• Marcus Vinícius Beck

Precisamos evoluir

Botequim Literário

Jennifer Aniston e Reese Witherspoon em cena da série 'The Morning Show', disponível na Apple TV+ - Foto: Apple TV+/ Reprodução



Tenho certeza que a indústria cultural e sua lógica machista são os principais responsáveis por não termos uma quantidade desejável de filmes e séries sobre assédio sexual no ambiente de trabalho, e os que abordam o assunto flertam com o grotesco ao evidenciar uma bizarra inversão de papéis. É o caso “Assédio Sexual” (1994).


Dirigido por Barry Levinson, o filme retrata a história de um ambicioso executivo que precisa lidar com sua nova chefe, que por coincidência também é sua ex-namorada (Demi Moore). Na primeira reunião a sós, ela avança sobre ele, e deixa explícito que a promoção do mocinho (Miguel Douglas) vai depender se vão ser amantes ou não.


Mas, vixe Maria, ele é um profissional bastião da ética e da boa conduta, sem falar – é claro – no maridão nota dez. Então a má caráter, esse tipo de gente sempre prejudica os bons moços, o denuncia por assédio à direção da empresa. Sacanagem!


Bem quixotesco, não?


Nós, machões que não dançamos, meu caro Norman Mailer, estamos longe de nos portarmos com decência ao ocuparmos cargos de chefia na firma. É um desastre.


Até o começo da década de 1990 o assédio era um tabu. O famigerado “teste do sofá” acontecia, e era considerado algo natural, um fato da vida, fazer o quê?


Hoje dificilmente um filme como “Assédio Sexual”, graças ao bom Deus, fosse produzido. E, mesmo assim, o tema ainda é pouco abordado no cinema e televisão, ainda que a campanha #MeToo tenha trazido à tona os casos de abuso no showbusiness americano, estampando as páginas dos jornais por aí com revelações sobre posturas repugnantes de patrões tóxicos.


Apesar disso, lembro-me de boas produções que têm como matéria-prima dramática chefes escrotões que adoram comemorar seus feitos com sexo roubado e fazem de tudo para destruir vidas. Talvez a mais famosa seja o longa “Escândalo”, obra que mostra os abusos cometidos por Roger Ailes, ex-chefão do canal de notícias Fox News.


Ainda sobre essa decrépita figura que enriqueceu à base da fábrica de mentiras de extrema direita que fundou, também há a série “A Voz do Mais Forte”, disponível no Globo Play. Dissimulado? Abusador? Assista e tire suas conclusões.


Mas o melhor exemplo é “The Morning Show”, lançada no ano passado pela Apple TV+. Em um primeiro momento, a produção se resumiria a mostrar a rotina de um telejornal matutino dos Estados Unidos, mas com os casos de assédio pipocando Jennifer Aniston e Reese Witherspoon, produtoras e protagonistas do programa, mandaram embora o roteirista-chefe – um homem – e contrataram uma mulher.


No primeiro capítulo da série, confesso que é um tanto curiosa a maneira como o personagem Mitch Kessler (Steve Carell) reage ao ser demitido por comportamento impróprio com as mulheres que trabalharam com ele. Garante, o pobre infeliz, que todos os relacionamentos que teve foram consensuais. Parece familiar, não é?


Mesmo soando incomodamente idêntico ao caso de Marcius Melhem, conforme revelou a Revista Piauí, por aqui ainda esse assunto não foi abordado pelo cinema e televisão. Tivemos, é verdade, uma ou outra produção aqui e ali, como “O Outro Lado do Paraíso” e “Malhação”. E nada além disso, porém. Precisamos evoluir.

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