• Marcus Vinícius Beck

Retratos da destruição

Resenha

Exibido na Mostra Aurora do Festival de Tiradentes, longa mostra como a urbanização desenfreada expulsa população vulnerável da cidade

Cena do filme "Subterrânea" - Foto: Reprodução/ Mostra de Tiradentes


Gostei do longa-metragem “Subterrânea”, do cineasta Pedro Urano e exibido na Mostra Olhos Livres em Tiradentes, por uma razão simples: é um murro desferido no meio da face destrutiva do capital e seus abusos urbanísticos. Sim, estamos falando de um cinema comprometido em mostrar o lado obscuro do capitalismo. Ainda bem.

“Subterrânea” olha para a origem do Rio de Janeiro da maneira como a Cidade Maravilhosa é conhecida pelo Brasil por meio do arrasamento em 1922 pelo prefeito Carlos Sampaio. A desculpa do mandatário era que o espaço localizado no centro – e palco de crônicas escritas pelo jornalista Lima Barreto – estava em decadência.


Além disso, Sampaio acreditava que existiam no lugar lendas urbanas sobre galerias subterrâneas nas quais os jesuítas escondiam tesouros. O caso do Morro do Castelo, simbólico para o Rio do ponto de vista do aniquilamento da nossa história, é a representação perfeita do paradigma da modernização cuja proposta é, de fato, expulsar os pobres das capitais com intervenções violentas e não raras assassinas.


Nesse sentido, o filme é uma investigação narrativa e imagética, misturando fatos com ficção a partir da dialética da sobreposição de imagens. Até que ponto a realidade é concreta? Até que o documentário enquanto gênero cinematográfico consegue retratar o real? Até que ponto, parafraseando o escritor William Faulkner originalmente escrito para se referir ao jornalismo, a pior fantasmagoria é mais verdadeira do que a melhor documental de Patricio Guzmán?


Seria, então, a realidade algo insuportável sem a fábula da mentira? Ou seria o Rio de Janeiro, mesmo com a primazia literária de Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Antonio Maria, Clarice Lispector e Lima Barreto, uma cidade que a um só tempo é capaz de unir ruína pela desigualdade e monumento pela tertúlia do aconchego, em suas calçadas hoje povoadas por desalentados de qualquer assistência social.


Com roteiro assinado por João Paulo Cuenca, uma das cenas mais marcantes do filme é quando a professora (personagem de Silvana Stein) e seu aluno (Negro Leo) batem um papo com um magnata de uma construtora para saber sobre a implosão da perimetral, na região portuária do Rio - foi uma dessas obras mirabolantes para os super eventos que a antiga capital do Brasil sediou na década passada. O sujeito, ao ser interpelado sobre seus atos de destruição, diz: “nós não destruímos, nós implodimos”.


Ué, mas não é a mesma coisa, digo, não leva abaixo certas construções? Segura aí que vem mais balela: “o impacto é significativo para o público nas regiões pobres. Nas regiões ricas, então, o preço vai lá para cima”. É uma justificativa, cá entre nós, um tanto atabalhoada. Sim, atrapalhada: esse pessoal que se preocupa com grana não sabe usar com destreza as palavras. Tudo é cifras.


Muito mais do que um docudrama sobre os efeitos da urbanização para a cidade, “Subterrânea” se propõe a questionar os limites da realidade e ficção. Isso, em uma sociedade pós-moderna infestada de notícias falsas, é crucial. Crucial, não: é essencial.


Em tempo: a força cênica da atriz Helena Ignez faz do cinema uma arte verdadeiramente apaixonante. Após passarem dois dois embaixo da terra, a professora e o aluno estão perdidos em meio à cidade. Ele vai até uma senhora que está no ponto, esperando o ônibus e pergunta que horas são. “7 horas”, ela disse. Helena simplesmente é maravilhosa.


Filme assistido na Mostra de Cinema de Tiradentes


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