A representatividade negra na dramaturgia

November 13, 2019

Reportagem

“Eles acham que ter dois negros na companhia já é o suficiente”, afirma a atriz Danielly Milena sobre os grupos de teatro

 Al Jolson usando blackface em The Jazz Singer

 

Você vive em meio a centenas de pessoas que possuem, em sua maioria, dois braços, duas pernas, uma boca, dois olhos, a habilidade de se comunicar e expressar suas emoções. Elas vivem e morrem, sofrem e se alegram, são todos humanos. Porém, existe algo que paira sobre suas cabeças e dificilmente passa despercebido. Ao olhar a propaganda você não se enxerga no personagem que está representando, os filmes parecem ser alienígenas para sua realidade, ainda mais quando eles retratam a sua, mas sem você inserido. Esse é o caso para milhões de brasileiros que não se enxergam representados na publicidade, cinema e na dramaturgia como um todo.

 

“Se quiser colocar um preto no meu comercial, saia daqui e monte sua própria agência de marketing.” Foi o que ouviu o publicitário negro Carlos Augusto de Miranda e Martins de seu chefe. Esse relato foi dado em uma palestra na Universidade São Judas em 2016, quando falava sobre sua pesquisa: Racismo anunciado: o negro e a publicidade no Brasil (1985 – 2005.) Outro dado apontado na pesquisa de Carlos é que de 1985 até 2005 a presença do negro aumentou de 3% para 13%, o que não é para se comemorar, mesmo com o aumento deste espaço os papeis que os negros acabam desenvolvendo neles, não somente na publicidade, mas como também em outros setores como dramaturgia e cinema, são como cargos de servidão. São dados que não refletem a realidade de um país que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2015 54% da população se declara negra. Mas ainda assim, não encontram espaço dentro da indústria.

 

Um dos casos recentes que retrata muito bem esse assunto foi o da escalação do elenco da novela ‘Segundo Sol’, que se passou  numa cidade fictícia próxima de Salvador, na Bahia. O estado é conhecido como a capital negra do Brasil que segundo dados do IBGE de 2017, oito em cada dez moradores se declararam da cor negra. Ou seja, das 2.954 milhões de pessoas que viviam na cidade aquele ano, 2.425 milhões eram negras, 82,1% da população local. Dos 26 atores e atrizes que participaram da novela, apenas três eram negros, e somente um deles, o ator Fabrício Boliveira aparecia nas chamadas divulgadas pela emissora.

 

“Eu acho que eles trabalham por cotas, eu brinco, porque parece! Se você pega grupos de teatro eles geralmente tem dois negros, eles falam como se fossem o grupo mais desconstruído que existe! Eu tenho um problema atualmente que é essa questão de representatividade, que de certa forma é muito falsa”, afirma a atriz e dançarina Danielly Milena.

 

Segundo ela, as pessoas acham que com alguns negros na companhia já é suficiente abordar temas sobre negros e desconstrução. “Eles ficam montando peças já prontas, e no imaginário já tem a imagem dos papeis, e essas pessoas sempre vão ser brancas”.

 

Já para a estudante de jornalismo Rayane Moura, “Todos nós sabemos que Salvador foi à porta de entrada dos escravos no Brasil, foi construída por escravos, ou seja: a cidade tem de maioria negra, como uma novela que se passa nessa cidade tem só três personagens negros? Isso não entra na minha cabeça, eles querem passar outra visão da cidade para o resto do Brasil e apagar os negros de Salvador, coisa que nunca vão conseguir. Podem tirar da novela, mas se você for hoje à Bahia, será recebido por um negro no aeroporto.”

 

Existe uma dissonância narrativa para com a população, que começa a ver com estranheza esse mundo vendido para elas, um que não reflete quem elas são, os seus sofrimentos, dores e angústias. É um produto alienante que busca invadir a mente e implantar a ideia de que você é o errado, o que mostramos que é o certo. Uma distopia digna de George Orwell.

