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Música


Com 40 anos de carreira e 65 de idade, a rainha do soul brasileiro, Sandrá de Sá, tem pérolas lançadas nas plataformas digitais


Obra da cantora Sandra de Sá transita entre a brasilidade e a black music americana - Foto: Beto Gati/ Divulgação


Marcus Vinícius Beck


Extra, extra, extra: Sandra de Sá é a verdadeira diva do soul brasileiro. Com 40 anos de carreira e 65 de idade, a cantora consolidou-se no panteão das gigantes da nossa música. E não é pra menos: Sandra canta, Sandra encanta, Sandra ama... Porque ama a música, a arte e o groove dançante da black music. Seu som, uma torrente poética e harmônica capaz de revitalizar os sentimentos mais puros da vida, ressoa como as onomatopeias do desejo balbuciadas por um casal impulsionado pelas peripécias eróticas numa noite de volúpia embriagada pelo bálsamo da sensualidade. Por isso, vamos dar play, e com o volume da excitação nas alturas.


O privilégio de deleitar-se na boa música encontra na Sony Music Brasil uma companheira importante. Para comemorar as quatro décadas de carreira da diva do soul, a gravadora disponibilizou nas plataformas de streamings três álbuns, um compacto e quatro compilações. Trata-se, isto sim, de uma ação que tem como objetivo tornar a discografia de Sandra inteiramente digitalizada, restaurando tapes analógicos e projetos gráficos originais. Agora, além dos discos que já estavam disponibilizados, gravados na extinta RCA/BMG (hoje Sony Music), entram no catálogo “Sandra de Sá” (1988), “Sandra!” (1990) e “Lucky” (1991).


Esses três discos são acrescidos de um compacto de 1986 que conta com a balada “Entre Nós” – um duo com o cantor e compositor Michael Sullivan – no lado A e no B a música pop instrumentalizada “Love Time”, do grupo Clock. Também ganharam versão digital as coletâneas “O Melhor de Sandra de Sá” (sua primeira compilação de sucessos, lançada em 1989) e os volumes das séries “Acervo” (1993), “Focus” (1999) e “RCA – 100 anos de música” (2001). São frutos da fase de maior sucesso de Sandra, que veio após sua estreia no Festival MPB 1980, da Globo, responsável por alçá-la a representante da cultura Black Rio.


Depois de assinar contrato com a RCA, a carreira da cantora deu uma guinada e houve um salto em sua popularidade. Então o diretor artístico da gravadora, Miguel Plopschi, junto com a dupla de compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas, embalado com o toque elegante do arranjador Lincon Olivetti, empurraram-na ao estrelato. E ele não demorou muito para chegar: no mesmo ano, a cantora lança o LP “Sandra Sá” (1986) e é elogiada pela crítica e público. Em 1988 muda de nome, passando a ser chamada de Sandra de Sá e faz um disco homônimo, que dava sequência ao trabalho anterior. Era a continuação de um grande estrondo.


Neste disco, Sandra brilhou na balada “Amanhã” num dueto bilíngue com o estadunidense Billy Paul, considerado um dos expoentes mais importantes da soul music. E do suingue dançante desse disco, há músicas que merecem ser redescobertas pelo público, como “África” (Gil Gérson/ César Rossini), “Cartão Vermelho” (de Renato Barros e Clarice Pinto), “Ninguém Tem Culpa” (Júnior Mendes/ Sandra de Sá) e “Calibre Grosso” (Efson/ Odibar). “Sandra de Sá” conta ainda com a participação dos Titãs. De tribos musicais diferentes (eles do rock, ela do soul), gravaram “Tempo”, um presente de autoria de Arnaldo Antunes e Paulo Miklos.


Eclético


“Sandra”, LP lançado em 1990, é o melhor disco de Sandra de Sá. De seu repertório, Sandra botou no topo das paradas a balada “Quem é você”, uma versão do jornalista e compositor Nelson Motta para o clássico “Love Will lead you back”, da cantora Diane Warren, música originalmente gravada por Taylor Dayne. A versão à brasileira integrou na trilha da novela “Mico preto”, da Globo. Mas o disco é muito além do single: há duas pérolas do mestre do soul Cassiano (“Cinzas” e “Slogan”, que contou com uma participação de Djavan e Marina Lima). Tem também a recriação de “Charles, Anjo 45”, de Jorge Ben Jor, um reggae gostosinho.


Já “Lucky” (1991) possui repertório com textura sonora, por assim dizer, pop vanguardista e romântico-popular. Obra do músico Renato Rocket, a faixa-título – um funk-rap que tinha apenas nomes de mulheres – é a definição sui generis de ousadia estética. O disco teve ainda a participação para lá de especial do cantor Tim Maia, em “Não Tem Saída” (Augusto César/ Paulo Sérgio Valle), e deLobão na música “Mais do Mesmo”, da Legião Urbana. Sandra criou também uma releitura singular de “Blues da Piedade”, obra da dupla Frejat/ Cazuza. Achou que acabou? Calma, tem ainda “Contrato Assinado”, sucesso radiofônico do disco.


Dos trabalhos mais marcantes de Sandra de Sá, os três discos digitalizados pela Sony ganham mais um pouco de sobre-vida e fica disponível para os amantes da soul music. Sandra, com seu vozeirão característico, embelezou na década de 1980 a música brasileira com um som que bebia na fonte do funk-soul americano. Mas ela fez isso com uma propriedade que talvez apenas o mestre-mor Tim Maia tenha feito. Por isso, a obra da cantora se faz cada vez mais necessária e, portanto, o lançamento ocorre numa hora adequada. A memória da música pop brasileira diz obrigado a iniciativa da gravadora. Viva Sandra de Sá. Vamos ouvi-la.