• Lays Bárbara

Reeleição de Bolsonaro

Costumes

Auxílio emergencial não é garantia para eleição em 2022, porém eleitorado cativo à Bolsonaro segue firme

Foto: Pedro Ladeira - 18.03.20/Folhapress


Em pesquisa publicada em agosto pelo Datafolha, vimos a melhor avaliação do atual ocupante do executivo desde o início do mandato, com 37% considerando o governo ótimo ou bom e a curva de rejeição passando de 44% para 34%. O índice de brasileiros que consideram regular bateu 27%.


Pesquisas realizadas por telefone, como as do Datafolha, são bastante questionadas por cientistas políticos especializados em metodologia, sendo necessário uma análise mais aprofundada e robusta antes de se interpretar tais dados, que podem ser enviesados. Outro fator analisado - já que de fato, mesmo com altos e baixos, houve sim aumento da aprovação - é o auxílio emergencial, sua prorrogação e a manutenção do Bolsa Família.


Muito se diz de este ser o motivo do aumento da aprovação, com a postura de defesa e manutenção do auxílio, inclusive gerando atritos entre Bolsonaro e Guedes, teria já um intuito eleitoral, de reeleição. Mas, será que só isso explica o aumento? E aquela parte do eleitorado que não abre mão do apoio ao Presidente, desde o início, mesmo com uma gestão desastrosa da pandemia, aqueles que sempre mantiveram ali na casa dos 30%? Tais auxílios sociais por si só reelegeriam Bolsonaro?


Claro que isso conta e é eficiente em termos de popularidade, mas por que temos a sensação de que problemas sérios, como: as rachadinhas, Queiroz, denúncias envolvendo os filhos do presidente, cheque caindo na conta da primeira dama, dinheiro que era para comprar teste do novo coronavírus indo parar em programas ligados a instituições religiosas ligadas a Damares (grande amiga de Michele Bolsonaro), denúncias de ligação da família com milícias no Rio de Janeiro, irresponsabilidade em lidar com a pandemia (bastante escancarada com a recente publicação de livro pelo ex-ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta), o desastre total com a questão ambiental, etc (porque a lista é gigante); não atingem fortemente a popularidade e os níveis de aprovação?


Auxílio emergencial e aliança com o centrão são “pontos positivos” para o atual governo, mas quero aqui tocar em um tema que, assim como foi decisivo em 2018, também o será em 2022, quiçá, será o ponto fulcral para uma reeleição. E pior, a esquerda, tentando reagir e combater a barbárie bolsonarista, escancara fatos e dados relacionados a corrupção, economia e meio ambiente, mas ataca com receios tal ponto: a pauta de costumes.


O leitor pode achar que isso não tem tanto peso, mas tem muito. Uma das figuras que representa bem isso é Damares Alves. Para quem assistiu ao último pronunciamento de Jair Bolsonaro (sem partido) na Assembleia Geral da ONU, para além das diversas mentiras proferidas (e já amplamente combatidas), gostaria de chamar a atenção para os minutos finais do discurso, quando inicia o tema da liberdade religiosa (liberdade para quem e para qual religião?) e o que veio após, a existência de uma suposta cristofobia.


O então presidente afirmou que “o Brasil é um país cristão e conservador e tem na família a sua base”. O discurso agradou aos militares e outros grupos apoiadores. O que se escreve nas entrelinhas de suas últimas palavras é a defesa e reafirmação justamente da pauta de costumes. Você pode achar que existem ou que você conheça muitas pessoas que votaram 17 em 2018 e depois se arrependeram, mas talvez essa seja uma falsa sensação, até porque muitos são youtubers e pequenas celebridades. Não fique preso a sua esfera ou ao que você supostamente vê como realidade nas suas redes sociais. A discussão sobre valores e costumes, especialmente os ligados a gênero e sexualidade, ainda é forte nos mais diversos grupos sociais, não só nos evangélicos fervorosos.


