• Rosângela Aguiar

Preservação dos acervos audiovisual é tema de debates e discussões durante o 17 CINEOP

Ouro Preto

Um dos encontros mais concorridos foi com a diretora executiva da Cinemateca Boliviana, Mela Marquez, proporcionando grande troca de informações

Seminário sobre Preservar, Transformar, Persistir - Foto: Nereu Jr./Universo Produção


Não basta produzir. Não basta exibir. É preciso preservar o audiovisual, que nos mais diversos materiais contém a história de um país, de um povo. E a Temática Preservação é um dos eixos da Mostra de Cinema de Ouro Preto.


Essa preocupação tem sido cada vez mais urgente em função da redução de recursos e, atualmente, menos importância no que se refere à políticas públicas, em especial as federais. Um exemplo mostrado no seminário Encontro de Arquivos é a Cinemateca Boliviana, uma fundação cultural privada, sem fins lucrativos mas com vocação pública, uma vez que preserva o direito do cidadão à memória do país.


“É um exemplo para todos que trabalham com preservação de acervos analógicos e digitais, dentre outros”, comentou Marcos Saboia, coordenador da Cinemateca de Curitiba. A instituição é municipal e há 43 anos vem preservando a história da região e, como as demais cinematecas do Brasil, vive aos trancos e barrancos, em uma luta inglória para manter os acervos existentes.


A Cinemateca Boliviana se converteu recentemente em Centro Audiovisual e Cultural e, além de manter e conservar todo o acervo fílmico, tem trabalhado no sentido de incentivar, estimular, colaborar, participar e apoiar projetos voltados para a arte cinematográfica. Um exemplo a ser seguido, mas como, em um país que não valoriza a memória e a cultura? Este é um dos maiores questionamentos e preocupações de quem trabalha com preservação de acervos.


Encontros de Arquivos como realizado durante a 17a CINEOP permite a troca de informações, de experiências, tecnologias entre os participantes. “As dificuldades não são somente a financeira, mas de novas técnicas de preservação, que a Cinemateca Brasileira era perita. Aqui a gente encontra pessoas que estavam até escondidas fazendo o mesmo trabalho e a gente pode trocar experiências, técnicas e tecnologias”, comenta Marcos Saboia.


O coordenador da Cinemateca de Curitiba alerta para as dificuldades existentes hoje na preservação dos arquivos digitais, cuja tecnologia muda quase na velocidade da luz. “É um problema porque demanda muito dinheiro, equipamentos e tecnologias, porque tem que estar migrando o tempo todo, e é tudo muito frágil, complicado e ainda não existe uma técnica para isso”, explica. Marcos Saboia reforça a importância do trabalho que era realizado pela Cinemateca Brasileira.


Cinemateca Brasileira e seus desafios

Seminário sobre Memória audiovisual brasileira - Foto: Nereu Jr./Universo Produção


Em outro encontro da Temática Preservação, a discussão girou em torno da “Memória audiovisual brasileira: resistência e resiliência”, onde a personagem central foi a Cinemateca Brasileira, que nos últimos anos passou por alagamento e incêndio.


Os desmandos, desacordos e o abandono da instituição promovidos pelo atual governo, que levou a ficar fechada entre agosto de 2020 e novembro de 2021. “Todos nós sabemos que, no Brasil, a história vive entre altos e baixos, principalmente na cultura e na arte. E obviamente a Cinemateca não poderia estar fora disso”, disse Maria Dora Mourão, atual diretora geral da Cinemateca Brasileira.


O processo de recuperação da Cinemateca Brasileira tem sido lento e um grande desafio para a preservação do grande acervo existente na instituição. O incêndio ocorrido em julho de 2021, na sede da Vila Leopoldina, quando a Cinemateca estava fechada foi um baque para todos.


“O incêndio causou a perda de 224 cópias de filmes estrangeiros armazenados no depósito, das pouco mais de 300 existentes; 200 rolos de filmes produzidos no curso de cinema da ECA-USP; parte do acervo documental do Tempo Glauber; e arquivos de órgãos públicos do audiovisual do Brasil, como o Instituto Nacional do Cinema, Concine e Secretaria do Audiovisual”, relembrou, com tristeza, a diretora da Cinemateca Brasileira.


Hoje a Cinemateca Brasileira é um exemplo de resiliência e resistência, enfrentando o desafio de continuar o trabalho de levantamento e catalogação de material, retomada de processos, análises técnicas, restaurações, atendimentos, atividades para o público e sessões de cinema.


A Maria Dora Mourão assumiu a direção da Cinemateca graças ao contrato de cinco anos entre governo e a Sociedade Amigos da Cinemateca - SAC, porque se dependesse do atual governo estaria fechada para sempre, uma vez que cultura e arte não fazem parte das ações do Governo Federal. A atual diretora tem que trabalhar com um orçamento anual direto de R$ 14 milhões e a captação de um adicional de R$ 5,6 milhões, valores muito abaixo do necessário para recuperar e tocar a instituição.


“É o mínimo, pelo menos, para a manutenção de alguns projetos”, conta Maria Dora. A Cinemateca Brasileira foi fundada em 1946 pelo crítico de cinema e professor Paulo Emílio Sales Gomes e se tornou um símbolo da preservação do audiovisual no Brasil, bem como um celeiro de tecnologias e ações de preservação.





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