 

 

O Cantor de Jazz

 

Adelaide, Personagem do antigo Zorra Total interpretado pelo humorista Rodrigo Santanna - Reprodução

                  

Nos Estados Unidos existe o termo whitewashing (white = branco e washing = lavar), que é utilizado para descrever as práticas do cinema americano relacionado à escalação de atores brancos para papéis que, originalmente, eram de personagens negros, asiáticos ou latinos, caracterizando-os de forma caricata e estereotipada.

 

Alguns exemplos dessa prática podem ser vistos no filme “O Cantor de Jazz” no que o ator branco Al Jolson interpreta o personagem Jakie Rabinowitz, um cantor de jazz negro. Nessa obra, além de utilizar um ator branco para um protagonista negro, cheio de estereótipos racistas dos anos 20, eles se utilizaram de outra técnica infame: o blackface (black = preto e face = rosto) o que nos remete à questão de representatividade. Durante o século XIX os negros eram proibidos nos Estados Unidos de participar de peças de teatro, assim, os brancos para representar personagens de outra etnia se pintavam com carvão e usavam batom vermelho, criando um quadro racista e estereotipado.

 

Esses dois termos não são muito utilizados no Brasil. Porém, podemos aplicá-los em diversas situações que encontramos nestes meios. Whitewashing de uma região inteira do país, em ‘Segundo Sol’ e blackface de personagens que representam uma parcela mais pobre da população, como Adelaide, personagem do antigo Zorra Total interpretada pelo humorista Rodrigo Santanna. 

 

Segundo a atriz Thais Lima Correa, ao procurar testes de curtas, por exemplo, há muita procura por atores/atrizes padrão, branca de olhos claros. “Eu me imagino não conseguindo papéis tão grandes por esse fato, como papéis de elite ou papéis de dona de uma loja, por exemplo, mas sim, a empregada dessa loja, que talvez além de sofrer algum tipo de preconceito por ser negra, e também sofreria por ser empregada.”

 

                                             

A Cor das Novelas

 

 

Sergio Cardoso e Ruth de Souza em A Cabana do Pai Tomás - Reprodução

 

Viola Davis fez história no Emmy após se tornar a primeira mulher negra ao receber o prêmio de “Melhor atriz em drama”. Ela ressaltou a importância da mulher negra na indústria cinematográfica e televisiva. “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade”, disse a atriz ao público na noite da premiação.

 

No Brasil, o primeiro grande sucesso de audiência de uma telenovela viria a ser com O Direito de Nascer (1965), produzida e televisionada pela TV Tupi, marcando a ascensão do gênero. Segundo Joel Zito Araújo, cineasta e pesquisador mineiro,  na sua obra A Negação do Brasil, naquela época a mulher negra era representada regularmente como escrava ou empregada doméstica. Como no caso da atriz Isaura Bruno, interpretando a personagem mamãe Dolores, que representava uma “grande mãe”. Apesar do sucesso com a novela, a atriz conseguiu poucos papéis em sua carreira, foi a primeira personificação da Tia Nastácia da obra de Monteiro Lobato na Televisão e em algumas outras poucas novelas. Porém, morreu pobre e esquecida em 1977, época que vendia doces na praça da Sé para sobreviver.

 

A primeira mulher negra a protagonizar uma telenovela foi Ruth de Souza em “Passos dos Ventos” pela Rede Globo em 1969. No mesmo ano protagonizou outra novela de emissora  “A Cabana do pai Tomás” e acabou causando desconforto na audiência. Foram tantas as críticas feitas na época que acabaram tirando o nome da atriz dos créditos. Foi a primeira produção a contar com um personagem principal negro, porém, por conta de pressão dos produtores, ele foi interpretado por um ator branco em Blackface. 