Em 2018, Eliana Brum publicou um texto no El Pais sobre a então greve dos caminheiros, a eleição de Trump, o discurso de intervenção militar e apoio a Bolsonaro. Segundo ela, há todo um universo simbólico nessa discussão que precisa ser mais observado. Há uma “masculinidade ameaçada pelo crescimento do protagonismo das mulheres e das pessoas LGBTs. Ameaçado, por um lado, pela perda da renda e pela precarização do trabalho, e, por outro, pela mudança dos costumes [...]. É menos um anseio pela volta da ditadura – e mais um desejo de viver num mundo cujos códigos possa reconhecer, num momento em que se sente empobrecido, desprestigiado, sem lugar e sem perspectivas, e com as rodas atoladas em areia movediça”. Até hoje a maior parte do eleitorado de Bolsonaro é de homens, com quase 60%.


Para o doutorando em Sociologia no IESP/UFRJ, Ian Caetano, a resiliência da atual aprovação presidencial, onde 33% do total se configura como um eleitorado cativo, afasta os questionamentos sobre a sua índole, por exemplo, mais fortes do que os usados para com a ex-presidenta Dilma Rousseff. Logo, questionemos o porquê desse presidente ainda estar aí, com esse poio e de onde este vem, já que a economia, por exemplo, claramente não vai bem, desde antes da pandemia.


A hipótese do estudioso justamente se concentra na pauta sobre os costumes. Ele crê que Bolsonaro conseguiu desenhar uma figura estilizada do que é o brasileiro em seu tom mais cru e, nesse sentido, a esquerda peca aqui em apontar excessivamente o que as pessoas deveriam ou não pensar. Os abusos, ressalta Ian, de machismo, homofobia, etc é absurdo e deve ser combatido, mas para que se combata isso deve haver noção tática. O que não aconteceu, e a perda de apoio popular veio. As pessoas com dilemas culturais, como legalização do aborto e drogas, não têm grande aceitação de defesas entusiasmadas dos temas.


Para Ian, do ponto de vista dos costumes, Bolsonaro encarna uma posição de não mudança, mudanças vem e amedrontam as pessoas, a conservação do que se tinha, do que é seguro e conhecido é preferível. Um exemplo geral: homem é homem e mulher é mulher, é isso, é natural. Nesse sentido, caberia a esquerda pensar formas mais escalonadas de desconstruir esse entendimento da população em geral.


Ian não afasta os interesses de grupos econômicos no atual governo, como o agronegócio e os banqueiros, que patrocinaram sua campanha e estão se dando bem com as medidas do executivo e Paulo Guedes. Mas, o que sustenta de fato, ainda mais frente a tantos escândalos e falhas, é justamente enxergar em Bolsonaro aquilo que, a população média brasileira, acredita em termos de costumes. Estes últimos se configuram como um aspecto estrutural, complementando o aspecto conjuntural do auxílio emergencial, afirma o sociólogo.


Um fato que ilustra bem essa discussão é a indicação presidencial de Kassio Nunes Marques para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF). Não se enquadrando no perfil de “terrivelmente evangélico”, a indicação gerou rachas e críticas dentro dos bolsonaristas, a exemplo das críticas públicas que o pastor Silas Malafaia fez a atitude de Bolsonaro indicar Kassio Nunes (esta última muito por conta de uma necessária governabilidade). A atitude de Malafaia representa o descontentamento pela indicação não ser de uma pessoa que simboliza a direita conservadora e adote um programa judicial ultraconservador, limitando liberdades individuais, por exemplo, e que conteste o caráter laico do estado brasileiro.


Com o fim do auxílio, em dezembro, devemos prestar atenção a como o apoio resiliente irá se desenrolar. Fazer previsões para as próximas eleições nesse momento é algo que cientistas sérios evitam. Ainda faltam dois anos e muita coisa pode acontecer até lá. Mas, as chances de uma reeleição são bem reais e, até o momento, nenhuma força do campo progressista se mostra um impeditivo para tal. As eleições municipais serão um bom termômetro para tal conjuntura. É necessário darmos atenção a pauta dos costumes se realmente quisermos combater a extrema-direita que está aí.