• Júlia Aguiar

Que a terra lhe seja livre, Ferlinghetti

Literatura

Morre aos 101 anos, o poeta, escritor e sonhador anarquista Lawrence Ferlinghetti, considerado o pai do movimento beat

Ilustração: Filipe Aca


“A última vez que ela viu Paris quando cantaram aves belas foi de um trem expresso que seguia para o sul em 1968 nos dias da revolta estudantil”, escreve Lawrence na abertura do livro “Amor nos tempos de fúria”, lançado em 1988.


Morre nessa terça-feira (22), aos 101 anos, o grande sonhador anarquista e poeta Lawrence Ferlinghetti. Em suas linhas doces, aprendi que a revolta é também movida pelo amor.


Conheci o pai do movimento beat durante a “primavera estudantil” de 2016, o momento não poderia ser mais propício: vivíamos o sonho utópico e revolucionário do movimento estudantil contra o fascismo capitalista. Em “Amor nos tempos de fúria” encontrei conforto para minhas angustias em um momento que eu acreditava ter perdido a esperança, quando o sufoco já não cabia mais em meu peito ou em minhas próprias linhas poeticamente tortas.


Ah, meu caro poeta, como bebi de suas poesias para reencontrar o amor que só a liberdade anarquista consegue nos prover... Quando lhe conheci, sonhava em um dia te entrevistar, lhe contar como também uso de minha sensibilidade mágica para construir o sonho de uma terra livre de amarras.


Assim como você, acredito que a Terra tenha um espírito pulsante. Em seus poemas descobri que não estava sozinha em minhas maluquices ideológicas, me lembro perfeitamente de como seus versos me fizeram acreditar que o amor pode verdadeiramente mudar o mundo.


“E estou à espera

que a Era da Ansiedade

caia morta

e estou à espera

duma guerra que virá

preparando o mundo

para a anarquia

e estou à espera

da decadência definitiva

de todos os governos

e estou perpetuamente à espera

de um renascimento do maravilhoso [...]” – Trecho retirado do poema “Estou à espera”


Meu caro poeta, que a terra lhe seja tão livre quanto sua mente. Prometo que a juventude que fica ainda luta e resiste em busca da liberdade dos povos – tão sonhada por você e por mim. Também estou à espera. Eternamente em busca do recomeço tão almejado.


Atualmente sobrevivemos a tempos tenebrosos, especialmente no Brasil, uma guerra se aproxima. O motivo? Justamente a decadência dos poderes vigentes. Suas linhas são proféticas, meu caro.


Nascido em 24 de março de 1919, Ferlinghetti se formou jornalista em 1941 e serviu na II Guerra Mundial. O poeta era um estudioso, fez mestrado na Universidade de Columbia e doutorado em Sorbonne.


Fico imaginando a sensação que o jornalista teve, lá em 1956, ao observar de relance a alma do poeta libertário Allen Ginsberg enquanto timidamente recitava parte do poema “Uivo” na famosa livraria e editora independente “City Lights”. No mesmo ano, meio a efervescência cultural de São Francisco, Ferlinghetti decidiu publicar o livro “Uivo e outros poemas”, causando inclusive estrondoso sucesso, vendendo mais de meio milhão de cópias.


Mas, Lawrence não era como seus amigos do movimento beat: Jack Kerouac, Allen, William S. Burroughs ou Neal Cassady. O poeta anarquista acreditava em uma vida harmoniosa, sem muitos exageros, não bebia, se locomovia somente de bicicleta e nadava todos os dias – não é atoa que ele morreu aos 101 anos!


Ferlinghetti era doce e via a genialidade dos poetas que apareciam em sua editora independente sem julgamentos, ele era conhecido por ser um grande editor e acima de tudo: um libertário! Ele enfrentou o status quo literário norte-americano com exímia coragem, não tinha medo dos versos pulsantes dos escritores malditos de sua época.


Meu caro poeta, sua coragem literária estará marcada nas páginas da história. Que sua volta ao útero da Terra seja libertária, o céu com certeza está em festa e agora você pode desregrar os sentidos com seus queridos amigos, que partiram dessa realidade complexa tão cedo. Que sua vida no lado de lá seja tão grande quanto você foi aqui.

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