• Gabriell Araújo

O povo russo luta por eleições locais livres e recebe repressão como resposta

Internacional

As manifestações contra as proibições de candidaturas independentes tem como resultado quase 2.000 detidos

Foto: Reprodução


As últimas semanas na Rússia foram marcados por protestos que pediam eleições livres como respostas a proibição das candidaturas. Entretanto, as manifestações não são contra qualquer governo ou governante, mas sim um combate contra Vladimir Putin, ex-agente da KGB e segundo homem mais poderoso do mundo de acordo com a revista Forbes. Os policiais prenderam cerca de 1.955 manifestantes em dois dias de mobilizações, que se opunham a inibição de candidaturas independentes para as eleições locais.


O atual presidente está no poder desde 1999 e já foi até primeiro ministro. Reelegeu-se há pouco mais de um ano em uma disputa com outros oito candidatos, entretanto o seu principal opositor, o advogado Alexei Navalny, que pertence ao partido ‘’Rússia Of The Future’’, foi impedido de concorrer às eleições, já que fora acusado e condenado pela prática de crimes econômicos.


Se aqui no Brasil as eleições realizadas pelas urnas eletrônicas são sempre cobertas de desconfianças, a Rússia prova que esse mesmo receio também pode existir nas comuns eleições de papel. Em alguns locais deste extenso país, agentes eleitorais são vistos colocando cédulas em urnas, como anunciou a France Presse. Além disso, cédulas foram encontradas dentro das urnas antes do início das votações e ainda houveram suspeitas de coerção contra eleitores. Esse conjunto de fatos causaram ainda mais suspeitas em relação aos quase 50 milhões de votos recebidos por Putin.


É necessário também, rememorar algumas mortes que criaram um grande temor e insegurança em relação ao governo. Alexander Litvinenko, ex-espião da KGB e crítico do presidente, foi morto em Londres por envenenamento por polônio e antes de falecer acusou dois agentes que também eram espiões. Anna Politovskaya, jornalista que também se posicionava contra o presidente, foi morta a tiros no elevador de seu prédio. Boris Nemtsov, líder da oposição russa até então, foi morto a tiros no centro do Moscou. Esses são apenas três de diversos casos que ligam assassinatos de opositores à Vladimir Putin.


A comissão eleitoral recebeu 233 candidaturas, mas negou 57 delas, a maioria absoluta faz parte da oposição ao governo. Com todos esses acontecimentos, parte da população saiu para as ruas no dia 27 de julho, para protestar contra as medidas do atual governo. A população exige eleições locais livres e justas, entretanto, receberam uma resposta repressiva por parte do governo, que apenas na primeira hora prendeu cerca de 561 manifestantes, de acordo com a ONG OVD-Info. Essa mesma organização divulgou que até o fim desse protesto houveram cerca de 1.127 presos.


Mais tarde, no dia 4 de agosto, tudo isso iria se repetir. Pois, cerca de 1.500 pessoas saíram às ruas e o desfecho foi cerca de 828 manifestante detidos de acordo com a OVD. Entre eles, a candidata barrada Liubov Sobol, que trabalha com o opositor Navalny e está em greve de fome há três semanas.


Há 20 anos atrás, no dia 10 de agosto de 1999, Vladimir Putin chegava ao poder pela primeira vez. A forma com que o presidente melhorou significativamente a economia do país durante o seus primeiros anos de governo reduzindo a inflação de 80% em 1999 até alcançar 20% em apenas um ano. Além disso, governa a imprensa com mãos de ferro, pois as pouquíssimas redes televisivas que cobrem todo o extenso território russo estão de alguma forma ligadas ao estado.


Já no dia 10 de agosto, na quarta semana consecutiva de atos, o número de manifestantes mais do que dobrou até atingir o número de 60 mil pessoas, mas a quantidade de detidos diminuiu de forma brusca para apenas 160 detidos. E como de costume vimos cartazes e gritos de ordem que pediam as eleições livres e a libertação dos encarcerados das manifestações anteriores.


De acordo com um chefe de gabinete do Kremlin, ‘’Sem Putin, não existe Rússia’’, por isso é difícil imaginar que essas manifestações sigam acontecendo ou que tenham algum tipo de sucesso, mas é impossível negar que o momento da geopolítica global propicia a queda do presidente que observa o primeiro levante significativo contra o seu governo desde 2012.