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Pra não chorar...

Censura


Presidente Jair Bolsonaro ameaçou de processo cartunista Renato Aroeira por charge que o liga ao nazismo. Chargistas explicam importância da linguagem do humor

Cartuns publicados no perfil do Instagram @SomosTodosAroeira - Foto: Reprodução/ Socialista Morena


Marcus Vinícius Beck


O humor é um antídoto contra o semblante do autoritarismo. Mas, ao longo da História, o discurso irreverente – temperado com a linguagem do deboche, do sarcasmo e da ironia – acostumou-se a conviver com as agruras alimentadas pela fúria dos déspotas. O que não chega a surpreender. Incapazes de conviver com o sistema democrático, a liberdade de manifestação do pensamento e da pluralidade de opiniões, eles escolhem os humoristas como os inimigos a serem combatidos. Não importa a época na qual praticam a mordaça. Na ditadura civil e militar, era Ziraldo, Henfil e mais uma penca. Hoje, a bola da vez é Renato Aroeira.


É um filme antigo, com enredo repaginado. Na semana passada, cartunistas brasileiros e de outros países se uniram contra a ameaça de processo do presidente Jair Bolsonaro ao chargista Renato Aroeira, do portal Brasil 247, e ao jornalista Ricardo Noblat, da revista Veja, que havia divulgado a charge em seu perfil no twitter. Essa é a terceira vez que Aroeira entra na mira de Bolsonaro. O ministro da Justiça, André Mendonça, anunciou que a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) iriam instaurar inquérito com base na Lei de Segurança Nacional, do regime militar, para investigar Noblat. Mais uma vez, o governo voltou atrás.


“Aroeira tem ao seu lado os cartunistas, os jornalistas, os democratas, os brasileiros humanistas de uma maneira geral e se transformou numa referência internacional. Bolsonaro será o lixo desta história”, analisa o professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e ex-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Augusto Schröder. Do ponto de vista da liberdade e da democracia, continua Schröder, a ameaça é perigosa. “Mas é apenas uma bravata de um ser impotente e delirante que pelos acasos da vida ocupa o posto mais importante do país e no momento mais delicado da nação”.


Criada no século 19 após a consolidação da Revolução Industrial, a charge é um gênero jornalístico opinativo que usa o escárnio para expressar à sociedade reflexões sobre o cotidiano. Seus anos de ouro no Brasil foram durante a ditadura, quando nomes como Jaguar, Ziraldo e Henfil escrachavam os militares nas páginas do extinto jornal O Pasquim, e foram parar no xilindró por isso. Ziraldo, inclusive, foi enclausurado no dia seguinte à edição do AI-5. O cartunista mineiro seria preso de novo em 1970, com o pessoal do Pasquim, por causa de uma intervenção de Jaguar no quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo.


"A charge historicamente, desde o tempo do Império no Brasil, serve como uma arma poderosa para crítica política e social. Em um país que até hoje grande parte da população é analfabeta ou tem dificuldade de acesso à informação, um texto desenhado tem a condição de alcançar um grande público, de forma mais democrática às vezes do que um editorial, por exemplo”, explica o ilustrador Heitor Vilela, acrescentando: “Então a charge, assim como a música, a pichação e demais manifestações artístico-culturais, foram e continuam sendo uma resposta ao autoritarismo e as forças que dominam o poder político e financeiro do país”.


Reação


De uma geração que convivia com a batuta dos fardados nas redações, o jornalista Celso Augusto Schröder – que foi chargista do jornal Correio do Povo, do Rio Grande do Sul, por muitos anos – sentencia: “A reação do Bolsonaro é típica dos ditadores caricatos que tentam impedir autoritariamente o cartunista de chamá-lo de autoritário. Bolsonaro é um arremedo de ditador que entrará para a história como o presidente que matou cem mil brasileiros por omissão e conspiração numa crise sanitária que exigia políticas públicas”. Schröder continua: “Neste momento de certezas delirantes e pensamento mágico o humor deve estar ao lado do conhecimento, da ciência, da filosofia, da inclusão, da diversidade, da democracia e da vida”.

“Em um país que até hoje grande parte da população é analfabeta ou tem dificuldade de acesso à informação, um texto desenhado tem a condição de alcançar um grande público, de forma mais democrática às vezes do que um editorial” - Heitor Vilela, ilustrador

O ilustrador Heitor Vilela vai pelo mesmo caminho. Idealizador da página Rabiscos e Escarros, Vilela acredita que “o humor é essencial para se fazer chacota dessa postura hipócrita por parte do lastimável presidente”. “Aquela clássica que sempre digo: quem se leva a sério demais, acaba se tornando a maior piada. Ou seja, tanto charges como esquetes teatrais e imitações na televisão, rádio e jornais, ajudam, com humor, a fazer a boa e saudável chacota sobre os desmandos e absurdos do risível presidente da República. Mas devo salientar que, apesar de ser uma arma importante, não devemos nos limitar apenas ao escárnio humorístico contra figuras fascistas que aparecem na política brasileira”, afirma o artista.


Assim como Bolsonaro, recorda-se o jornalista e sociólogo Renato Dias, o ditador Adolf Hitler – “um artista plástico medíocre” – detestava ser alvo de críticas do jornal Munchester Post. “O veículo de comunicação atacava o nacional-socialismo. O nome sofisticado do nazismo”, rememora. Autor premiado, com 19 livros-reportagens e oito documentários no currículo, o pesquisador conta que Joseph Stalin possuía “um verdadeiro favor” dos poetas que não lhe bajulavam. “Tanto é que mandou para os Gulags, Campos de Concentração da velha URSS, Ossip Mandesltam, poeta inventivo que ironizou o seu bigode, do suposto Guia Genial dos Povos”, narra. “Com Jair Messias Bolsonaro, a bola da vez é Renato Aroeira. Triste”, ele define.