Foi certamente uma viagem ao final do coração da matéria-prima que consagrou cronistas cariocas daquela geração de ouro, na década de 1950 - sobre a qual vocês estão carecas de ver referências em meus escritos -, e quando o garçom do botequim onde repousamos perguntou o que eu beberia, respondi: “um chope”. Lee optou pela companhia do guardião Jack, o insubstituível Daniels.


De uma maneira não menos engraçada, comecei a deixar meus pensamentos se perderam pela filosofia existencial do pesinho, digo, a ontologia taradona que sempre surge pra colocar areia no meio de uma história. Aquele amor, melhor, aquela paixão ou tesão – dependendo do caso – que repousa em seu peito enquanto o cheiro da pedagogia da manga exala pelos poros dos malabarismos eróticos.


Às mangas, jovens; aos pesinhos no peito durante o cigarro pós-coito, caros.


A lembrança do pesinho quando você anda pelas ruas chutando as tampinhas da tristeza pós-coito é um king size dos amantes solitários. Digo por experiência empírica. Por que todo cara, até o mais desafortunados deles, pobres desafortunados, traga esse momento como se fosse um misto de Nouvelle Vague com o romantismo porra-louca de Paulo César Pereio.


Cá entre nós, seu Adão, a manga é a nova maça: resta-nos, portanto, a prática de sua pedagogia com o mais devoto lambuzamento e a mais prazerosa sujeira de manter vivo ali na barba o melhor dos cheiros da humanidade – e se você tiver um cavanhaque pilantra estilo Paulo Leminski, como este escriba o tem, então...


Daí a necessidade de uma pedagogia da manga, meu bom velho e hoje achincalhado Paulo Freire. Deveria ser disciplina obrigatória no currículo básico da prática milenar do sexo.


Para evitar vexame, há um exercício bastante educativo pra prática de chupar o fruto. Falo do ato postal de lamber selos no instante de colá-los nas cartas, como me alertou o cronista Xico Sá – uma arte, aliás, esquecida na era efêmera dos 280 caracteres.


Penso comigo: como ninguém se dedica ao ofício de escrever cartas... Imagina quem vai se dar ao trabalho de lamber o sétimo selo, grande Xico!


Apesar da digressão por uma pedagogia da manga, a gente não pode esquecer que o pesinho repousado sobre o peito, da mulher amada, do menino ou da menina, é prova de amor mais irrefutável que existe. É aquele momento da fita “Lucía E El Sexo”, de Julio Medem, quando a alma – de tão leve – sai do esqueleto desse mundo; é o deleite da morte do gozo.


Ao bebericar o último trago no guardião Jack, Lee fez eu me dar conta de que já havia sorvido quatro canecas de chope. Bêbado estou. Que a miséria humana, caro Brás Cubas, nos seja breve.