• Lays Vieira

Ressignificando o cozinhar: afetos, memórias e palavras não ditas

Crônica

Qual a relação entre a comida e a antropologia? Descubra no texto da cientista política e jornalista Lays Vieira

Foto: Site Portal do Rancho/Reprodução


O projeto civilizatório do capitalismo cooptou e ressignificou a natureza de muita coisa, colocando-as em hierarquias e confinando-as a aspectos ou lugares específicos. Uma dessas coisas é o cozinhar.


Calma, isso não é um texto para falar que cozinhar é uma arte (mas, particularmente, também considero) ou para “cagar regra” se você compra comida pronta ou congelada e também não é para falar que você deveria cozinhar. Esse texto é sobre os aspectos antropológicos da comida e como o ato de cozinhar traz em si afetos. Assim, dentro dessa lógica, para uma pessoa como eu que sempre teve dificuldade em demonstrar afeto, cozinhar para alguém pode dizer muito mais do que palavras que eu profira.


Aqui, primeiramente é importante destacar a diferenciação entre comida e alimento que, por exemplo, o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta faz: alimento está ligado a nutrição, é o que o indivíduo ingere para se manter vivo; mas, nem todo alimento é comida; a comida possui aspectos socioculturais e simbólicos, é cultural, traz consigo memória, comensalidade (camaradagem), afetos, ela ajuda a situar uma identidade e definir um grupo, uma classe, uma pessoa. Comida não é só uma substância para se alimentar ou um mantimento transformado pela culinária. Comer proporciona uma relação de intimidade do ser humano com seu corpo (o que se ingere) e do ser humano com outros seres humanos, envolvendo todo um processo psicossocial e a criação de vínculos. Cozinhar e comer oferecem vínculos e o dividir de um prazer, que a correria e a sociabilidade capitalista nos fazem constantemente esquecer.



DaMatta vai defender que comer é mais que apenas um ato de sobrevivência; é simbólico, cultural, afetivo e carrega memórias. Quando o cheiro do café ou o cuscuz te traz uma lembrança distante da infância ou a tapioca te remete à algum momento bom, você sente um calor no coração. Cozinhar pode trazer hospitalidade, estreitar relações, demonstra cuidado e é uma forma de ser recepcionado, incluído, inserido, é uma forma não dita de valorizar um ao outro.


Há anos eu ressignifiquei o ato de cozinhar. Confesso que não gostava muito dele, pois foi-me apresentado dentro da lógica hierárquica de gênero. Mas, em dado momento eu percebi que poderia ser uma prática para me acalmar em momentos de estresse e angustia.

Algum tempo depois, já tendo contato com uma perspectiva antropológica eu dei uma nova significação: justamente construir afetos e memórias. Lavar, picar, refogar...música tocando...conversa jogada fora...E eu não me refiro a usar disso enquanto uma arma para conquistas, mas de fazer dessas práticas uma constante nas relações com os outros. Acordar, fazer um café, assar um pão de queijo e oferecer a alguém.


Há milhares de formar de demonstrar sentimentos. Nem todo mundo demonstra da mesma forma, nem todo mundo diz com palavras. Cozinhar pode ser uma forma não dita de demonstra-los.

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