 

No mesmo ano foi a vez do ator Zózimo Bulbul de brilhar como protagonista na novela “Vidas em Conflito”, da falecida TV Excelsior, se tornando o primeiro, e até o momento, único negro protagonista no horário nobre. Foi somente em 2004 que a Rede Globo de Televisão lançou sua primeira novela protagonizada por uma protagonista negra. Foi em  “Da cor do Pecado”, estrelada por Taís Araújo. Taís também foi a primeira mulher negra a ter o papel principal em uma novela brasileira, em 1996, com “Xica da Silva”, da TV Manchete. 

 

Um país de maioria negra limita seus papéis na dramaturgia a uma população branca, não abrindo espaço e oportunidades para que os negros possam ocupa-los. E quando isso ocorre, são chamados para interpretar papéis estereotipados como escravos, empregadas e criminosos

 

Ser empregada, garçom ou um gari não é o problema, assim como não é motivo de fazer estes trabalhos parecerem menos importantes, nenhum trabalho é. O que estamos discutindo aqui é o porquê de sempre serem esses cargos, os de servidão, que são delegados para atores e atrizes negras? Vimos anteriormente que o último ator negro que compôs o elenco principal de uma novela em horário nobre como protagonista foi em 1969, e isso já faz quase cinquenta anos. 

 

Seu Jorge em cena da série Irmandade da Netflix - Reprodução

 

“Para se entender um pouco a parca representatividade negra em produtos culturais e artísticos – excetuados pelas chamadas manifestações folclóricas populares – precisamos, antes de tudo, compreender o modelo de sociedade pensado para o Brasil no século XIX. Mais precisamente a partir de 1808, com a chegada da família real portuguesa, quando o país deixou de ser uma plantation, uma fazendona voltada ao enriquecimento da metrópole – a Portugal – para se tornar uma nação. O modelo pensado é: um país de cultura eurocêntrica, de economia escravocrata, com padrões comportamentais e estéticos inspirados basicamente em Paris”, afirma Oswaldo Faustino, jornalista e estudioso de questões étnico-raciais. 

 

Segundo ele, “o que a maioria desconhece é que, mesmo nos primeiros séculos de existência do Brasil colonial, a presença negra nas artes e na cultura, era imensa. O escravizado africano trouxe consigo conhecimentos artístico-culturais bastante avançados, no limite, muitos foram responsáveis pelo entretenimento fascínio artístico de senhores e agregados. O que ganhou o nome de folclore, manifestações da religiosidade brasileira da época, com seus congados, maracatus e demais manifestações quer africanas quer sincretizadas, foi se tornando, pouco a pouco, uma base para o que viriam a ser as artes dramáticas, iniciadas de maneira mambembe, nos picadeiros circenses”.

 

Para Oswaldo, o avançar do tempo não afastou os negros somente dos palcos, “mas também de qualquer espaço de representatividade. Com a possibilidade de contratação de companhias europeias, a sociedade passou a seguir definitivamente seus modelos de arte dramática e estabeleceu os fenótipos de cada tipo de personagem, com a quase que absoluta ausência de negros e negras. A não ser para papeis servis. Do teatro para o cinema e deste para a televisão, segue-se a tradição.”

 

                                             

Hoje, segundo ele, “se um autor não descrever um personagem masculino ou feminino como afrodescendente, ou um diretor de arte de agência publicitárias determinar que o personagem da peça publicitária é negro ou negra, nenhum diretor contratará uma pessoa de origem afro para viver tal papel”.

 

Serviços de streaming como a Netflix encontram nesse nicho uma forma de desenvolver trabalhos originais voltados para o público negro, séries como “The Get Down” e “Dear White People” como exemplo, eles buscam trazer para esse público aquilo que eles não têm na televisão aberta: representatividade. Esse tipo de serviço, no entanto, ainda esbarra em uma barreira socioeconômica, uma vez que não chega a todas as pessoas na mesma intensidade que programas da TV aberta. 

 

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